31 dezembro, 2014

Aquela Mensagem de Fim de Ano

Deixar para lá, deixar ir é uma das premissas do Zen Budismo. Não vemos muitos professores falando claramente nesse assunto porque eles foram acostumados a buscar entendimento nos livros. Mas o mais puro ensinamento do Zen vem da experiência vivenciada no cotidiano. Muitas vezes me perguntam onde e como estudar o zen. Há muitos posts aqui no blog e em outros. Mas estudar o zen sem estudar a si mesmo é no mínimo estudar uma filosofia interessante que pode ser útil ou não. Pode ser útil se cruzamos com nossas experiências e pode ser uma complicação se a levamos ao pé da letra e tentamos fazer alguma mágica o obter algum milagre. Não, não serei eu que vou dizer-lhes que milagres não existem. Eles existem sim, mas sem levantar e fazer o milagre acontecer não haverá nem milagre nem vida, porque a vida é feita de ações. Boas ou ruins.  
Sofremos dessa síndrome de querer acabar com tudo que incomoda. Nos esquecemos que o conjunto de tudo que já existiu é o que faz o que somos. Nesse conjunto não há só coisas boas. Há muitas malvadezas e horrores mil. Pouca paz e pouca novela com final feliz.
Poderia haver? Ah, poderia se deixássemos ir mais coisas que  nos incomodam. Se não nos incomodássemos com coisas sem importância. Se não incomodássemos os outros por nada ou porque algo nos incomoda. 

Tente exercitar esse deixar para lá. Não entre em discussões mesmo que elas tenham fundamento. Mesmo que não sejam discussões verbais. Há muito ódio e rancor sendo destilado nas redes sociais. 
Por que nos envolvemos tanto na vide dos outros? Por que opinamos sobre a vida alheia ou nos metemos em qualquer assunto que pipoca por ai com uma sanha de sabedoria e achismo ou nosso peculiar hábito de levar tudo na piada que já foi uma característica de bom humor mas tornou-se doentio. Será que conseguimos deixar de replicar um comentário ou fazer outro maldoso? Será que conseguimos deixar de falar mal de tudo e todos que nem conhecemos apenas para seguir a manada nos eventos que aparecem todos os dias e que não passam de distrações? E daqueles que conhecemos conseguimos ser honestos consigo mesmo e deixar de importuná-los com piadinhas, sarrinhos e risinhos ocultos? Melhor deixar para lá e gastar nossa energia com algo que nos traz algo de bom. Uma caminhada, a prática de um esporte, dança, cozinhar, fazer um trabalho voluntário, visitar um centro zen, começar a fazer meditação zen, etc.

E por fim deixar para lá esse ano. O que não foi feito não foi feito. Não convém carregar pedras na bolsa por anos. Tire essas pedras da bolsa e faça uma boa sopa.  E deixe para lá.

20 dezembro, 2014

Transformando o Zen num negócio

Algumas pessoas que conheço já se "apropriaram" da experiência e dos ensinamentos para transformá-los num meio de vida. Fazem palestras motivacionais, workshops, cursos, dão aconselhamento a desmotivados e desesperados. Algumas vezes também me perguntei o que eu poderia fazer nesse caminho. Mas todas as vezes alguma voz interior me dizia que não era para isso que eu estava praticando. E então, apesar de ver muitas pessoas bem sucedidas nessas tarefas-zen-business, eu recuava na minha intenção. Não conseguiria. Me sentiria impura usando os ensinamentos para criar um coaching de uma terapia inventada por mim ou uma mistura de terapias que eu achasse que se parecem com o Zen. Mesmo que eu achasse que alguém poderia se beneficiar com isso. Até onde iria minha boa vontade ou minha ilusão? E se eu fosse monja, então, minha credibilidade aumentaria muito. Ou eu não sou esperta o bastante ou não gosto tanto assim de dinheiro.

Todavia, em todas as tradições, esse tipo de movimento aconteceu e ainda acontece. Foram lá atrás os ocidentais que pegaram a yoga e a transformaram num exercício corporal- yoga de ginásio. Yoga para gestantes, yoga para isso e para aquilo. Com o Budismo não foi diferente.

