09 fevereiro, 2013

Bossa Zen Entrevista: "Bernie Glassman in Instructions to the Cook"

Não, eu não entrevistei o líder ativista do Zen Peacemakers. Nem cogitei entrevistá-lo. Até poderia tentar, mas sequer o coloquei na lista de opções. Pessoas assim são muito ocupadas e entre dar uma entrevista para um meio de comunicação com grande visibilidade e um blog com meio dúzia de leitores certamente ele não me daria retorno.

Lembrei-me que no tempo em que fazia o curso de letras. Tinha o hábito de ao ler um livro fazer perguntas ao autor ou aos personagens. Uma forma de entrevista fictícia.

Estou lendo um livro do Bernard Glassman, popular Bernie entre os íntimos, ou Tetsugen Roshi, seu nome de transmissão. O livro se chama "Intructions to the Cook." Nele o Roshi fala como começou a se interessar pelo budismo, e também como começou a pôr em pratica o ativismo social, como foi criada a Gryston Inn e a Gryston Bakery que foram as bases que deram sustento a ideia do Zen Peacemakers de trabalhar com moradores de rua em Nova Iorque. O Zen Peacemakers foi criado bem depois.

Quase tudo que ou gostaria de perguntar ao Roshi pode perfeitamente ser respondido pelo que ele escreveu no livro. O que eu gostaria de perguntar a mais talvez ele não quisesse responder. Então tomo por base o livro, e, é claro as respostas serão ora um resumo do que li ,ora literalmente o que está no texto. Neste livro Bernie fala de como o texto do Tenzo Kyokun inspirou-lhe na ideia de criar ações sociais para dar oportunidade as pessoas que viviam a margem da sociedade de recuperarem a dignidade e o respeito através do trabalho. O livro é todo costurado pelos ensinamentos do zen budismo e pelo texto do "Instruções para o Cozinheiro" de Dogen.

Além do livro vou pescar alguma outra entrevista que ele deu para ver se tem alguma pergunta que coincide com as que gostaria de fazer.


BZ: Como você se interessou pelo Budismo?

Meu primeiro encontro com o Budismo foi na faculdade. Eu fazia uma disciplina de Religião. Nós estávamos lendo um texto do livro de Huston Smith "As Religiões do Homem". Tinha apenas uma página sobre o Zen Budismo, mas aquela página foi como um encontro, como voltar para casa.

Naquele tempo não havia centros zen ou professores em Nova Iorque e eu não sabia se havia alguém em algum outro estado do país, portanto eu fiz o que todos que tinham interesse pelo budismo faziam naquela época (1960), eu li os livros de Alan Watts e D.T. Suzuki.


BZ: Fale sobre as três promessas que você fez depois de sua graduação em engenharia aeronáutica em 1960?

Foi uma coisa aparentemente boba. Uma conversa que tive com um colega de classe numa pizzaria. Eu disse a ele que durante a minha vida queria realizar três coisas:

1.Queria estudar zen budismo em um mosteiro.
2,Queria ter a vivência comunitária em um kibutz.
3.Queria viver como um mendigo na rua.

Depois de treze anos já tinha realizado esses três desejos. Morrei um ano em um kibutz em Israel, fui para Los Angeles e estudei zen budismo no que viria a ser o Los Angeles Zen Center e morei com mendigos nas ruas de N.Y.


BZ:O que você aprendeu vivendo um ano num kibutz?

Viver em um kibutz em Israel deu-me uma profunda vivência e interesse no poder da comunidade e da família. No navio indo para Israel conheci minha primeira esposa,Helen.


BZ: Que insight viver na rua te mostrou?

Ao viver na rua com os sem teto eu me vi como um deles. Foi nesse momento que eu fiz um voto que eu iria alimentar todos os "fantasmas famintos". Eu sou muito persistente. Sabia que iria perseguir isso até conseguir.


BZ: Quando se formou o que fez?

Fui trabalhar como engenheiro aeronáutico em Los Angeles. Trabalhei em projetos que tinham por objetivo enviar missões à Marte. Era um bom trabalho e sustentava minha família.


BZ: Foi em Los Angeles que você teve contato com a prática zen budista como foi esse encontro?

Perto da nossa casa tinha um pequeno templo, um pessoal que se reunia para fazer meditação. Americanos e monges japoneses. Um desses monges era Maezumi  que viria a ser meu professor, mas naquela época ele não era nem mesmo sensei. O nosso professor vinha do Japão uma vez por ano, era  Yasutani Roshi. Quando Maezumi começou a ensinar eu pedi para ser seu aluno.


