24 janeiro, 2013

Clarice e o Zen Budismo




“A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência de agora é que você existe”  A Descoberta do Mundo, p.160. Clarice Lispector. Esse livro é uma coletânea de crônicas.


Clarice Lispector não era budista nem zen budista. Por nascimento-judia, mas provavelmente não praticante.
Tinha conhecimento do Budismo de conversas com amigos.


O que Clarice praticava como ninguém era buscar uma aproximação com o momento. Um diálogo, uma escrita que, mesmo amparada em lembranças e vivências essenciais a escrita, se faz no momento.

Alguns estudos acadêmicos já apontaram com maior propriedade e provas o que digo. Teses ou artigos foram escritos.



Esse é apenas um dos múltiplos exemplos de alguém que pensava no presente. Embora ela mesma pouco usasse na sua vida diária o que escrevia como aprendizado. Daí a diferença entre a ficção e a realidade, às vezes a ponte entre esses dois mundos pode ser intransponível ou cheia de obstáculos. Clarice tinha muitos problemas pessoais e familiares e grande dificuldade em lidar com eles e com si mesma, bem como de se relacionar com o mundo. No entanto, foi tão mitificada ou endeusada que poucos conseguem ver que escrever, como ela mesma dizia, era sua salvação.

Mas nós podemos tomar o exercício ficcional ou meta ficcional da autora como ensinamento, mesmo numa simples frase fora do contexto. Se ela nos serve, porque não fazer uso dela para nossa vida.


Para quem quiser ler uma dessas teses: Zen e a Poética Auto-Reflexiva de Clarice Lispector de autoria de Igor Rossoni.


13 janeiro, 2013

Bossa Zen Entrevista: Adriana Retamal-Myoden

"O retiro de rua é uma iniciativa do Zen Peacemakers, uma organização internacional que acredita que o budismo pode ter um engajamento social, principalmente na promoção da paz. Fundada pelo mestre zen Bernie Glassman, em 1996, o Zen Peacemakers já promoveu mais de 35 retiros de rua em diversos lugares, como Auschwitz, na Polônia (onde 1,5 milhão de judeus morreram na Segunda Guerra); e em Ruanda, na África, (onde ocorreu o genocídio de 800 mil pessoas, em 1994). O retiro de rua na capital paulista foi o primeiro da América Latina, 2011.
São Paulo tem cerca de 20 mil moradores de rua. Ao fim do retiro, Genro reconheceu o Jorge Mello (Koho) como um novo líder de retiros de ruas. Como símbolo dessa transmissão, deu a ele o sino tibetano que nos acompanhou nas sessões de meditação."  Jhony Arai para Revista Vida Simples




Adriana Myoden costurando seu Rakusu.


Adriana Retamal é Designer formada pela Universidade Federal de Uberberlândia cidade onde vive, trabalha e coordena um grupo de pratica zen budista sob orientação de monja Coen e Via Zen. Adrina também Myoden, é aluna ordenada discípula leiga de Coen Roshi em 2012.

Nos conhecemos em 2010 no Twitter. Ela achou graça quando escrevi  que "Os fantasmas famintos também gostam de bolacha cream-cracker." Então passou a seguir-me. Eis uma discípula que gosta de cream cracker. Coen Sensei, esconda as bolachas :-)

Myoden participou da edição 2012  do Retiro de Rua, em São Paulo e nos conta como foi participar dessa modalidade de retiro.


BZ: Como foi a experiência de morar na rua?


Myoden: Experiência maravilhosa! Reveladora!


BZ: Foi Cansativo?


Myoden: Sim, mas, apenas pelo fato que é preciso andar muito para se conseguir comida, mas essa prática me ajudou também a dar valor em cada pedaço de pão, e a cada gole de água, a cada partícula de alimento.


BZ: Quantos dias durou o retiro de rua?


Myoden: O retiro começou quinta, dia 06 de setembro de 2012 às 15hs00  e terminou no domingo dia 09 de setembro 2012 às 13hs00.



BZ: Quantas pessoas participaram do grupo e quantos lideres havia nele?

Myoden: Foram 23 pessoas no total, sendo 02 líderes do Zen Peacemakers: o Genro Roshi (Coordena retiros de rua há mais de 15 anos) e o Monge Koho (Via Zen Zurique - que já coordena retiros de ruas em Zurique e irá coordenar no Brasil também.)


BZ: Praticar num grupo não é a mesma coisa que viver na rua como aqueles que lá vivem “por” ou “sem” opção, é? 

Myoden: Um dos preceitos no Budismo é não mentir, como tal, falávamos a verdade e sempre explicávamos o que estávamos fazendo, para qualquer pessoa que nos perguntava, seja morador de rua, trabalhadores, passantes, polícia...

