08 março, 2013

Bossa Zen Entrevista:Sensei Isshin-Parte I




Sensei Isshin depois de longos anos de treinamento no Brasil, Japão e Estados Unidos, radicou-se em Porto Alegre. Não importa o título que receba, uma vez que nos habituamos a chamá-la de "monja", assim será por toda sua vida, exceto para seus alunos que já a chamavam de sensei e agora podem seguir chamando-a. 

Dizem que ser monge de verdade é mais nobre que obter qualquer título. É certamente esse o esforço que Monja Isshin pratica em sua vida e na comunidade que lidera. 

Seu dia-a-dia  é preenchido por atividades na Sanga Águas da Compaixão e outras sangas em outras cidades do RS (Pelotas e Caxias do Sul), além de cursos e palestras tornando seu tempo bastante limitado, portanto, essa entrevista foi dividida em duas partes.

Agradeço a sua disposição em colaborar com esse projeto e espero que suas palavras possam iluminar o caminho de quem passar por aqui.


BZ: A sra. já fez parte de orquestras enquanto instrumentista. Em uma orquestra cada um deve fazer a sua parte em benefício do todo. Na comunidade (sangha) também é assim? Reger um Sangha é como reger uma orquestra?

Sensei:(Risos) Acho que é bem mais fácil reger uma orquestra..Numa orquestra o músico não tem dificuldade em perceber qual é o seu papel dentro do todo, enquanto que, especialmente na nossa cultura ocidental individualista e competitiva, não é nada fácil um praticante chegar a se perceber como fazendo parte de um todo maior e tendo o seu lugar, o seu papel dentro deste todo.

Acredito que a minha experiência com a música (banda marchante durante o colégio e a carreira em orquestra sinfônica) me facilitou a percepção do sentido de “grupo” no meu treinamento no Japão – e isto foi um dos grandes aprendizados que recebi lá. Tive a oportunidade (rara para os estrangeiros) de ser tratada como se fosse uma japonesa, sujeita às mesmas exigências que as minhas colegas japonesas, pois muitos mosteiros, sabendo que a maioria dos estrangeiros, que geralmente não falam a língua e estão lá por três meses, o tempo do visto de turista, não se interessam por vários aspectos da prática (como o cerimonial,por exemplo), então eles deixam de incluir estrangeiros nestes tipos de atividades. Assim sendo, se, de um lado,tive que enfrentar grandes dificuldades, devido às barreiras culturais e linguísticas, pelo outro lado, a oportunidade de participar, sem qualquer exceção,de todos os aspectos do treinamento monástico japonês foi de um valor inestimável. Assim, pude me mergulhar na experiência de “ter o meu lugar dentro do grupo”. Foi uma vivência incrível, pelo qual sou extremamente grata.

Mas, transmitir isto aos praticantes leigos ocidentais não vem sendo uma tarefa fácil, pois o resultado da cultura ocidental de individualismo – um senso sutil de isolamento e solidão existencial – é muito enraizado na mente inconsciente coletiva. Devido a este condicionamento, muitas “sangas” ocidentais não passam de pontos de encontro de indivíduos – quase consumidores – que se encontram para o zazen, mas onde não chega a existir a “entidade” de Sanga. Como a nossa Sanga ainda é relativamente nova, temos uma longa caminhada pela frente para chegar a criar uma verdadeira Sanga, onde cada membro possa vivenciar profundamente o “pertencer ao grupo” e “ter o seu lugar” e passar a realmente “tocar a sua parte” na criação da harmonia de uma Sanga. Mesmo assim, reconheço e agradeço a boa vontade e empenho sincero dos membros da nossa Sanga – passo por passo,vamos caminhando... .



BZ: Em geral os praticantes budistas estão na faixa etária de 40-70 anos, já tem
supostamente uma estabilidade na vida. Isso facilita mais a adesão a prática budista?