BZ:Vocês trabalhavam com koans também?

Sim, Yasutani Roshi era do Escola Rinzai japonês, depois mais tarde o rinzai e soto no Japão se juntaram numa só escola. Maezumi Roshi se filiou a Escola Soto Zen que não usa mais koans mas ele continuou a usar koans com quem quisesse. Yasutani nos dava um koan nos retiros e ficávamos com ele durante as sessões de zazen. Quando tocava o sino tínhamos que ir até a sala do roshi e dar uma resposta para nosso koan.

BZ:Você também tornou-se monge quando foi isso?

Sim, tornei-me monge leigo e em 1976 fui para o Japão para ser abade por uma noite em um mosteiro. Segundo a tradição da Soto Zen esse é um pré requisito para ser registrado Sensei. Então voltei ao meu país e comecei a ensinar sob a supervisão de meu professor Maezumi Roshi.

BZ: Como foi esse inicio?

Lembro a primeira vez que meu professor me falou que eu iria em uma escola fazer uma palestra. Disse-lhe que não me sentia preparado ainda para ensinar, mas ele disse que era bobagem que aprendemos fazendo e errando e que não havia tempo certo para começar a ensinar. O importante era começar e ir vendo como me sentia.

BZ:Quando começou a se interessar pelo ativismo?

Foi ainda em Los Angeles. Começamos a abrir clínicas nos subúrbios junto com um colega médico e ajudar aos vizinhos. Iniciamos uma editora para publicar livros sobre as praticas do zen budismo. Também tivemos uma companhia de reforma de apartamentos. Essas atividades surpreendiam as pessoas que pensavam que o zen e a espiritualidade são atividades passivas. Eu achava que nossa prática espiritual deveria nos ajudar a abrir os olhos para os problemas a nossa volta e nos permitir fazer alguma coisa mais efetiva pela comunidade.

BZ: Por que voltou para Nova Iorque em 1979?

Voltei com minha família e alguns estudantes para iniciar uma comunidade zen budista. Tivemos que começar aos poucos pois não tínhamos muitos recursos.

BZ: Quanto tempo levou para formatar a ideia da padaria?

Eu queria oferecer o "Alimento Supremo" que o mestre Dogen fala no Tenzo Kyokun, texto que sempre me inspirou nesse projeto. Tive o insight de que deveríamos oferecer algo para as pessoas que não seria necessariamente comida, poderia ser moradia, emprego, etc. E então poderíamos oferecer o alimento espiritual. Isso teria que envolver toda a comunidade independente de religião.

Mas levou anos até conseguirmos pôr isso em pratica. Começamos comprando prédios abandonados e recuperando os apartamentos para alojar moradores de rua. Com o tempo percebemos que precisávamos de um negócio que nos permitisse dar suporte as pessoas que estavam envolvidas no projeto: alunos, professores, moradores de rua. Não bastava tira-los da rua e dar um teto ou um prato de comida. A dignidade vem do trabalho e essa dignidade teria que ser reestabelecida.

BZ: Então vocês criaram a padaria?

Pensamos muito em que tipo de negócio que poderia ser mais eficiente ao nosso propósito.A clínica em Los Angeles tinha dado certo porque tínhamos um amigo médico. Alguns alunos do centro zen sabiam fazer bolos e alguém poderia nos ensinar a fazer pães. Foi esse negócio que nos manteve e permitiu ajudar as pessoas.

BZ: Alguns ativistas transformam causas em negócios lucrativos e depois de ganhar fama e muito dinheiro esquecem da causa, esse tipo de desconfiança pairou sobre seu projeto?

Sim, tivemos todo tipo de acusação. Alguns achavam que estávamos pegando mão de obra escrava na rua  para trabalhar na padaria e que nós ficaríamos com a melhor parte, o dinheiro, e as pessoas voltariam para a rua para se drogar e prostituir e não adiantaria nada dar a elas uma chance. Nos prédios que recuperamos, os vizinhos ficaram incomodados e inseguros com os novos moradores e reclamavam que estávamos pondo gente perigosa para conviver com suas famílias. Fui sempre muito difícil e enfrentamos muitos obstáculos, mas com o tempo as coisas foram funcionando e as pessoas viram que estávamos certos e nos apoiaram.

BZ: As pessoas quem?

A comunidade local, vizinhos, a polícia, religiosos, organizações e empresas que investem em causas sociais que foi onde buscamos recursos e apoio financeiro para montar a padaria.

