31 dezembro, 2014

Aquela Mensagem de Fim de Ano

Deixar para lá, deixar ir é uma das premissas do Zen Budismo. Não vemos muitos professores falando claramente nesse assunto porque eles foram acostumados a buscar entendimento nos livros. Mas o mais puro ensinamento do Zen vem da experiência vivenciada no cotidiano. Muitas vezes me perguntam onde e como estudar o zen. Há muitos posts aqui no blog e em outros. Mas estudar o zen sem estudar a si mesmo é no mínimo estudar uma filosofia interessante que pode ser útil ou não. Pode ser útil se cruzamos com nossas experiências e pode ser uma complicação se a levamos ao pé da letra e tentamos fazer alguma mágica o obter algum milagre. Não, não serei eu que vou dizer-lhes que milagres não existem. Eles existem sim, mas sem levantar e fazer o milagre acontecer não haverá nem milagre nem vida, porque a vida é feita de ações. Boas ou ruins.  
Sofremos dessa síndrome de querer acabar com tudo que incomoda. Nos esquecemos que o conjunto de tudo que já existiu é o que faz o que somos. Nesse conjunto não há só coisas boas. Há muitas malvadezas e horrores mil. Pouca paz e pouca novela com final feliz.
Poderia haver? Ah, poderia se deixássemos ir mais coisas que  nos incomodam. Se não nos incomodássemos com coisas sem importância. Se não incomodássemos os outros por nada ou porque algo nos incomoda. 

Tente exercitar esse deixar para lá. Não entre em discussões mesmo que elas tenham fundamento. Mesmo que não sejam discussões verbais. Há muito ódio e rancor sendo destilado nas redes sociais. 
Por que nos envolvemos tanto na vide dos outros? Por que opinamos sobre a vida alheia ou nos metemos em qualquer assunto que pipoca por ai com uma sanha de sabedoria e achismo ou nosso peculiar hábito de levar tudo na piada que já foi uma característica de bom humor mas tornou-se doentio. Será que conseguimos deixar de replicar um comentário ou fazer outro maldoso? Será que conseguimos deixar de falar mal de tudo e todos que nem conhecemos apenas para seguir a manada nos eventos que aparecem todos os dias e que não passam de distrações? E daqueles que conhecemos conseguimos ser honestos consigo mesmo e deixar de importuná-los com piadinhas, sarrinhos e risinhos ocultos? Melhor deixar para lá e gastar nossa energia com algo que nos traz algo de bom. Uma caminhada, a prática de um esporte, dança, cozinhar, fazer um trabalho voluntário, visitar um centro zen, começar a fazer meditação zen, etc.

E por fim deixar para lá esse ano. O que não foi feito não foi feito. Não convém carregar pedras na bolsa por anos. Tire essas pedras da bolsa e faça uma boa sopa.  E deixe para lá.

20 dezembro, 2014

Transformando o Zen num negócio

Algumas pessoas que conheço já se "apropriaram" da experiência e dos ensinamentos para transformá-los num meio de vida. Fazem palestras motivacionais, workshops, cursos, dão aconselhamento a desmotivados e desesperados. Algumas vezes também me perguntei o que eu poderia fazer nesse caminho. Mas todas as vezes alguma voz interior me dizia que não era para isso que eu estava praticando. E então, apesar de ver muitas pessoas bem sucedidas nessas tarefas-zen-business, eu recuava na minha intenção. Não conseguiria. Me sentiria impura usando os ensinamentos para criar um coaching de uma terapia inventada por mim ou uma mistura de terapias que eu achasse que se parecem com o Zen. Mesmo que eu achasse que alguém poderia se beneficiar com isso. Até onde iria minha boa vontade ou minha ilusão? E se eu fosse monja, então, minha credibilidade aumentaria muito. Ou eu não sou esperta o bastante ou não gosto tanto assim de dinheiro.

Todavia, em todas as tradições, esse tipo de movimento aconteceu e ainda acontece. Foram lá atrás os ocidentais que pegaram a yoga e a transformaram num exercício corporal- yoga de ginásio. Yoga para gestantes, yoga para isso e para aquilo. Com o Budismo não foi diferente.

Meu guia para evitar essas ciladas é o próprio Buda. Sempre me pergunto se ele faria ou fez tal coisa. Nem sempre é possível obter uma resposta precisa pois o mundo mudou muito desde que Buda nos deixou. Mas o Darma (os ensinamentos) , ainda que tenham mudado no jeito de comunicar-se com as pessoas, em sua essência é a mesma.

Se o que as pessoas que usam os ensinamentos em seus negócios querem é mudar o jeito de transmiti-los agregando algo mais que chegue melhor à mente e ao entendimento de quem "ensinam", é compreensível. Se é apenas uma enganação ou um atalho para não fazer o caminho mais difícil pode ser que não ajude. Pode ser que pareça que está ajudando mas depois que acaba aquela sensação de "bem estar", então se percebe que é preciso mais cursos, mais workshops, mais palestras. É como um remédio que só paralisa a dor por um tempo, mas a essência da dor, de onde ela vem e porque ,jamais é investigado e ela continua a vir e continuamos a tomar analgésicos que nos fazem mais mal que bem. E para isso os falsos curandeiros não podem nos ajudar.

04 dezembro, 2014

O Americano Teimoso

 Havia um americano de N.Y que durante muitos anos frequentou a sociedade zen e o templo ouvindo palestras. Leu tudo o que pode e encontrou sobre o budismo, sobre o zen. Leu sutras, koans. Conversou e discutiu o que leu com várias pessoas, mas nunca se sentou em zazen. Nunca tentou por em prática o que lera.

Este homem sofria muito com uma úlcera há tempos, e achou que se conseguisse a iluminação ficaria curado.

Então ele largou o emprego, vendeu o carro e comprou uma passagem para o Japão. Os amigos acharam que ele tinha pirado, mas mesmo assim ele foi. Estava obcecado pelo Satori.
Chegando no Japão, entrou em contato com vários mosteiros. Depois de uma semana, nenhum havia dado resposta a seu pedido de visitação ou retiro. Quando já ia desistir e voltar para N.Y, o Roshi de um mosteiro que fica próximo ao Monte Fuji o chamou. Disse-lhe: “Vc. pode vir visitar o mosteiro e ficar, mas apenas dois dias.”

Era inverno. Os mosteiros não têm nenhum tipo de aquecimento. São lúgubres e terrivelmente gelados.

O Roshi o recebeu com amabilidade. Apesar de cansado ele quis começar a prática imediatamente. O Roshi explicou como se sentar e o que ele tinha que fazer. Ele tinha grande dificuldade em permanecer sentado e se concentrar, mas estava decidido a não desistir.

No dia seguinte esteve no mosteiro um praticante leigo. O americano conversou com ele, lhe fez perguntas sobre o Satori, etc. Depois o Roshi recebeu uma carta desse visitante informando-o que havia atingido o Satori após conversar com o americano. Isto fez o Roshi tomar a decisão de leva-lo a um sesshin (retiro) em outro mosteiro, cujo Roshi era conhecido pela severidade com que conduzia o sesshin.
Chegando lá, ele comeu e foi dormir, pois no dia seguinte teria que acordar às 3:30.

Foram os dias mais penosos de sua vida. Ele não conseguia parar quieto em nenhuma posição, nem mesmo sentado em uma cadeira, mas o desejo em atingir o Satori era tão forte que ele não desistiu. Porém ao mesmo tempo era uma obsessão. Algo que ele tinha que conseguir para não se sentir fracassado, para não voltar para a América sem ter conseguido seu objetivo. O americano não chegou ao Satori naquele retiro, muitos outros se seguiram e somente depois de cinco anos de prática é que ele pode sentir sua transformação, mesmo assim foi uma iluminação superficial, mas isso já não o afligia mais. Ele havia encontrado seu caminho no monastério e decidido ficar.

História contada por Philip Kapleau no livro Os Três Pilares do Zen


16 novembro, 2014

Devagar, mas não, quase parando

Este blog anda devagar, mas não está ainda no seu fim. Talvez nem chegue ao fim. Todavia já não há mais o que escrever. Ou não tenho tido tantos contatos com a pratica em grupo para observar ou perceber algo que possa comentar. Vou ter que reinventar algo novo para dar continuidade. 

Algumas pessoas me escrevem de tempos em tempos perguntando-me sobre o zen coreano. Há muitos estilos de zen, seja na Coreia, no Japão, China, Vietnam e por aqui no Ocidente. Já não falamos pelo país, mas em Escolas específicas e há que se conhecer um pouco de cada uma para averiguar se temos afinidade com alguma. Depois há que se experimentar para sentir se as impressões boas ou ruins se confirmam na prática. Há que se permitir um tempo de convivência deixando de lado nossas preferências e a dança do "gosto não gosto" a interferir na nossa escolha. 

Algumas pessoas esperam que o zen vá até elas com um Kit Zen Pratica pronto. Existem lugares que fazem isso. Eu não tenho nenhum kit pronto. Há que se fazer algum esforço para obter algum resultado. 

"Ah, mas aqui não tem nenhum grupo desse estilo", lamentam-se. Também não tinha quando conheci esse estilo. Eu corri atrás. Quando vinha alguém para o Brasil, eu estava lá. Fui para fora do país e ainda vou. Quem quer vai atrás não fica esperando uma porta abrir na frente da sua casa. Isso pode nunca vir a acontecer. Ou você vai ser aquela pessoa que vai abrir a porta ou vai ficar se lamentando até desistir ou procurar uma outra Escola Budista que já tenha se estabelecido. Boa sorte!




20 setembro, 2014

Retiro Caminhando


Esse é o tipo de retiro que mais gosto. Não que eu não goste do retiro sentado com intervalos de caminhada. Mas caminhar longos trechos por muitos dias tornou-se uma opção para a falta de locais de prática. Há quem chame de peregrinação. Eu costumo chamar de retiro. Mesmo que ao fim se chegue a uma Catedral e não a um centro zen. 




26 agosto, 2014

Quinta Sinfonia: Analgésico?

 Li em algum lugar que um estudo com células cancerígenas, as mais agressivas para câncer de mama foram submetidas a sessões diárias de Quinta Sinfonia, que dura pouco mais de 30 minutos. Parece que as ondas emitidas pelo tcham tcham tcham mataram as células malignas.

Tenho tido muitas dores, inclusive nas mamas. Só a pouco tempo em visita ao médico, descobri que são decorrentes da pré menopausa. Então lembrei-me do artigo sobre a sinfonia e baixei um app que permite ouvi-la sem conexão a Internet e assim passei a ouvir uma ou duas vezes ao dia. Pode ser coincidência pura, mas a dores passaram ou diminuíram bastante. O aplicativo tem no Google Play.

02 agosto, 2014

Uma certa cobrinha


Certa vez um homem foi convidado à casa de seu amigo. Quando ai beber um copo de vinho que
lhe foi oferecido, pareceu-lhe ver uma cobrinha dentro do copo.
Não querendo embaraçar seu amigo,
chamando sua atenção sobre isso, corajosamente a engoliu.
Voltando para casa sentiu fortes dores no
estômago. Muitos remédios lhe foram aplicados mas, em vão,
e o homem agora gravemente enfermo,
sentia-se à beira da morte. Seu amigo, sabendo de seu estado,
convidou-o de novo para vir a sua casa.
Sentando seu amigo doente no mesmo lugar,
lhe ofereceu outra vez um copo de vinho dizendo-lhe
que era um remédio. Quando o homem doente levantou seu copo para beber,
viu de novo uma cobrinha dentro dele. Desta vez chamou a atenção
do amigo para ela. Sem dizer uma palavra o amigo apontou para o teto acima dele,
de onde pendia um arco. De repente o doente compreendeu que a
“cobrinha” era o reflexo do arco pendurado.

Os dois homens olharam um para o outro e riram. A dor do doente desapareceu.
Instantaneamente e ele recobrou a saúde.

22 junho, 2014

Clarice Explica

"Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho."

"Do not mistake: the simplicity is only achieved through hard work."

Clarice Lispector in: A Paixão Segundo GH

31 maio, 2014

Religião é necessária?


Buda não fundou nenhuma religião mas apenas foi seguindo as demandas que chegavam até ele e seus seguidores mais fieis que levaram adiante seus ensinamentos ajustando-os ou modificando de acordo com as necessidades de cada cultura por onde chegassem até o presente.

A religião só se faz necessária enquanto houver ignorância e sofrimento no mundo. A ausência de ignorância  e sofrimento coloca as religiões em uma situação de desuso.

Da mesma formas que a pobreza não contribui em nada ao progresso, mas é útil para manipular as pessoas que ignoram seus direitos, as religiões sempre usaram-se da ignorância dos individuas para obter poder e expandir-se.

Para muitas pessoas a religião continuará sendo necessária e um remédio útil. Para outras não. Elas poderão se beneficiar das ferramentas e da filosofia sem precisar se submeter a dogmas ou a lideranças desastradas ou gananciosas. Poderão exercer a verdadeira religião religando-se com sua Verdadeira Natureza.

Devemos lutar para que cada vez mais tenhamos sabedoria. Com sabedoria podemos despertar e ajudar ea proteger aqueles que ainda dormem na ignorância e na dependência daqueles que fazem má uso do poder que tem sobre os oprimidos.

Leia também: De volta aos tempos da Inquisição

21 maio, 2014

Monges x Praticantes Leigos

Buda disse-nos para não confiar nos outros e sim em nos mesmos. Nem sempre monges em uma comunidade são o melhor exemplo a ser seguido. Nem todos são de fato monges. A maioria não é mais que nem menos que qualquer leigo. Ambos, muitas vezes tem os mesmos preceitos. Mas acima de tudo não devemos esquecer que monges e monjas são pessoas como nós. Com as mesmas necessidades e sofrimentos. Não são pessoas diferenciadas ou santas.

Quando for a um retiro mire-se no professor/ra, não nos monges e monjas. Os mestres são o espelho da sanga. Na verdade tudo que tem reflexo serve. Monges e monjas estão no mesmo processo de aprendizado que qualquer leigo. Talvez até em condição menos favorável porque todos os olhos se voltam para eles e eles precisam ser forçosamente o que ainda não são. Muitas vezes ter o manto longo só lhes atrapalha, mas cabe a cada um ver-se nessa condição e corrigir sua postura e cabe ao professor também fazer os ajustes necessários. Se você olhar para o monge pode não gostar do que vê e se decepcionar. Pode pensar: "Ele é um monge e faz isso!"

Há sim, bons exemplos de monges e monjas nas sangas ou em mosteiros, mas essa qualidade de monges e monjas leva tempo para se formar.

Já quando o mestre não serve de exemplo é melhor apenas sentar e esperar que a situação mude.

28 abril, 2014

Por que nos ofendemos tanto?


A nossa cultura é muito estranha no que diz respeito a expressar-se honestamente. As pessoas desejam ser
sinceras ou melhor que os outros sejam sinceros com elas, mas quando se vêem diante de demonstrações de sinceridade recuam. A verdade não é para ser usada como uma arma que se envia goela abaixo. A verdade nem é a verdade do outro. A verdade minha, do meu ponto de vista é outra, sempre será outra. Por isso há tanto conflito. Porque não paramos para pensar se o que nos dizem nos serve?

É notório que não viveríamos nesse mundo se não soubéssemos dissimular. Aqueles que não dissimulam e percebem a dissimulação como algo negativo sofrem mais para se ajustar ao nosso modo de vida.

Seja como for o sentimento de ofensa ao meu ver está muito ligado a imaturidade mental do ser humano. Quanto mais infantilizado ele for mais ele se sentira incomodado em ser chamado atenção, corrigido, ou em receber sugestões para possíveis mudanças no seu comportamento em grupo.

A infantilização é uma característica cada vez mais crescente na nossa cultura. Temos todo o tipo de tutela e proteção. Quando nos vemos sem essas muletas reagimos com aspereza ou até violência pois não queremos perder o terreno que nos sustenta.

21 abril, 2014

O Fenômeno Monástico no Brasil

Observo com interesse o mongeisação das comunidades zen budistas. Por muito tempo elas permaneceram economicas ao monasticismo ou restritas aos estrangeiros. Havia um imenso tempo de espera para que alguém fosse admitido monge ou monja. Muitos desistiram de esperar.

Hoje, especialmente no Brasil, tão logo alguém entre na comunidade, não raro o desejo de receber os votos de monge ou monja se concretiza rapidamente. Pode-se dizer que uma comunidade monástica tem sido gerada a toque de caixa nos últimos dez anos para suprir o longo vazio pelo qual o país passou sem esses elementos nas comunidades zen budistas. Mas eles não são efetivamente monges ou monjas  completos apenas porque receberam seus preceitos iniciais. 

Nesse processo a pergunta é: onde ficam os leigos? Eles ficarão encurralados no meio de uma multidão de noviços e noviças. Se sentirão inferiores? Sairão da comunidade? Ou se sentirão estimulados a também pedir para serem monges e monjas?

Alguém dirá, bem, quando não havia monges e monjas reclamavam. Agora que os temos reclamam igualmente. Reclamar é o que melhor e  pior fazemos. O que fazer? Silenciar?

Considerando esse fenômeno na Escola Zen onde os monges e monjas podem sê-lo ainda sendo casados, é uma forma de ser monge mantendo uma certa laicidade. Dai que a diferença entre um leigo de fato e um monge-leigo, pode ficar confusa para muitos. E a ideia de um monge monástico esquecida.

Hoje temos mais Senseis, é verdade, mas eles ainda estão presos a seus mestres que os levam para passear por uma coleirinha. Precaução nunca é demais. Quando assumirem comunidades efetivamente é que se verá sua atuação. Tudo isso não é bom nem ruim. Faz parte do processo. Ir rápido demais é um risco, mas é um risco que pode ser observado de perto.

Na minha humilde percepção só deveria ser monge/monja quem postulasse ser Sensei. Os demais deveriam permanecer leigos. Mas essa não é uma regra sem exceções.

Há muitos arranjos e muitas possibilidades. Eu por exemplo seria uma monja eremita. Então para que ser monja. Todavia seria uma opção aceitável. Só precisaria encontrar um mestre que me aceitasse nessa condição.



20 março, 2014

A importância do voto de silêncio nos retiros zen budistas

Não é frescura nem pedantismo. A prática do Zen Budismo no Brasil aboliu o silêncio. Não, minto, ele é constantemente solicitado, lembrado, mas em vão. As pessoas que vem a retiros zen budistas resistem veementemente a manterem-se caladas. Acham que estão perdendo a oportunidade de conhecer quem está ali. Mas se foram ao retiro para conhecer pessoas devem estar equivocadas? Nos retiros miramos o chão e não as pessoas. Não vigiamos os outros vigiamos a nós mesmos. Pois se olhamos muito em volta nos distraímos, esquecemos de fazer o que nos cabe fazer. 

Brasileiros não entendem a prática do silêncio? Não deve ser verdade, pois eu entendo muito bem e sou brasileira. 

Há lugares onde já se desistiu de pedir para as pessoas respeitarem o silêncio nos intervalos e no período de trabalho. Embora ele seja lembrado nas falas dos professores/ras.

O que se perde abrindo mão dessa prática? Para quem já aprendeu a manter a atenção independente do que aconteça a sua volta, muito pouco, mas para quem dá os primeiros passos perde tudo. É como se a pessoa fosse a um encontro festivo e não a um retiro zen budista, que é um encontro festivo, mas a festa acontece no seu ser, sem alarde, sem precisar dizer com palavras da sua alegria e do seu contentamento. 
Essa festa não acontece para quem só quer socializar, fazer contatos, tagarelar, rir e fazer amizades. Acontece uma satisfação de encontrar essas interações que talvez traga as pessoas de volta a novos  retiros até que um dia por si só elas acabem percebendo o tesouro da prática do silêncio.

Quando faço retiro em PZC é como se nada mais existisse. O silêncio do lugar e o silêncio do retiro geram uma energia que se auto alimenta de todos os elementos envolvidos. Saio do retiro com uma alegria de criança e com um corpo que poderia passar dias sem comer pois estou plena. Em retiros em Providence quando precisamos de algo escrevemos em um papel endereçado à pessoa responsável pelo andamento do retiro. Essa pessoa tem um título: "House Master"

Não quero dizer que americanos ou europeus, ou asiáticos, não conversem. Conversam sim, especialmente as mulheres e levam comes e bebes para o retiro. Assim como nós, elas acham que passarão fome no retiro. Nada muito diferente daqui.

Mesmo que nos prometessem um momento de confraternização ao final do retiro talvez nem assim nos contentaríamos em esperar por esse momento para interagir.

Os professores continuarão pedindo silêncio porque é seu dever lembrar-nos, mas, nós brasileiros, festivos, continuaremos ignorando esse pedido?


13 março, 2014

Não esqueça sua mente no banheiro

Limpar banheiros é tão importante quanto fazer meditação. Estive em muitos banheiros até hoje. Em muitos retiros com banheiros impecáveis e em retiros onde o banheiro parecia-se com aqueles banheiros públicos onde você pensa: que horror! Mas se a necessidade é maior que a situação vc. se obriga a usar.

Certa vez um professor nos contou que vinha ao Brasil num voo lotado e que ao entrar no banheiro da aeronave deparou-se com um caos. Primeira atitude não foi praguejar, nem chamar a comissária de bordo. Ele simplesmente viu a situação e pós-se a limpar o banheiro Primeiro para que ele pudesse usa-lo. Depois para deixar limpo para quem viria. Essa deveria ser nossa atitude "normal", mas não vemos assim. Usamos e não pensamos nos demais. Usamos e só vemos nossa necessidade. E assim é em muitos outros temas da vida. Nossa necessidade vem primeiro. Nos servimos do máximo de comida e não lembramos dos outros na fila. Primeiro eu. 



Manter o banheiro limpo é um exercício de prática, seja na sua casa, no trabalho ou na rua. Limpe os banheiros por onde passar e deixe-os prontos para quem vier depois de você. Faça esse exercício sem aversão.


24 fevereiro, 2014

Você é bom ou bonzinho?

Isshin Sansei escreveu alguns artigos sobre o tema. Achei esse texto interessante.



"Ser bonzinho é fácil. Basta concordar com tudo.
Difícil é ser bom, discordar com firmeza mas com elegância quando a situação assim o exige.
 
Ser bonzinho é fácil. Basta ter sempre nos lábios um sorriso amarelo e um ar meio desamparado.
Difícil é ser bom e ter coragem para verbalizar que está zangado, magoado ou decepcionado, citar os motivos claramente, mas sem fazer tempestade.
 
Ser bonzinho é fácil. Basta adotar a lei das mentirinhas brancas. Difícil é ser bom e dizer a verdade da sua consciência, ainda que isso possa chocar algumas pessoas.
 
Ser bonzinho é fácil. Basta ficar em cima do muro ou ficar como um camaleão, assumindo sempre a cor que os outros esperam que você assuma.
Difícil é ser bom, descer do muro e não ter vergonha de assumir a sua verdadeira "cor".
 
Ser bonzinho é fácil. É dar o melhor no seu serviço somente quando seu chefe ou patrão estiverem presentes.
Ser bom é dar o seu melhor sempre, mesmo na ausência deles.
 
Ser bonzinho é fácil. Escolha seus candidatos pelo parentesco, pela amizade ou visando algum favorecimento pessoal. Ser bom é escolher o candidato mais capacitado, acompanhar seu desempenho e cobrar as promessas de campanha.
 
Ser bonzinho é fácil. Basta dar liberdade aos seus filhos e quando eles ficarem espaçosos e chatos, acalme-os comprando presentes e fazendo as suas vontades.
Ser bom é marcar presença, estudar junto, brincar junto, conhecer seus amigos, estabelecer limites e acima de tudo demonstrar o seu amor, mesmo que eles o considerem "por fora" e muito "careta".
 
Ser bonzinho é fácil. Faça uma média com seus velhos, ligue de vez em quando para saber se está tudo bem, mas sem muito envolvimento.
Ser bom é devolver para os seus velhos pelo menos parte da dedicação e do amor de uma vida inteira para que você fosse hoje a pessoa que você é. 
 
Ser bonzinho é fácil. Basta ir à missa ou ao culto, uma vez por semana, deixar a sua contribuição e sair de lá com sentimento de "obrigação cumprida".
Ser bom é viver o culto, viver a missa, trazer o "sagrado" para o seu dia-a-dia através de suas atitudes e de seus exemplos, dentro ou fora de casa.
 
Enfim, ser bonzinho é viver pegando atalhos para chegar mais rápido com um mínimo de amolação.
Ser bom dá trabalho, é jamais se desviar da avenida principal do seu destino, ainda que ela seja bem mais longa e exija alguns esforços extraordinários da sua parte.

O bonzinho apenas passa pelo mundo.
O bom transforma-se a si mesmo e muda o mundo."

 
 
 

20 fevereiro, 2014

Qual é a resposta?



How many roads must a man walk down,
Before you can call him a man?
How many seas must a white dove sail,
Before she sleeps in the sand?
Yes, and how many times must cannonballs fly,
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Yes, and how many years can a mountain exist,
Before it's washed to the seas (sea)
Yes, and how many years can some people exist,
Before they're allowed to be free?
Yes, and how many times can a man turn his head,
And pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind.

Yes, and how many times must a man look up,
Before he can see the sky?
Yes, and how many ears must one man have,
Before he can hear people cry?
Yes, and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Não me espanta a escalda de violência que todos agora falam ser insuportável, mas sempre existiu. O homem sempre foi violento e agressivo. Essa é uma das características da natureza animal que possivelmente sempre nos acompanhará. Dizer o "homem" parece lugar comum, mas o homem humano de verdade ainda não despontou, ainda não deu ar da sua graça. Esse humano que tanto esperamos para começar a viver de fato por aquilo que interessa e vale a pena viver. Não há humanos sobre a terra. Há sim, uma manada de gente lutando pela sobrevivência, atacando e se defendendo como fazem bem desde os primórdios da existência as bactérias, os vírus e todas as classes do reino animal. O homem é ainda o tal elo perdido. Quando vamos encontrá-lo e vamos despertar nossa humanidade? Talvez isso demore ainda muito tempo para acontecer. Talvez essa espécie como a conhecemos desapareça sem despertar. Triste? Não, é apenas assim como é. Tentamos, tentamos. Ora falhamos, tentamos novamente. Até que um dia talvez aconteça. Nem por isso devemos desanimar e nos juntar aos derrotistas. Devemos continuar a acreditar na possibilidade de melhorar senão de um todo pelo menos do indivíduo. Você pode fazer a sua parte ficando longe do animalesco que ronda a natureza nada humana.

A violência apenas reforça essa natureza que está nos nossos gens. Ela só deixará de ser potente se a gastarmos e não se a acumularmos mais e mais. Não precisamos mais caçar. Não precisamos mais ir para lugares distantes em busca de comida. E se um dia precisarmos talvez possamos usar essa força genética para sobreviver, mas usá-la para ações onde não nos cabe intervir é apenas seguir nosso instinto sem perceber que podemos mudar esse comportamento pelo bem de todos.


15 fevereiro, 2014

Preso a padrões


As religiões tradicionais ainda levarão algum tempo para admitirem que pessoas do mesmo sexo se casem em suas instituições. Mas isso não deve ser um empecilho para a união de iguais.

Qualquer um pode fazer cerimonia de casamento ou de batizado, mas o que se vê é que as pessoas ficam presas a dependência de uma religião ou outra aceita-los para que sejam felizes nos seus relacionamentos. Se for por falta de bênção, até eu posso fazer a cerimonia. 

Não existe casamento gay ou casamento budista ou qualquer outro casamento em qualquer religião. O que existe é a união de duas pessoas que querem construir algo juntas. O casamento é um padrão institucional no qual não precisamos nos amarrar. Podemos ser felizes sem seguir padrões. Casemos no papel, ok. Uma bênção por quem nos respeita e isso já seria o suficiente. Insistir em mais pode trazer sofrimento pois as instituições religiosas também tem seus padrões e tem o direito de preserva-los ou muda-los quando acharem que assim deve ser.

07 fevereiro, 2014

Boy George diz que o budismo o ajudou a ficar longe das drogas



Boy George diz que o budismo ajudou a ficar sóbrio. Questionado sobre se ele sente falta das drogas, o músico  de 52 anos disse : "Não. Não. Eu realmente levei isso para a conclusão final . A última vez que eu estava fora, fazendo o que chamamos de "busca." Eu estava completamente infeliz, mas eu não conseguia parar. Esta é a maldição de ser um viciado - você faz algo que é completamente desagradável e você continuar fazendo isso. A diferença entre agora e depois é que eu sei que eu sou um viciado agora.

''Eu voltei para o budismo no ano passado. Eu brinquei com ele na década de 80, mas eu estou realmente nele agora. Cantar é como  polir seu espelho. O que você quer ser? Eu sinto que queimei minhas chances, as pessoas têm me perdoado muito, eu não posso decepcioná-las de novo.''
Boy George - que lançou em 2013 seu primeiro álbum de material original, depois de há 18 anos sem gravar, 'This Is What I Do." Ele disse à Revista Q: ''Quando eu era muito jovem, eu era muito calmo, muito auto-suficiente. Sempre me colocavam para de fora das conversas de adultos. Eu finalmente cresci. Sou um cara muito mais agradável agora.''




31 janeiro, 2014

Cavalo de Madeira-2014



 

Happy New Year, may our strength gallop through the universe, sending love and compassion to all beings.

Zen Master Soeng Hyang



Pensei que não viveria para um ano do Cavalo de Madeira. Só se repete a cada 60 anos. Mas dizem que é  esse correspondente chinês ao meu signo. Vamos ver onde levarei esse cavalo barulhento, pois se é de madeira será para andar nele ou para andar com ele. Será para embalar-se nele?

Dizem que o cavalo é aquele ser que aguenta uma carga digamos "de cavalo". Nem reclama do trabalho, pois não lhe deram voz para reclamar. Apenas leva sua carga. Quer dizer: leva a carga dos outros, pois de sua, há apenas o corpo a carregar.

Há quem esteja retornando a criar cavalos "livres" como eles foram antes de serem capturados e adestrados. Mas isso é apenas mais um modismo para agregar valor no resultado final que é a venda.

Ninguém de fato é livre. Todos estamos presos à condições, à ação-reação do nosso carma. A liberdade só existe no pleno despertar. Poucos sabem o que é isso e poucos tem coragem de buscá-la como Buda o fez, por isso ele ainda é o ÚNICO DESPERTO que conhecemos.

Um ano do Cavalo deve significar um ano de muito trabalho, alguns galopes por ai nos intervalos.

Já que o assunto é exotérico, o ano de 2014 é um ano 7. Um número que convida ao despertar. Mas quem precisa de números e signos para despertar? Todo momento é um momento para despertar.

25 janeiro, 2014

Elementos da religião

Ao longo de muitos anos por medo, fraqueza ou despreparo muitas pessoas dentro do Budismo no Ocidente combinaram em dizer que Budismo não é religião. Deixar as pessoas se aproximarem do Budismo pensando que estão seguindo uma filosofia de vida legal é uma enganação útil, mas ainda assim uma enganação. Para muitos que praticam na várias Escolas budistas o que eles fazem é religião. Negar isso para manter um elo informal ou não assustar as pessoas com rituais estranhos aos novatos é apenas adiar o óbvio.

Quem quer seguir o Budismo como uma filosofia de vida está livre para isso. Até pode ir a templos, mosteiros e centros budistas para fazer os rituais ou fazer tais rituais em casa quando possível seguindo-os de de maneira informal sem se comprometer.

Alguns irão sentir conexão com a prática e irão, na medida do possível, se comprometer com uma instituição, centro zen ou professor. Tudo a seu tempo.

Para algumas pessoas é muito difícil se comprometer com algo, como uma instituição ou um mestre e mesmo com uma comunidade, mas sem compromisso não há exercício da religião. Ela pode ser vivida de muitas formas até de forma solitária. No Budismo há muitos casos de praticantes eremitas. O próprio Buda praticou algum tempo sozinho, mas as pessoas vieram até ele e ele não os mandou embora.

O Budismo tem muitas possibilidades, muitas portas a serem abertas. Cada um deve decidir em qual irá entrar e quando sair ou quanto tempo ficar.

Uma religião deve ser aberta e não opressora. Quando uma religião é opressora e ditatorial ou militaresca ela não é boa para a evolução do ser humano. Ela só é boa para aqueles que a manipulam para obter favores em seu próprio interesse.

Eu pessoalmente não me importo se Budismo é ou não religião. Se vc. assim o considerar tudo bem se não o sente como tal, tudo bem também. O importante é estar 100% presente nas ações do cotidiano. Isso já é um feito raro de se conseguir. Mas tentar é nossa meta para vida toda e em todas as vidas.

21 janeiro, 2014

Sugestão de Livro: No River to Cross

"Costuma-se dizer que o Despertar significa "atravessar para a outra margem", esse distante lugar onde podemos finalmente estar livres do sofrimento. Da mesma forma, diz-se que os ensinamentos budistas são o barco que nos leva até lá.

Nesta livro de uma das professoras mais importantes do budismo moderno coreano, Mestre Zen Dae Haeng nos mostra que não existe barco a encontrar e, na verdade, nenhum rio para atravessar. Ela estende a mão para o leitor ocidental, chamando cada um de nós a sabedoria infalível,do  acessível agora, o Despertar que é sempre, já, bem aqui.

No Zen (ou seon, como o zen coreano é chamado) a mestra Dae Haeng desenvolveu uma abordagem refrescante. Sem Rio para Atravessar é surpreendentemente pessoal, simples, mas também extremamente profundo, apontando-nos de novo e de novo para a nossa base, a nossa "verdadeira natureza" - a perfeição das coisas como elas são."


Para quem quer conhecer um pouco mais do Seon


16 janeiro, 2014

Fé e Crença


Somos tão viciados na ideia de que para viver é preciso ter fé e para seguir uma religião é preciso ter crença.

Mas esses estados são apenas padrões que nos foram ensinados. Quando desconstruímos um padrão podemos sim viver sem ele.

Crença remete àquilo que você testou em si mesmo.  Existe porque vc. teve a experiência disso, mas pode não existir para tantos outros que não testaram e não experimentaram.

Só sei que o açúcar é doce porque provei. Se não provasse poderia acreditar em quem já provou, mas não teria tido a experiência por mim mesma. Se eu provar o açúcar então, ok, agora sei que é doce.
Posso confiar no outro, mas só quando experimentar por mim mesma saberei como é o sabor do açúcar. Quando confio na experiência do outro tenho um saber ilusório que um dia pode se revelar verdadeiro ou não.

Ai pode começar um jogo perigoso de quem experimentou e testou querendo convencer quem não experimentou e nem testou de que sua experiência é verdadeira. Então minha crença é prova suficiente para que os demais a aceitem. Infelizmente é assim que muitos agem, principalmente os fanáticos. Ao invés de testar o que os profetas ou mestres dizem ter alcançado, eles aceitam suas experiências como verdade suprema e os defendem e até matam por essas verdades, que nunca colocaram a prova nem experimentaram em si mesmos. Se o fulano diz que é assim então quem sou eu para duvidar. Você é alguém capaz de duvidar? Então exercite a dúvida.

A dúvida é o termômetro da crença. Sem dúvida não pode haver crença segura em nada.

A fé é o combustível da crença. Se não tenho combustível não ando, não saio do lugar, não tenho vontade de testar o que me dizem ser verdade. Então aquele que aceita passivamente não tem fé. Tem preguiça.

Testada a verdade ou seja experimentei o açúcar constatei que é doce vou investigar se ele é bom, se serve para mim e quais são as quantidades que posso ingerir com segurança. Somente depois vou investir minha fé (energia).

Minha mestra zen, certa vez me disse: "Acredite em você não em mim. Eu posso me enganar."

Para o Budismo o mais importante é vc. acreditar em si mesmo. Pois o poder que vc. tem de Despertar é maior que qualquer outro poder externo, maior que um deus.