16 fevereiro, 2013

Quem foi que fez chover?





Minha mãe não gosta da impermanência das coisas. Ela não gosta quando as coisas mudam. Ela não gosta quando chove porque ela pretendia lavar as roupas e as roupas com chuva não vão secar. Ela não gosta quando tem sol porque o sol faz os dias ficarem insuportáveis e ela se sente mal com o calor. Ela não gosta do vento porque o vento carrega poeira e folhas para a calçada e assim ela nunca fica limpa e nunca se acaba de limpá-la. Ela não gosta quando alguém caminha no molhado e depois caminha no seco deixando suas pegadas onde deveria estar limpo. Ela não gosta que façam nada que ela não gosta por isso qualquer coisa que se faça será sempre pouco ou mal feito. A perfeição significa não mudar nada do lugar como um móvel que se põe num canto e ali ele fica por décadas sem jamais ser removido, apenas limpo, mas removido nunca. Minha mãe também não gosta quando alguém morre. Para ela ninguém deveria morrer nunca. Mas tudo tem um fim e é por isso que não deveríamos esperar o fim para começar a viver.


A imobilidade pode nos dar uma sensação de segurança, estar no controle. Nada vai acontecer porque eu sei que tudo está onde deveria estar sempre. Esse estado de mente pode até por algum tempo encontrar um porto seguro, mas basta algo não sair de acordo e vem uma tempestade sobre ela, onde as coisas certas se desfazem. A quantidade de sofrimento que impermanência produz em quem deseja a permanência e em quem está sujeito à pessoas assim é imensurável.

O estado de mente que brinca com as mudanças e as aceita e até as promove pode nos dar mais estabilidade e até saúde mental, pois mesmo que a gente possa deixar as coisas no mesmo lugar, se a gente pode mudar sem causar nenhum sofrimento a ninguém porque não tentar, porque não se permitir experimentos que podem facilmente ser revertidos caso o resultado não agrade.

Viver deve ser uma experiência de tentativa e erro. Ninguém sabe bem como é viver por inteiro. Ninguém tem o controle sobre tudo. Ninguém faz chover ou faz o sol nascer ou se pôr. Apenas apreciar esses momentos com satisfação faz parte da nossa vida nesse mundo.


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