BZ:Por que chamaram a  padaria de Gryston?

Quando mudamos para Nova Iorque dividíamos apartamentos alugados.  Em um determinado momento sentimos a necessidade de ter um lugar para morar com nosso professor e ai passamos a trabalhar para juntar dinheiro e doações fazendo palestras, vendendo livros, juntando nossas economias, trabalhando. Conseguimos comprar uma casa  em Riverside, no Bronx. O nome da casa era Gryston. Ela era de 1863 foi a casa de verão da família dos Dodges. Foi projetada pelo arquiteto James Renwick Jr, o mesmo que projetou a Catedral de Saint Patrick. Não podíamos depender só das doações que muitas vezes não chegavam então transformamos a casa em um centro zen residencial e em uma pensão.

BZ: Ainda Existe?

(Info adicional) Em 1980 a Gryston House foi transformada em Fundação Grayston e funciona como residência permanente de moradores de rua.


BZ: Por que o senhor abandonou a Escola Soto Zen para fundar  a Ordem do  Zen Peacemakers? Houve uma ruptura ou desacordo pelo fato de você querer ir para outra direção?

BG: Sim, houve. Maezumi era ligado a uma Escola no Japão cujo sucessor decidiu que não ordenaria mais nem monges celibatários,  nem monges leigos. Todos os alunos deveriam ser praticantes leigos. Maezumi ficou em conflito pois havia alunos no Centro Zen de Los Angeles e São Francisco que esperavam serem ordenados. Eu sugeri que nós também seguíssemos a decisão do templo no Japão e disse que queria retornar meus votos de monge  e ser um professor leigo. Maezumi Roshi não queria que eu deixasse de ser monge leigo. Ele disse que se eu fizesse isso não seria seu sucessor.
 Então a conversa acabou ali até Maezumi morrer.
Eu não poderia ser professor Sensei ou Roshi na Soto se não fosse monge então eu sai da Soto. Em 2006 eu transmiti a linhagem de Maezumi Roshi para Merzel Roshi e retornei meus votos de monge leigo para ser professor leigo do Zen Peacemakers.


BZ: Por que chamar um grupo ativista de "Orden Zen". Isso não soa como provocação?


BG: O motivo que escolhemos a palavra "ordem" era torna-la muito forte,  para que nossas ações fossem profundamente formadas pela prática espiritualnos dias de hoje todo mundo usa a palavra Zen de tal forma secular. Mas nós definitivamente queríamos deixar claro que o processo de paz que íamos fazer seria baseado em preceitos-que seriam fundamentados- nos princípios que temos de "não saber", "dando testemunho", e "cura". E isso sai de práticas espirituais.

Eu também trabalhei com koans, e no koan você se vê nele. Então, se eu vejo as  pessoas com fome, eu me vejo sendo essa pessoa com fome, eu me pergunto: O que eu mais preciso? Se eu sou uma pessoa com fome, então eu sei que eu preciso de algo para comer.


BZ: Frequentemente o senhor aparece fumando um charuto. Algumas pessoas se perguntam "Como um mestre zen fuma charutos?" O que você tem a dizer sobre isso?


-Você já comeu hoje?
-Sim!
-Então, vá lavar a louça!


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Depois de anos em Riverside a Gryston tornou-se uma Empresa que produz uma variedade enorme de produtos que abastassem cafés de N.Y fica no distrito de Yonker, há 30 km de Manhattan. Essa empresa fatura milhões por ano.  Bernie dedica-se a viajar pelo mundo fazendo retiros em lugares como campos de concentração, além de atuar com garoto propaganda da sua instituição. Ele trabalha alguns dias por semana quando está na cidade, em Yonker.

Daria para fazer muitas outras perguntas, mas paro por aqui.

Todavia lembro a quem não prestou atenção no que escrevi lá no início, que essa "entrevista" nunca existiu.

As perguntas foram inventadas e as respostas retiradas do livro "Instruções para o Cozinheiro" e de uma ou outra entrevista verdadeira dada pelo Bernie Glassman. Tem várias na net. Já a última pergunta a resposta foi inventada por mim. Portanto não copiem ou reproduzam.

Também deixo claro que não estou defendendo ou apoiando as ideias e ações do Bernie Glassman ou do Peacemakers. Apenas gostaria de clarear alguns pontos que às vezes me pareceram obscuros e que deixam alguma sensação de estranheza. Se alguma info não estiver correta pode me falar que eu corrijo.

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