Sensei: Sim e não. Facilita sim, porque a pessoa nesta faixa etária já sabe melhor o que quer e o que
pensa. E dificulta, porque frequentemente, estas pessoas, chegam à prática cheias de ideias preconcebidas sobre como deve ser a prática e como o(a) professor(a) de darma deve se comportar. Já leram livros, já criaram “mitos” dentro de suas cabeças e frequentemente não querem aceitar qualquer coisa que contraria estes “mitos”. Muitas vezes, acreditam mais nas suas interpretações dos livros que lerem que na experiência e treinamento do(a) professor(a).


BZ: Seus grupos são predominantemente de jovens. Acha que tem mais afinidade com eles?

Sensei: Não sei, pois nunca pensei nisto – não havia percebido este fato... . Como mencionei no item
anterior, as pessoas com mais idade tendem a ter suas próprias ideias preconcebidas, não querendo abrir mão delas... . Mesmo assim, apesar de nossa Sanga ser ainda bastante nova, já houve o tempo suficiente para que algumas pessoas que não se adaptaram a nossa sanga e a minha liderança saírem.

Possivelmente, o fato de eu ser uma pessoa “high tech” ajude a aproximação dos mais jovens.
De qualquer forma, nem penso em idade quando estou com as pessoas ou quando penso em mim mesma. 

Procuro receber cada pessoa simplesmente como ela é nesse momento.


BZ: Recentemente a sra. recebeu o manto de açafrão, tornando-se sensei, o que essa nova etapa significa para a sra. e a comunidade e quais são suas atribuições como sensei?




Sensei: Sou muito grata ao Onoda Roshi por ter me honrado com a sua linhagem e tenho aprendido
muito com ele. Também sou muito agradecida aos outros professores principais que tive durante a minha caminhada – tenho dívidas de gratidão especialmente com a Monja Coen, professora de ordenação; Shundo Aoyama Roshi, professora de treinamento e abadessa do mosteiro no Japão e Saikawa Roshi, o nosso superintendente para a América do Sul. Naturalmente, todos nós ficamos contentes com a finalização oficial do treinamento formal (pois, na verdade, o “treinamento” – a prática – nunca termina. )

Com a troca do manto preto do “unsui” (monge em treinamento) para um dos mantos coloridos do monge plenamente formado – “rikishô” (manto marrom, antes das cerimônias de zuise) ou “oshô” e “sensei” (manto açafrão ou outras cores, depois destas cerimônias), passamos a ter a “autoridade” conferida pelo reconhecimento oficial que recebemos do professor e da “instituição” da escola Soto Zen propriamente dita, que estão declarando que completamos todos os pré-requisitos de treinamento e somos autorizados como sacerdotes e professores do Darma, habilitados a ordenar novos monges e oficiar Transmissão de Preceitos.


Percurso monástico na Escola Soto Zen

Mas a cor do manto não muda a pessoa e não acrescente nenhuma sabedoria especial. É simplesmente um novo pedaço de pano, mais um passo na nossa caminhada. Na prática, a troca de manto e oficialização do título "sensei" não mudou muita coisa para mim ou para o nosso grupo. Já vinha orientando um grupo de prática fazia cinco anos,quando recebi transmissão esse grupo que já me aceitava como "sensei" continuou me aceitando do mesmo jeito e quem não me aceitava, continuou não me aceitando (risos) Panos coloridos e títulos não fazem muita diferença e não precisamos nos preocupar com eles. O que conta é o dia-a-dia, o relacionamento que vai se construindo com os alunos.


BZ: É comum vermos muitos noviços e noviças sendo chamados de monges e monjas e tão logo recebam seus votos já passam a se intitular como tal. Esse querer ser antes de ser é cultural ou acontece também no Japão?

Sensei: Tecnicamente não está errado chamar um noviço ou monges aprendizes (duas graduações para “unsui” ou “monges em treinamento” de  "monge" ou "monja". Mas, pessoalmente, após, testemunhar determinadas situações nos Estados Unidos, quando lá fiz meu treinamento avançado, cheguei a conclusão que isso cria alguns problemas potencialmente graves que acredito podem surgir aqui também.

