20 março, 2014

A importância do voto de silêncio nos retiros zen budistas

Não é frescura nem pedantismo. A prática do Zen Budismo no Brasil aboliu o silêncio. Não, minto, ele é constantemente solicitado, lembrado, mas em vão. As pessoas que vem a retiros zen budistas resistem veementemente a manterem-se caladas. Acham que estão perdendo a oportunidade de conhecer quem está ali. Mas se foram ao retiro para conhecer pessoas devem estar equivocadas? Nos retiros miramos o chão e não as pessoas. Não vigiamos os outros vigiamos a nós mesmos. Pois se olhamos muito em volta nos distraímos, esquecemos de fazer o que nos cabe fazer. 

Brasileiros não entendem a prática do silêncio? Não deve ser verdade, pois eu entendo muito bem e sou brasileira. 

Há lugares onde já se desistiu de pedir para as pessoas respeitarem o silêncio nos intervalos e no período de trabalho. Embora ele seja lembrado nas falas dos professores/ras.

O que se perde abrindo mão dessa prática? Para quem já aprendeu a manter a atenção independente do que aconteça a sua volta, muito pouco, mas para quem dá os primeiros passos perde tudo. É como se a pessoa fosse a um encontro festivo e não a um retiro zen budista, que é um encontro festivo, mas a festa acontece no seu ser, sem alarde, sem precisar dizer com palavras da sua alegria e do seu contentamento. 
Essa festa não acontece para quem só quer socializar, fazer contatos, tagarelar, rir e fazer amizades. Acontece uma satisfação de encontrar essas interações que talvez traga as pessoas de volta a novos  retiros até que um dia por si só elas acabem percebendo o tesouro da prática do silêncio.

Quando faço retiro em PZC é como se nada mais existisse. O silêncio do lugar e o silêncio do retiro geram uma energia que se auto alimenta de todos os elementos envolvidos. Saio do retiro com uma alegria de criança e com um corpo que poderia passar dias sem comer pois estou plena. Em retiros em Providence quando precisamos de algo escrevemos em um papel endereçado à pessoa responsável pelo andamento do retiro. Essa pessoa tem um título: "House Master"

Não quero dizer que americanos ou europeus, ou asiáticos, não conversem. Conversam sim, especialmente as mulheres e levam comes e bebes para o retiro. Assim como nós, elas acham que passarão fome no retiro. Nada muito diferente daqui.

Mesmo que nos prometessem um momento de confraternização ao final do retiro talvez nem assim nos contentaríamos em esperar por esse momento para interagir.

Os professores continuarão pedindo silêncio porque é seu dever lembrar-nos, mas, nós brasileiros, festivos, continuaremos ignorando esse pedido?


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