30 outubro, 2012

Questões sobre a Morte

Perguntas e respostas dadas por Monja Coen sobre a morte:




Yoga Journal: Como superar a dor de perder alguém querido?

MC: Através da memória correta. Tudo é passageiro, transitório. Sofremos a perda e perdemos o sofrimento também. Precisamos nos refazer e refazer a teia de relacionamentos que fica fracionada com a morte de alguém próximo. Saber que um pouco de nós morre com nossos amigos e parentes e que um tanto grande de quem morreu vive em nós. Como dar vida a vida em nossas vidas?


YJ: O tempo é o melhor remédio?

MC: Somos o tempo. Não é remédio o tempo. O remédio é a sabedoria suprema. A compreensão da transitoriedade. A aceitação da vida-morte como um processo de causas-condições-efeitos. E todos somos essa teia de inter-relacionamentos. Não podemos apenas ficar nos lamentando pelo que perdemos, centrados em nosso ego. É preciso orar pelos que se vão. Agradecer suas vidas, seus momentos conosco e libertá-los de nossos apegos.

YJ: Qual é o medo maior de morrer ou de perder alguém?

MC:Depende de cada um. O essencial é conhecer o medo. O que é o medo? Como se manifesta em nosso corpo? Como ficam nossos músculos, nossa respiração e o batimento cardíaco? Então reconhecemos o medo e não somos mais controlados pelo medo. Ninguém quer perder um filho, uma filha, uma criança. Quantos pais não entregam suas vidas para manter a de seus filhos? Talvez nosso instinto de preservação da espécie seja mais forte em manter as vidas sucessivas invés de primeiro pensarmos nas nossas. Mas nem todos são assim. E isso não são pensamentos de valores, quem é melhor, quem é pior. Apenas somos o que somos. E somos processos em transformação.

YJ: É possível ser feliz depois da morte de alguém muito querido?

MC Sempre é possível ser feliz. A felicidade está em nós. Uma capacidade de contentamento mesmo nas maiores dificuldades, dores e perdas. Reconhecemos o processo vida-morte em ação. É o nosso processo. E todos vamos morrer, assim como todos nossos ancestrais morreram. Faz parte da natureza humana. Não apagamos a memória. Não substituímos a pessoa por outra, mas continuamos nossa jornada, levando em nosso ser a marca da dor, mas não o peso, o trauma, a incapacidade de viver. Somos a vida. Somos a morte. Estamos todos inter-relacionados. Intersomos.

23 outubro, 2012

Quantas qualidades você tem?


Buda ensinou as Quatro Qualidades Incomensuraveis. É mais comum debater-se sobre esses aspectos no budismo Tibetano e no Theravada. No Zen percebe-se que as qualidades são intrinsicas a nossa vida e precisamos despertá-las e pondo-as em pratica. São qualidades grandiosas por isso se chamam "incomensuraveis", pois não são fáceis de serem realizadas seja em separado ou em conjunto. Às vezes temos períodos bons em que podemos passear por todas elas com facilidade e às vezes temos períodos ruins em que elas são esquecidas.


Amor - Generosidade amorosa ou bondade amorosa-é quando você estende a todos os seres a liberação do sofrimento. É fácil amar quem nos é próximo ou a quem nutrimos simpatia, mas amar todos os seres é muito mais grandioso que amar só quem gostamos  

Compaixão - Desejar que todos os seres tenham a liberação das causas que geram o sofrimento. Confundir compaixão com pena é comum. Mas compaixão é se colocar no lugar dos outros.  

Alegria - Perceber as potencialidades de todos e se alegrar com isso. Todos tem condições de serem melhores e mudar seu carma. Todos são Budas iluminados e quão facilmente nos esquecemos disso quando desejamos que alguém que nos fez algum mal morra.

Equanimidade - Desejar a liberação para todos, sem distinção de amigos e inimigos, pessoas que se gosta, pessoas que não se gosta.

O Caminho do Bodisattva é o caminho da Compaixão. É cuidar de todos para que todos juntos alcancem a realização e não apenas um ou apenas eu.

Eu certamente não tenho nenhuma dessas qualidades. Sou bastante imperfeita.

21 outubro, 2012

Budismo em Novelas





Fico sabendo por Patricia Kogut que haverá uma novela a se chamar "Pequeno Buda"  as autoras costumam escrever novelas de temática espírita como a última das seis: Amor Eterno Amor.