BZ: Como os moradores de rua “de fato” reagiram à presença do grupo?


Myoden- Para alguns era difícil entender porque estávamos fazendo "isso", como somos seres humanos passíveis de compreensão e incompreensão. Alguns nos chamaram de "playboy de papelão", outros nos chamaram de "fracassados", outros de “irmãos” e tinha uma mulher - que parecia ser uma “prostituta”, que nos chamava de "crianças", ela sempre falava assim: "Boa noite minhas crianças" (quando estávamos indo dormir) e "Bom dia minhas crianças" (quando estávamos indo para o banheiro do Metrô Sé.)


BZ: O que essa pratica pode fazer para ajudar a quem vive na rua e não é um praticante zen budista?

Myoden: Cuidar da nossa casa interior contribui para cuidar da casa exterior, dentro e fora, luz e sombra. Éramos um grupo e formamos um só corpo-mente. Cuidávamos uns dos outros, fomos carinhosos com todos, limpávamos todos os lugares onde nos deram comida, arrumávamos "nossa cama", creio que esses exemplos, independem de religião, são práticas e atitudes do bem, o que acaba gerando um respeito carinhoso, sem obrigações.


BZ: Onde vocês dormiam?

Myoden: Dormimos no Pátio do Colégio, onde a cidade de São Paulo nasceu, é o centrão de Sampa (pertíssimo da Praça da Sé), uma região considerada perigosíssima, maravilhosa ao mesmo tempo - era "nossa casa" e arquitetonicamente falando.


BZ: Conseguiu dormir?

Myoden: Dormia super bem, mais ou menos até as 04h00 (não sei direito, pois não levei relógio para ficar bem "fora da ordem" do dia-a-dia). De manhã fazia frio por causa do orvalho da madrugada, colocava a capa de chuva e um papelão por cima e continuava o sono até as 05h30-06h00.


BZ: Como vocês obtinham comida? Tinham algum dinheiro ou precisavam pedir na rua?


Myoden: Uma das regras é não levar dinheiro algum, vivemos somente do que era doado, e só podíamos comer quando havia comida para todos, mendigamos por comida, comemos em ONGs que ajudam os moradores de rua, água pegávamos nos bebedouros da Caixa Cultural - que por sorte nos deixou também usar os banheiros, mas vi muitos moradores de rua usando os banheiros da Caixa Cultural, assim como os banheiros das ONG´s. Eles só não deixam entrar quem está completamente fora de si - muito alcoolizado ou muito drogado.


BZ: Tinham um lugar para tomar banho ou ficaram os dias do retiro sem banho?


Myoden: Em uma das ONGs que fomos, ganhamos escova de dente e pasta dental. Podia tomar banho também, mas, as toalhas tinham acabado - não podemos levar toalha no retiro - Então acabou que ficamos todos sem tomar banho. No final já tínhamos um cheiro característico, mas, sinceramente, não muito forte.


BZ: Cada um tinha funções no grupo ou só os lideres?


Myoden: Os líderes não tinham um comportamento autoritário, de maneira alguma. Quando explicávamos para algumas pessoas o que estávamos fazendo, algumas pessoas nos doavam dinheiro. Como tínhamos um pequeníssimo fluxo de caixa, fiquei responsável pela administração. Para ficar mais claro, por exemplo, um dia de manhã não tinha ONGs para ir comer, daí decidimos mendigar por comida no comércio local, ganhamos apenas pães, faltava algo para beber. Mendigamos por café e ganhamos uma garrafinha - que era insuficiente para todos os 23 praticantes - daí pegamos o dinheiro e compramos mais duas garrafinhas de água de café, deu até para dividir com outros moradores de rua.


BZ: Houve pratica formal tipo: zazen, recitações,cantos,sino tocando...?



Myoden: Sim, todos os dias fazíamos Zazen, recitações de Sutras, Portal do Doce Néctar, Daranis, os Preceitos do Zen Peacemakers. Genro Roshi sempre leva consigo um sino, para o início das atividades.



Myoden e seu grupo na Pç. Buenos Aires. Foto de Rogerio Cunha.

BZ: As pessoas paravam para olhar ou fazer perguntas?


Myoden: Sim, como éramos um grupo grande, de certa forma, chamávamos a atenção. Faziam perguntas e achavam a prática interessante.


BZ:Fizeram algum comentário que você achou engraçado?