Meu guia para evitar essas ciladas é o próprio Buda. Sempre me pergunto se ele faria ou fez tal coisa. Nem sempre é possível obter uma resposta precisa pois o mundo mudou muito desde que Buda nos deixou. Mas o Darma (os ensinamentos) , ainda que tenham mudado no jeito de comunicar-se com as pessoas, em sua essência é a mesma.

Se o que as pessoas que usam os ensinamentos em seus negócios querem é mudar o jeito de transmiti-los agregando algo mais que chegue melhor à mente e ao entendimento de quem "ensinam", é compreensível. Se é apenas uma enganação ou um atalho para não fazer o caminho mais difícil pode ser que não ajude. Pode ser que pareça que está ajudando mas depois que acaba aquela sensação de "bem estar", então se percebe que é preciso mais cursos, mais workshops, mais palestras. É como um remédio que só paralisa a dor por um tempo, mas a essência da dor, de onde ela vem e porque ,jamais é investigado e ela continua a vir e continuamos a tomar analgésicos que nos fazem mais mal que bem. E para isso os falsos curandeiros não podem nos ajudar.

04 dezembro, 2014

O Americano Teimoso

 Havia um americano de N.Y que durante muitos anos frequentou a sociedade zen e o templo ouvindo palestras. Leu tudo o que pode e encontrou sobre o budismo, sobre o zen. Leu sutras, koans. Conversou e discutiu o que leu com várias pessoas, mas nunca se sentou em zazen. Nunca tentou por em prática o que lera.

Este homem sofria muito com uma úlcera há tempos, e achou que se conseguisse a iluminação ficaria curado.

Então ele largou o emprego, vendeu o carro e comprou uma passagem para o Japão. Os amigos acharam que ele tinha pirado, mas mesmo assim ele foi. Estava obcecado pelo Satori.
Chegando no Japão, entrou em contato com vários mosteiros. Depois de uma semana, nenhum havia dado resposta a seu pedido de visitação ou retiro. Quando já ia desistir e voltar para N.Y, o Roshi de um mosteiro que fica próximo ao Monte Fuji o chamou. Disse-lhe: “Vc. pode vir visitar o mosteiro e ficar, mas apenas dois dias.”

Era inverno. Os mosteiros não têm nenhum tipo de aquecimento. São lúgubres e terrivelmente gelados.

O Roshi o recebeu com amabilidade. Apesar de cansado ele quis começar a prática imediatamente. O Roshi explicou como se sentar e o que ele tinha que fazer. Ele tinha grande dificuldade em permanecer sentado e se concentrar, mas estava decidido a não desistir.

No dia seguinte esteve no mosteiro um praticante leigo. O americano conversou com ele, lhe fez perguntas sobre o Satori, etc. Depois o Roshi recebeu uma carta desse visitante informando-o que havia atingido o Satori após conversar com o americano. Isto fez o Roshi tomar a decisão de leva-lo a um sesshin (retiro) em outro mosteiro, cujo Roshi era conhecido pela severidade com que conduzia o sesshin.
Chegando lá, ele comeu e foi dormir, pois no dia seguinte teria que acordar às 3:30.

Foram os dias mais penosos de sua vida. Ele não conseguia parar quieto em nenhuma posição, nem mesmo sentado em uma cadeira, mas o desejo em atingir o Satori era tão forte que ele não desistiu. Porém ao mesmo tempo era uma obsessão. Algo que ele tinha que conseguir para não se sentir fracassado, para não voltar para a América sem ter conseguido seu objetivo. O americano não chegou ao Satori naquele retiro, muitos outros se seguiram e somente depois de cinco anos de prática é que ele pode sentir sua transformação, mesmo assim foi uma iluminação superficial, mas isso já não o afligia mais. Ele havia encontrado seu caminho no monastério e decidido ficar.

História contada por Philip Kapleau no livro Os Três Pilares do Zen