12 janeiro, 2017

Livro: 108 Contos e Parábolas Orientais

Image result for 108 contos e parabolas

Esse livro é excelente. Há várias edições somente com as histórias. Mas o diferencial nesse são os comentários que a monja Coen faz. Trazendo fatos de sua trajetória monástica. As histórias dão a oportunidade de dar exemplos de fatos reais, que ela presenciou, viu ou teve a experiência própria deles.

Tentar explicar essas parábolas ou contos pode ser uma cilada. Interpretações são como portais abertos para o infinito. Poucos tem conhecimento de mundo, maturidade de prática, experiência, não da leitura e do saber intectual, mas do testar em si mesmo. Monja Coen teve o cuidado necessário.

Isso me lembra uma outra historia que também gosto e não está no livro.

"Um homem ia casar e portanto como era costume no oriente procurou um mestre de caligrafia para que ele escrevesse algo auspicioso para os noivos. Um dizer, um provérbio, um conselho em caracteres, escrito em uma tabuleta de madeira que é colocado em um lugar visível para que quem mora na casa sempre veja e lembre de viver de acordo com o que ali está escrito. Muitos templos e centros zen tem algo assim em algum lugar escrito.

Então o mestre pegou seu pincel e escreveu numa tabuleta os caracteres para "Cuidado!"
O homem olhou e achou que uma palavra era pouco e pediu que o mestre escrevesse mais alguma coisa. O mestre escreve;"Cuidado!" Sem entender e um pouco frustrado com o que o caligrafo havia escrito, ele insistiu que o mestre escrevesse algo mais. O mestre escreveu: "Cuidado!"

Uma caligrafia assim está gravada na armação de madeira que sustenta o telhado  de um Mosteiro Zen Budista onde fui fazer retiro. Poucos veem isso, mas, às vezes, algum professor usa-a de expediente para sua palestra do dharma. 

Minha única ressalva ao livro é a citação da palavra "koans" na introdução, e  na contracapa e em uma ou outra página interna , Há pouco de koans no livro. Quase nada. Monja Coen foi aluna de Maezumi Roshi que foi treinado inicialmente no Rinzai e portanto tinha experiência de koans, mas depois Maezumi se associou ao Soto Zen que não usa mais koans.

Há no leitor brasileiro uma atração natural por kaans devido aos primeiros livros que foram publicados no país falarem sobre koans. Eu recebo muitas consultas sobre esse assunto já que na Escola Zen Kwan Um, talvez uma das únicas que ainda use os koans como ferramenta de treinamento, ser a escola onde pratico. Mas ao mesmo tempo me vejo na ingrata posição de decepcionar essas pessoas porque não temos no Brasil ainda uma pessoa, um mestre (a) de koans. Na minha Escola Zen e acho que em todas que já usaram kaons,somente um mestre pode pedir koans ao aluno, ou quem quer que lhe solicite. Isso é frustrante para aqueles que querem ter acesso aos koans, mas ao mesmo tempo que é uma barreira e uma proteção. Você não vai deixar uma "criança" brincar com fogo.

Explicar Koans não ajuda a resolvê-los. E tentar achar um por quê para certas histórias pode ser um bom argumento para a leitura, mas para o praticante não leva a lugar nenhum. Não se deve resolver os koans ou dar pistas sobre a sua resolução. Isso é algo muito próximo da ansiedade ou da trapaça.

Ninguém pode fazer o caminho do despertar pelo outro. Mesmo que um cão seja um cão independente de ele ser de Joshu ou meu. Os koans são uma ferramenta importante no processo de abertura da "mente que não sabe". Aquela mente não racional que fica debaixo de camadas e camadas de lixo que se acumula com pensamentos e padrões racionais.

Acho essas histórias muito inspiradoras. Mas a maioria delas não são koans. São histórias. Acontecimentos, registros, parábolas. São uteis para ensinar, para inspirar, para dar aquele insight. Um clic em algum momento. Por isso elas existem e foram copiadas e divulgadas em vários idiomas. Se alguma delas te trouxer de volta para a tua verdadeira  natureza, a intenção se cumpriu. Assim como se cumpriu com muitos dos personagens descritos nessas histórias. Um detalhe, um olhar, um barulho, um tapa na cara, um tropeço, Enfim, em algum momento eles despertaram.

Que seja apenas mais uma leitura agradável ou que você tenha insights preciosos isso não importa. Livros são livros e alguns cumprem seu caminho outros não servem nada sem que sejam testados.
Mas cuidado, nem tudo pode ser testado por todos. Como diz o mestre de caligrafia, sempre lembre do que está escrito na tabuleta: "Cuidado!"


Sem comentários: