24 agosto, 2013

Preso por uma noção




Buda nos ofereceu uma interessante parábola no que diz respeito a ideias e noções.
 
Um jovem comerciante ao voltar para casa viu que ela tinha sido roubada e incendiada por ladrões.
Eles deixaram fora da casa apenas um pequeno corpo queimado.
O comerciante pensou que fosse o corpo do seu amado filho. Ele não sabia que seu filho estava vivo.
Ele não sabia que depois de queimar a casa, os ladrões haviam levado o menino com eles.
No seu estado de confusão, o comerciante acreditou que o corpo que ele viu era do seu filho.
Então, ele chorou, bateu no peito e puxou seus cabelos de dor.
Em seguida, anunciou a cerimonia de cremação.
 
Esse homem amava muito seu filho. O menino era a razão de sua vida.
Sentia tanta falta do filho que não conseguia se separa das cinzas dele nem por um minuto. Ele carregava um saco com as cinzas consigo dia e noite, trabalhando ou dormindo, nunca deixava as cinzas do filho sozinhas.
 
Uma noite, seu filho escapou dos ladrões e voltou para a casa nova que seu pai havia construído.
Chegando lá, bateu na porta com entusiasmo. Eram duas horas da manhã. Seu pai gritou, ainda segurando o saco com as cinzas e meio choroso:
 
-Quem está ai?
-Sou eu, seu filho! Respondeu o menino do outro lado da porta.
-Você não é meu filho. Você é uma pessoa maldosa. Meu filho morreu há três meses atrás. Eu tenho as cinzas dele aqui comigo.
 
O pequeno menino continuou a bater na porta e chorou e chorou. Ele implorou mais e mais vezes para entrar na casa, mas seu pai recusou-se a deixa-lo entrar.
 
O homem estava preso à noção de que seu filho já estava morto e esse outro era apenas alguém sem coração que vinha atormenta-lo.
 
Por fim, o menino foi embora e o pai o esqueceu para sempre.
 
Buda dizia que se você ficar preso a uma ideia e acreditar que isso é verdade. Mesmo que a verdade venha em pessoa e bata a sua porta, você irá recusar-se a abrir sua mente.
Então, se você estiver comprometido com uma ideia sobre a verdade ou uma ideia sobre as condições necessárias para a felicidade, cuidado.
 
O primeiro treinamento da mente desperta fala sobre a liberdade dos pontos de vista:
 
Desperte do sofrimento criado pelo fanatismo e intolerância. Nós estamos determinados a não sermos idolatras sobre ou obrigados por nenhuma doutrina, teoria ou ideologia, mesmo as dos Budas.
 
Professores budistas são guias, o que significa que eles nos ajudam a aprender a olhar profundamente e a desenvolver nosso entendimento e compaixão.
 
Não existem doutrinas para brigar, matar, ou morrer por.
 
In: No Death. No Fear. Comforting Wisdom for Life. Thich Nhat Hanh. Tradução. Jeane Dalbo.

17 agosto, 2013

Thich Nhat Hanh: "Cheguei. Estou em casa"

Foto: K. Grofova

I have arrived.
I´m home
In the here.
In the now.
I´m solid. I´m free.
In the ultimate I dwell.

Cheguei.
Estou em casa.
No aqui.
No Agora.
Sou forte.
Sou livre.
No final eu vou embora.

Gatha composto por Thich Nhat Hanh
 
 
 
Gatha é uma forma de poema que pode tanto ser recitado como cantado.
 
 
Já havia visto alguns em retiros como forma de lembrete pendurados em lugares por onde passamos e quando ali estamos, eles nos lembram de parar, respirar e recitar esses versos. Achei esses num livro do Mestre Zen Thich Nhat Hanh. Alguns fazem adaptações e escrevem mais ou diferente do que traduzi aqui.
 
Lembretes para pôr:
 
Na mesinha da cabeceira
 
Ao me levantar essa manhã, eu sorrio.
Vinte e quatro horas terei pela frente.
Eu me comprometo a viver completamente em
cada momento
e olhar para todos os seres
com olhos de compaixão.
 
 
No espelho do banheiro
 
Escovando meus dentes e enxaguando minha boca,
eu me comprometo a falar pura e amavelmente.
Enquanto minha boca estiver exalando a fala correta
será como uma flor se abrindo
no jardim do meu coração.
 
No jardim
 
Água e sol
verdejam essas plantas
Quando a chuva da compaixão cai
até o deserto se torna um imenso
oceano verde.
 
Na lixeira
 
No lixo, eu vejo uma rosa.
Na rosa, eu vejo o lixo.
Tudo está em transformação.
Até mesmo o permanente é impermanente.
 
 
Próximo aos produtos de limpeza
 
Enquanto limpo esse puro e calmo quarto,
infinita alegria e energia
brilham.
 
 
No porta vassouras
 
Enquanto eu cuidadosamente varro o chão do despertar
uma árvore do entendimento
brota da terra.
 
 
Próximo ao lavabo
 
A água vem das montanhas.
A água corre nas profundezas da terra.
Milagrosamente a água vem até nós
e mantém toda a vida.
 
No interruptor de luz
 
O esquecimento é a escuridão.
Atenção plena é a luz.
Eu trago consciência para brilhar
sobre toda a vida.
 
No lugar de sentar (em meditação)
 
Sentimentos vem e vão
como nuvens num céu com vento.
O respirar correto é minha âncora.
 
No computador
 
A mente é como um computador
com milhares de páginas.
Eu escolho uma palavra que
tranquila e suave
mantém minha alegria sempre pura.
 
 
Na porta da sala (de meditação)
 
Entrando na sala,
Eu vejo minha mente,
Eu me comprometo a sentar
deixando ir todas as distrações.
 
 
Na porta de entrada da casa
 
Eu cheguei.
Estou em casa.
 
In: Making Space: Creating a Home Meditation Practice. Thich Nhat Hanh.