Myoden: Fora os títulos que ganhamos dos próprios moradores de rua, houve um dia em que um morador de rua-de um grupo de quatro pessoas - eles vivem em "famílias" para se protegerem, falou para ouvirmos: "Isso aí não adianta de nada, amanhã vocês já estarão em casa, na cama de vocês, macia,quentinha."
Daí uma pessoa do nosso grupo foi conversar com eles. Especificamente com este que falou diretamente para a gente, e perguntou a ele: “Quantos playboys você conhece que se dispõem a fazer esse tipo de prática? De compartilhar com vocês o dormir no papelão? O viver o dia-a-dia assim?” Foi uma conversa baseada na paz, na prática. Então, esse grupo de moradores de rua, mais tarde, voltou com um monte de comida, de presente (café com leite, pães com manteiga, marmitex, paçocas). Conversamos todos juntos e juntos chegamos a conclusão que de qualquer maneira somos irmãos. Foi lindo e preenchido de falar do coração e ouvir com o coração. Esse dia fiquei emocionada com a família que "ganhamos". Essa e outras histórias muito interessantes aconteceram.


BZ: Alguém do grupo desistiu no decorrer dos dias?


Myoden: Não.


BZ: Porque pagar para passar fome, dormir na rua e ficar sem tomar banho?


Myoden: O retiro é pago porque precisamos custear as passagens, alimentação e transporte dos integrantes do Zen Peacemaker: Genro Roshi, Monge Koho. que vem ao Brasil.. Porque para nós (Budistas, Zen Budistas) também é uma prática de mendigar, de pedir e de permitir que outras pessoas contribuam para esse tipo de prática de paz.


BZ: Por que pediu ajuda financeira para fazer o retiro.


Myoden: Pedi ajuda porque era parte da nossa tarefa. Não podíamos pagar o retiro e as despesas dos professores com recursos próprios. Tínhamos que mendigar pelo menos R$ 400,00 em dinheiro. O que sobrasse seria doado. Isso foi parte da nossa preparação antes do retiro para aprender essa pratica que Xaquiamuni Buda nos deixou como aprendizado de humildade e de ajudar aos outros a ajudar.



BZ: O que aprendeu com essa experiência que poderá usar no seu dia-a-dia?


Myoden: A simplicidade como caminho: Posso ser feliz com um copo de água, um prato de arroz e feijão, um copinho de chá, simplesmente lavando a mão, indo a qualquer banheiro, ouvindo o outro sem julgamento, olhando nos olhos, apenas caminharmos juntos, deitar no papelão e olhar as estrelas...Realmente é necessário muito pouco para se estar em harmonia. Necessário não é muito feliz nem triste.


BZ: Explique a técnica do “Conselho” usada no Zen Peacemakers, que é quem promove os retiros de rua.


Myoden: É uma técnica maravilhosa. Neste retiro, foram feitas duas rodas, uma de 12 pessoas e outra de 11 pessoas. Fazíamos um altar no meio, com uma vela acesa. O líder do conselho onde fiquei era Genro Roshi. Sempre antes de começar um Conselho, ele explicava as regras gerais: Após segurar o objeto de fala (talk piece) faz-se a apresentação. Quem for falar antes diz seu nome e começa a falar.  Devemos falar apenas de nós mesmos e não dos outros ou emitir opiniões do tipo “Eu acho isso...” Falar com o coração, ouvir com o coração,absolutamente confidencial, nunca atravessar a chama, não se concorda ou se discorda de alguém - que é o ouvir com o coração. Dessas regras básicas podem surgir outras, mas essas são os pilares do Council (Conselho). É uma técnica milenar que os índios usavam nas tribos americanas.
Já havia tido essa experiência quando fiz um retiro em 2010 no Via Zen com Paco Sensei, outro Zen Peacemaker.



 
BZ: Quando será o próximo retiro de rua e como participar?
Ainda não sei mas quem coordena os retiros nos Brasil é o Zendo Brasil da Monja Coen. Basta estar atento ao site ou ao grupo no facebook: "Retiro de Rua São Paulo".

Mais sobre o retiro: Matéria na Folha
Preceitos do Zen Peacemakers

06 janeiro, 2013

Reza





Rita Lee

Deus me proteja da sua inveja
Deus me defenda da sua macumba
Deus me salve da sua praga
Deus me ajude da sua raiva
Deus me imunize do seu veneno
Deus me poupe do seu fim 2x
Deus me acompanhe
Deus me ampare
Deus me levante
Deus me dê força
Deus me perdoe por querer
Que Deus me livre e guarde de você
Deus me acompanhe
Deus me ampare
Deus me levante
Deus me dê força
Deus me perdoe por querer
Que Deus me livre e guarde de você
Deus me perdoe por querer
Que Deus me livre e guarde de você
Deus me livre e guarde de você
Deus me livre e guarde de você