Não sei qual será o argumento ainda, mas parece ter a ver com uma garota que será dada como a reencarnação de Buda. Pra começo de conversa não há esse negócio de reencarnação de Buda. A reencarnação é tratada como tema pelo Budismo tibetano que busca o próximo Dalai Lama ou escolhe crianças que possam ser apontadas como reencarnação de lamas anteriores.

Na novela será uma menina que renascerá como Buda. Um escolha ousada, já que raramente uma mulher seria apontada como sucessora do Buda ou de um Dalai Lama. Sucessora do Buda iria contra ao que o Buda ensinou. Ele nunca disse que voltaria, mas também nunca disse que não voltaria.

Prevejo muita polemica nessa escolha. Mas ficção é ficção e como costumo dizer: "Na ficção tudo é possível."  Na vida real .... uma Dalai Lama mulher pode demorar eons para ser aceita.

Mel Maia, fará o Pequeno Buda. É a mesma que fez o papel de Rita na fase infantil da recente novela Avenida Brasil. Eis ela aqui em foto com as autoras da novela Pequeno Buda.





A única vez que vi o Budismo representado numa novela foi em Mandalla onde Osmar Prado interpretava um monge.

Certamente que os Budistas ficarão atentos para qualquer noção equivocada sobre o tema.

Em tempo: a nome da novela foi mudado para Jóia Rara.

17 outubro, 2012

Satyagraha, a Força da Não-Violência.



 Embora Gandhi tenha dito "Me considero hindu, muçulmano, cristão, judeu e budista" ele seguia a Fé  Bahá'í.

"Satyagraha,o termo talvez nos tenha chegado aos ouvidos por outras fontes,mas ele foi muito usado por Gandhi quando propôs a resistência ou desobediencia civil.

A filosofia de Gandhi e suas ideias sobre o satya e o ahimsa foram influenciadas pelo Bhagavad Gita e por crenças hindus e da religião jainista. O conceito de 'não-violência' (ahimsa) permaneceu por muito tempo no pensamento religioso da Índia e pode ser encontrado em diversas passagens do textos hindus, budistas e jainistas. Gandhi explica sua filosofia como um modo de vida em sua autobiografia A História de meus Experimentos com a Verdade (As Minhas Experiências com a Verdade, em Portugal) - (The Story of my Experiments with Truth). 

Estritamente vegetariano, escreveu livros sobre o vegetarianismo enquanto estudava direito em Londres (onde encontrou um entusiasta do vegetarianismo, Henry Salt, nos encontros da chamada Sociedade Vegetariana). Ser vegetariano fazia parte das tradições hindus e jainistas. A maioria dos hindus no estado de Gujarat eram vegetarianos. Gandhi experimentou diversos tipos de alimentação e concluiu que uma dieta deve ser suficiente apenas para satisfazer as necessidades do corpo humano. Jejuava muito, e usava o jejum frequentemente como estratégia política.

Gandhi renunciou ao sexo quando tinha 36 anos de idade e ainda era casado, uma decisão que foi profundamente influenciada pela crença hindu do brachmacharya, ou pureza espiritual e prática, largamente associada ao celibato. 

Também passava um dia da semana em silêncio. Abster-se de falar, segundo acreditava, lhe trazia paz interior. A mudez tinha origens nas crenças do mouna e do shanti. Nesses dias ele se comunicava com os outros apenas escrevendo. 

Depois de retornar à Índia de sua bem-sucedida carreira de advogado na África do Sul, ele deixou de usar as roupas que representavam riqueza e sucesso. Passou a usar um tipo de roupa que costumava ser usada pelos mais pobres entre os indianos. Promovia o uso de roupas feitas em casas (khadi). Gandhi e seus seguidores fabricavam artesanalmente os tecidos da própria roupa e usavam esses tecidos em suas vestes; também incentivava os outros a fazer isso, o que representava uma ameaça ao negócio britânico - apesar dos indianos estarem desempregados, em grande parte pela decadência da indústria têxtil, eles eram forçados a comprar roupas feitas em indústrias inglesas. Se os indianos fizessem suas próprias roupas, isso arruinaria a indústria têxtil britânica, ao invés de fortalecê-la

O tear manual, símbolo desse ato de afirmação, viria a ser incorporado à bandeira do Congresso Nacional Indiano e à própria bandeira indiana. Também era contra o sistema convencional de educação em escolas, preferindo acreditar que as crianças aprenderiam mais com seus pais e com a sociedade. Na África do Sul, Gandhi e outros homens mais velhos formaram um grupo de professores que lecionava diretamente e livremente às crianças. Dentro do ideal de paz e não-violência que ele defendia. "


Já há algum tempo monges budistas no Tibete tem se imolado em chamas para chamar a atenção do governo chinês e do mundo para a causa da Independência do Tibete. Imagino que Gandhi não aprovaria esse tipo de atitude. Mas porque os tibetanos não fazem algo parecido com que Gandhi fez? Talvez lhes falte um líder como Gandhi.


15 outubro, 2012

O que é Doença Zen: Sintomas e Cura.

"Um cavalo que é difícil de dominar para um carroça pode ser treinado para passeios. Ouro reluzente pode ser transformado em algo bonito. Sem esforço, nada é realizado. um ditado que diz que "Estar frequentemente doente não é nada para se preocupar. O que deveria nos preocupar, de fato, é a ausência de doença." Ditado chinês.




A primeira vez que ouvi o termo "zen sickness" fiquei meio chocada. Pelos sintomas eu achava que já tinha tido essa doença. Volta e meia percebo-a em outras pessoas da forma mais leve com apego ao que é certo.

Na formas mais graves acontecem alucinações. A pessoa para de comer para praticar mais e mais e fica doente fisicamente quando não surta mentalmente. Há um caso famoso no universo zen. O caso do monge Hakuin.

A Internet e a facilidade de acesso e difusão de posições e tagarelice só contribui para piorar o estado do doente zen ou pode ajudá-lo? Esta ainda é uma questão a ser depurada.

Já escrevi sobre isso algumas vezes, Para não me repetir colo aqui o texto de um psicólogo e zen budista.

"Problema - mesmo pequeno - é aquele que acomete todos aqueles que começam a praticar alguma coisa que carrega, em seu discurso, uma certa dose de idealismo: as pessoas começam a acreditar muito nele. Acreditar em um ideal não é, em si mesmo, grande mal, e todos sabemos o quanto perder um ideal - um direcionamento, uma expectativa em relação ao futuro - pode abalar as pessoas. Então é melhor que fiquem, os ideais e expectativas. Temperados com um pouco de realismo, esperamos.
Na prática do zen este problema pode ter um nomezinho específico: a doença do zen. Terrível, terrível, e o mais terrível dela é que, como toda boa doença que se preze, o diagnóstico só pode ser feito de fora: o tal indivíduo não percebe. Praticar zen e zazen não é garantia que alguém não vá ser preconceituoso ou raivoso; não é garantia de saber mais que os outros; não é garantia de sabedoria. Infelizmente, não dispomos desta garantia.
Quem é acometido pela doença do zen passa a acreditar demasiado nas palavras do zen e do budismo, e a sutilmente fazer distinções no mundo. Desde os casos mais patentes em que alguém acha que está fazendo a melhor coisa do mundo praticando o zen, e que consequentemente será uma das melhores pessoas - talvez elevada do lodo, digamos - até os mais simples, em que os ideais do budismo passam a regular o que é "bom" ou não, a doença do zen tem um parentesco muito grande com outras doenças similares."
 
Seigaku-Lucas Brandão aluno de Saikawa Roshi.


A sugestão para curar-se da doença zen dada por Lucas Brandão é continuar fazendo zazen.

Então lembrei-me do Dr. Samuel Hahnemann, o pai da homeopatia, cujos princípios básicos são:

Semelhante cura semelhante
Experimente em seres sadios
Medicamento único
Doses mínima

Na homeopatia quanto maior a diluição mais forte é o remédio.

A prática em doses mínimas corre menor risco que em doses exageradas. Tudo que é exagerado foge do controle. Alguém que esteja bem terá menos chance de ficar mal. E alguém que estiver mal pode acentuar seu estado se praticar mesmo que minimamente. Quando optar por uma prática que ela seja única e não experimentar uma, depois outra ou fazer varias práticas. Se fizer zazen faça só zazen. Se fizer mantra só mantra, e assim por diante. Por fim como disse o Lucas zazen cura zazen. Ou seja se fizer zazen em excesso faça menos zazen e tudo deverá se ajustar, se equilibrar. Não deixe sua vida cotidiana,social ou familiar de lado apenas para praticar. A menos que esteja num mosteiro fazendo um retiro ou em treinamento monástico, sua vida é esse momento e deve ser vivida plenamente agora, sem excessos.




06 outubro, 2012

Bossa Zen Entrevista Félix Maranganha



Félix Maranganha-Escritor, poeta, linguista e Zen Budista. Não há o que não interesse a esse cabra (com todo respeito). Poesia, literatura, filosofia, linguística, idiomas modernos e remotos, sinuca... A lista é imensa. Seu blog O Calango Abstrato é uma prova disso. Félix mora em João Pessoa e pratica Zen Budismo há três anos no estilo Soto Zen. Atualmente frequenta o Centro Zen de Campina Grande sob responsabilidade do monge Rui Ikko, aluno de Monja Coen.



Front Page do Blog do Félix


BZ:.Poderia contar como foi sua aproximação com o budismo?

Félix (FL): Na adolescência, visitou-nos na escola, um budista amigo do professor de matemática, ele me falou algo estranho e fiquei cabreiro. A curiosidade voltou depois do divórcio. Resolvi estudar mais a fundo, e gostei.

BZ: Você diz que já foi católico, neo-ateu, ocultista, evangélico e agnóstico. O que te atraiu no Zen Budismo que não encontrou nas demais religiões?

FL:Simplicidade máxima de crença e ação, e o espaço para a dúvida, que acho importante.

BZ:.Por que mudar de religião?
  
FL: Eu considero uma religião apenas um conjunto de sistemas doutrinários, e nada além disso. Se mudo de religião, significa que adotei sua visão de mundo. Se a visão de mundo se mostra ineficiente ou insuficiente, abandono sem dó.

BZ:.Como sua família ou amigos reagiram quando você se declarou budista ou começou a fazer meditação?
 
FL: Minha mãe quis "confiscar" o altar improvisado, mas foi algo rápido. Senti a tristeza no olhar de muitos deles depois de um tempo. Hoje parecem ignorar, ainda mais por eu namorar há três anos uma nitirenista. Porém, ainda hoje medito pouco, para não afetar demais o "ritmo da casa".

BZ:.O que tem a dizer aqueles que enfrentam oposição, em casa, a sua pratica?
  
FL: Persistam, sejam calmos e pacientes e façam o possível para não causar sofrimento. Aprender a tolerar é importante.


BZ: Você faz parte de algum grupo em João Pessoa, qual ? 

FL: Temos um grupo, que no momento, se reúne, de tempos em tempos, para debater o darma, meditar e trocar experiências. Alguns de nós vão ao centro zen de uma cidade do estado periodicamente, e fazemos o possível para sempre melhorar no intuito de ajudar uns aos outros.

BZ:.Já recebeu preceitos como discípulo. Quem é seu professor formal (se tiver)?
 
FL: Não cheguei a receber nenhum preceito, apenas os estudei, e faço o possível para aplicá-los no dia-a-dia. Logo, não tenho professor formal, mas apenas um monge que de vez em quando recorro em Campina Grande, o Rui Ikko. Pretendo começar a frequentar duas vezes ao ano e, quando a situação financeira melhorar, contribuir.

BZ: Quanto tempo dedica a pratica formal em grupo ou em casa?
 
FL: Estudo desde os 16 anos, medito há cerca de 5 anos, pratico especificamente o Budismo há três anos, e só vim começar a visitar o Centro Zen este ano (até agora, só uma vez) e estou com um grupo em João Pessoa de reuniões esporádicas por ausência de local fixo.

BZ: A sinuca é zen?


FL: Na verdade, tento trazer a filosofia do Viver o Agora do zen para todas as minhas áreas da vida, seja como sinuqueiro, seja como escritor, como cientista, em casa com os familiares ou qualquer outra área. Por isso, não sei dizer se a sinuca é zen, ou se o zen é uma sinuca. Posso dizer que posso jogar sinuca como um hobby interessante e aplicar nela e entender dela princípios do zen.

BZ:.Quando as pessoas sabem de você ser zen budista elas lhe fazem perguntas sobre o assunto?

FL: Algumas sim, outras não. As que perguntam, procuram saber como eu consigo praticar o Budismo e não crer em Deus, ou como consigo ser ateu e ser religioso. Os que não perguntam, não forço, apenas explico que pratico o zen e fica por isso mesmo. Nessas conversas não tenho nenhum interesse em  arrebanhar "fiéis" para o zen-budismo. Prefiro conversar com os amigos numa mesa de bar.


BZ:Você se relaciona com uma pessoa de outra religião. A convivência é pacifica ou vocês tem dificuldades? 

Me relaciono com uma Nitirenista, e a convivência com ela é igual à convivência com qualquer outro ser humano. Às vezes há divergências, às vezes convergências. O que faz com que meus relacionamentos durem é que passo o mínimo de tempo possível debatendo religião. Se ela for motivo de separação, ou de união, é algo que não pertence ao presente, que é a única coisa que me importa.

BZ:.Você parece gostar de ensinar pretende seguir no treinamento para ensinar o zen budismo?


FL:Eu gosto de ensinar, mas não budismo. Gosto de ensinar língua portuguesa e filologia. O budismo, gosto de praticar. Se minha prática tornar-se um ensino, não vejo problemas nisso, se não, também não vejo problemas.


BZ:.Os idiomas que falamos hoje vieram de uma raiz indo-europeia. Buda falava que língua? Por que se interessa por línguas tão remotas como o nostrático?
 
FL: Buda falava em páli, uma versão vulgar do sânscrito, descendente do ramo indo-europeu. O nostrático, que eu pesquiso, é uma língua ainda anterior reconstruída por vários linguistas e filólogos, muitos deles conhecedores de línguas orientais. Os idiomas que falamos hoje, porém, derivam de pelo menos 15 a 25 famílias linguísticas, agrupadas em torno de seis a sete grupos basilares. Então, quando Buda começou a espalhar o darma, o nostrático já era uma língua em desuso fazia mais de dez mil anos. Meu interesse por línguas remotas é como pesquisador e porque gosto desse assunto.


BZ: Você faz mestrado em Ciências das Religiões. Que tipo de tema pretende estudar. Tem algo a ver com o Budismo?
 
FL: Meu mestrado tem mais a ver com linguística e filologia aplicada a conceitos espirituais modernos na pré-história.

BZ:.Os Calangos são pequenos lagartos que quando ameaçados se fazem de mortos. Para se proteger tentam se camuflar com o ambiente. Você já precisou se fazer de morto por causa do que escreve ou do modo de ser?


FL: Até o momento, não. Os calangos também se camuflam muito bem, apesar de eu não ligar muito com as consequências da sinceridade. Digamos que a sinceridade choca, e é impossível viver sem chocar ou ser chocado por algo.

BZ:.O chapéu de couro que você usa  é para se mimetizar com o ambiente?
  
FL: O chapéu de couro deixou de ser usado faz tempo aqui, mas alguns ainda o utilizam em meios intelectuais. No meu dia-a-dia, opto pelo uso da boina, que me destaca apenas o suficiente pra criar uma identidade dentro da sociedade.

BZ:.Você também é um calango que esquenta e esfria (pecilotérmico) de acordo com o ambiente?
FL: Faço o possível. Já tive situações em que foi difícil permanecer de sangue-frio, e outros em que tive sangue-frio sem perceber. Ainda estou trabalhando nisso, e espero conseguir antes de morrer (risos).

01 outubro, 2012

Teste para Viver com Pouco

Não há teste melhor de que podemos viver com poucas coisas do que participar de um retiro zen budista.

Geralmente levo duas calças de meditação, o robe, e duas camisetas longas e duas curtas. Se for frio serão blusas segunda pele do tipo warm skin e roupa de baixo tb. segunda pele. No lugar onde vou tem roupa de cama e toalhas, então, isso não preciso levar, mas levaria uma toalha de secagem rápida, 3 pares de meias e pouca coisa de higiene. Um calçado para usar dentro de casa e um fora. Um livro para ler na viagem, câmara de fotografia, celular, mas apenas para usar antes e depois do retiro. Documentos e nada mais. Ainda assim acho que levo muitos itens, mas sendo fora do país e em estações diferentes entre os países acaba sendo necessário. 


