04 dezembro, 2014

O Americano Teimoso

 Havia um americano de N.Y que durante muitos anos frequentou a sociedade zen e o templo ouvindo palestras. Leu tudo o que pode e encontrou sobre o budismo, sobre o zen. Leu sutras, koans. Conversou e discutiu o que leu com várias pessoas, mas nunca se sentou em zazen. Nunca tentou por em prática o que lera.

Este homem sofria muito com uma úlcera há tempos, e achou que se conseguisse a iluminação ficaria curado.

Então ele largou o emprego, vendeu o carro e comprou uma passagem para o Japão. Os amigos acharam que ele tinha pirado, mas mesmo assim ele foi. Estava obcecado pelo Satori.
Chegando no Japão, entrou em contato com vários mosteiros. Depois de uma semana, nenhum havia dado resposta a seu pedido de visitação ou retiro. Quando já ia desistir e voltar para N.Y, o Roshi de um mosteiro que fica próximo ao Monte Fuji o chamou. Disse-lhe: “Vc. pode vir visitar o mosteiro e ficar, mas apenas dois dias.”

Era inverno. Os mosteiros não têm nenhum tipo de aquecimento. São lúgubres e terrivelmente gelados.

O Roshi o recebeu com amabilidade. Apesar de cansado ele quis começar a prática imediatamente. O Roshi explicou como se sentar e o que ele tinha que fazer. Ele tinha grande dificuldade em permanecer sentado e se concentrar, mas estava decidido a não desistir.

No dia seguinte esteve no mosteiro um praticante leigo. O americano conversou com ele, lhe fez perguntas sobre o Satori, etc. Depois o Roshi recebeu uma carta desse visitante informando-o que havia atingido o Satori após conversar com o americano. Isto fez o Roshi tomar a decisão de leva-lo a um sesshin (retiro) em outro mosteiro, cujo Roshi era conhecido pela severidade com que conduzia o sesshin.
Chegando lá, ele comeu e foi dormir, pois no dia seguinte teria que acordar às 3:30.

Foram os dias mais penosos de sua vida. Ele não conseguia parar quieto em nenhuma posição, nem mesmo sentado em uma cadeira, mas o desejo em atingir o Satori era tão forte que ele não desistiu. Porém ao mesmo tempo era uma obsessão. Algo que ele tinha que conseguir para não se sentir fracassado, para não voltar para a América sem ter conseguido seu objetivo. O americano não chegou ao Satori naquele retiro, muitos outros se seguiram e somente depois de cinco anos de prática é que ele pode sentir sua transformação, mesmo assim foi uma iluminação superficial, mas isso já não o afligia mais. Ele havia encontrado seu caminho no monastério e decidido ficar.

História contada por Philip Kapleau no livro Os Três Pilares do Zen


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