O que acontece é que num país cristão-especialmente num país católico chamar alguém de “monge” ou “monja” pode induzir as pessoas à interpretações errôneas, pois o público em geral tende a entender o termo "monge" como alguém já formado, com seu treinamento completo, enquanto que no Budismo, a ordenação monástica é somente o primeiro passo de um longo caminho de treinamento. 

Tenho um aluno que recebeu ordenação monástica no ano passado tornando-se “unsui”, na graduação de “jôza” ou noviço. Recomendei que ele evitasse de se chamar de monge enquanto estiver na graduação de “jôza”, o incentivando a se assumir perante os outros como noviço enquanto essa fase durar. Vejo que isto tem dado bons resultados no desenvolvimento dele.

No Japão, um monge em treinamento, não teria permissão de estar liderando grupos ou tentando ensinar a prática.

Com todos sendo chamados de “monge” ou “monja”, a cor do manto acaba não fazendo diferença nenhuma, e o que aparentemente “chama” as pessoas novas para este ou aquele grupo fica mais na questão de visibilidade, fama e carisma do responsável do grupo e menos nas qualificações e graduações.

No Brasil e América do Sul temos, ainda, poucos professores realmente qualificados e, devido ao tamanho do país, estes frequentemente se vêem obrigados a tentar ensinar “à distância” - o que dificulta terrivelmente a supervisão e “moldagem” destes alunos ou noviços, que, por sua vez, estão liderando grupos de prática e, às vezes, se colocando como “orientadores espirituais”. É uma situação complicada, sem soluções fáceis – todos fazendo o melhor que podem, dentro de suas causas e condições, com sinceridade e boa vontade... .


BZ: A sra. sempre quis ser monja? Qual o papel do monge na comunidade zen?

Sensei: Fui criada numa família protestante fundamentalista. Não me adaptei àquela interpretação religiosa e a abandonei aos 16 anos. Quando, durante o colégio, estava procurando escolher a minha futura profissão, me lembro de ter pensado que, se tivesse sido católica, me tornaria freira. Mas, como isto não era possível, acabei me tornando musicista. Não me lembrava mais deste detalhe até chegar no Zen, quando pedi ordenação monástica, mas o fato é que sempre nutria o desejo de “trabalhar com o ser humano”. Acabei largando a profissão de musicista justamente porque não me dava esta possibilidade da forma que queria... . Cheguei, inclusive, a refazer estudos de colégio, pensando em prestar vestibular para estudar  medicina- psiquiatria ou a psicologia – até que o Plano Collor atrapalhou aqueles planos. Quando cheguei no Zen, tive a sensação de ter chegado “em casa” – que era isto que eu sempre havia procurado. E realmente, me sinto realizada e feliz com o desfecho das coisas.

Não é fácil dizer qual o papel do monge na sua comunidade. Ele deve “servir” à Sanga, apontando a Lua e deve cuidar de sua própria prática. Não deve tomar posturas “autoritárias” ou cometer abusos da ética, mas também precisa ter a coragem para fazer o que for necessário para o bem do aluno e da comunidade. Mais ainda, acho que o monge deve “ser uma pessoa real” – sem jogos, máscaras ou papeis de “bonzinho”, etc. Acredito que uma das coisas mais importantes que tenho para compartilhar com os meus alunos é justamente a auto-aceitação e a possibilidade de simplesmente ser “quem é” ou “quem está em cada momento”.

Na verdade, recebi muito pouco treinamento de “liderança” e venho aprendendo a fazer a aplicação prática do meu treinamento para cuidar da nossa Sanga na base de tentativa e erro... . Gosto muito da palavra “sensei” porque ela não coloca a gente num pedestal como um ser especial – simplesmente diz que “vivemos antes” (temos alguma experiência e treinamento). Passo-por-passo, vamos caminhando todos juntos, cultivando a nossa prática.

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