Nos retiros onde vou a organização é essencial. Tudo tem o seu lugar pois não podemos nos comunicar ou ficar toda hora perguntando onde está tal coisa. Então as gavetas tem etiquetes indicando o que tem dentro, assim como os armários, a geladeira. Há instruções por escrito do como limpar o banheiro e você só precisa ler. Isso facilita muito a vida e gera menos atritos entre as pessoas. Ao invés de ficar abrindo todas as portas e gavetas a procura de algum objeto só temos que parar e ler as etiquetas ou instruções. Um bom retiro deve ser minimalista. A comida deve ser fácil de preparar e de digerir. Os utensílios devem ser fáceis de manejar, lavar e guardar. A pratica é baseada em uma rotina não por acaso. A rotina no retiro facilita bastante. Se cada dia for de um jeito vai dar muito mais trabalho. Passam-se anos e quando volto lá, nada mudou. As coisas não mudaram de lugar.

O trabalho também deve ser simples. O objetivo do trabalho no retiro não o trabalho em si, mas aprender a usar a técnica aprendida, no dia a dia. Aprender a levar para nosso cotidiano aquilo que fazemos formalmente quando meditamos.A meditação é uma extensão da pratica, pois ficar sentados na almofada nós só ficamos por alguns minutos, mas se conseguimos trabalhar nossa mente para meditar a cada momento, pra manter-nos focados no momento, em cada ação ai sim aquela pratica do retiro ou das salas de meditação fará alguma diferença em nossas vidas.

Quando faço retiros geralmente me cabe limpar os banheiros. Se os limpar como faço em casa, poderia limpa-los em cinco minutos, mas eu tenho uma hora, então é quase como se nesse tempo eu tivesse uma longa conversa com a pia, o vaso sanitário, o chão e as janelas do banheiro. Eu preciso fazer aquele trabalho de forma mais lenta e atenta. Em uma semana ou mais limpando banheiros eu percebo cada detalhe, cada pequena imperfeição e fico tão intima daquele lugar que poderia sentar ali e meditar nele.

Há muitos livros que ensinam sobre como organizar-se e viver com menos. A corrente minimalista tem muitos adeptos. A vida com menos não é necessariamente sem nada, ela apenas é mais clean e simples.  De certa forma, intuitivamente, já sabemos do que esses livros falam. Eles mais servem para dar um empurrão em quem já estava pensando no assunto mas ainda não havia posto em pratica. O estilo minimalista vai desde o modo de vida a forma com que decoramos a nossa casa e como gastamos nosso dinheiro com o que é essencial ou apenas consumindo coisas da moda.


Nesse processo também gosto de enfatizar a pratica da reciclagem. Aquilo que não queremos mais pode servir a outras pessoas e podemos doar ou vender, assim as coisas ao invés de irem para o lixo podem ter seu tempo útil estendido. Fazer um inventario de nossas coisas ajuda muito a decidir o que é prioridade e o que não precisamos mais e podemos descartar.  Podemos adquirir coisas que duram mais ao invés de coisas descartáveis ou tentar usar algo por mais tempo mesmo sabendo que podemos comprar outro mais bonito e moderno. Minha mãe ainda usa coisas que foram dadas a ela quando se casou. Meu pai afia as facas para que possam continuar a serem usadas do contrario iriam para o lixo e já temos bastante lixo no mundo. Sem destino adequado ele vai parar em rios, no mar e poluem e contaminam o ambiente. Não colocamos quase nada na rua para ser recolhida pelo sistema de coleta de lixo. Temos nosso próprio sistema de reciclagem e compostagem caseiros. Isso é tão antigo que não é natural que as pessoas não o façam expontaneamente e que alguém ou alguma instituição precise fazer alguma ação para motivar ou premiar quem recicla.


Tem gente que prefere abandonar um sofá na rua ou jogar num rio do que dar para alguém, isso certamente não faz parte do conceito de viver com menos. Alguém também pode interpretar o conceito de viver com menos ao desapego. Mas não é por ai que a banda toca. A opção de viver com menos é baseada em viver melhor. Menos é mais, porque menos coisas gera menos bagunça. Quando há menos coisas para arrumar, limpar, pode-se ter mais tempo para se dedicar a si  mesmo, à família, a uma boa conversa, um passeio. Menos coisas para gerenciar, menos problemas para resolver. Quem tem um carro ou já teve sabe quanto custa carregá-lo por ai. Às vezes ele nos carrega, mas quando só vira despesa somos nós que o carregamos. Há muitos exemplos nessa linha. E sobretudo, o consumismo vai totalmente contra essa corrente de viver com menos. Ser minimalista implica em consumir menos. Produzir menos lixo, e viver mais, aproveitar mais o que já está aqui a milhares de anos só esperando por nós.



Foto do Rick que minimizou seu ap/antes-depois.