14 setembro, 2012

"O Meu Buda Lava Melhor que o Seu"



Ou Quando uma crença torna-se doentia.

Todo mundo já viu a guerra que é travada nas propagadas entre as marcas de sabão em pó. Um promete lavar melhor que o outro. Um promete branquear mais que o outro. Um promete perfumar mais que o outro. E nas prateleiras das lojas: um quer mais espaço que o outro. Chegam a oferecer dinheiro, brindes para ter mais espaço e visibilidade. Seja nas lojas seja nos consultórios o que importa é vender mais. Graças a esses brigões que tive meu primeiro notebook, um netbook, TVS, Lavadora...-brindes dados em troca de visibilidade de produtos.


Mas isso é a concorência. Faz parte do mercado. Pensar que entre religiões também se use esse mecanismo de concoreêcia parece absurdo. Afinal cada um deveria cuidar do seu jardim zen e não ficar olhando o que os outros fazem para dizer: "O desenho do nosso jardim zen é melhor que o deles." Cada um deveria cuidar só do seu rebanho, para usar uma expressão familiar. No entanto parece que há uma preocupação exagerada em vigiar o que os outros em outras religiões estão fazendo. São em maior número, faturam mais, o que fazem para ter mais gente nas suas audiências? E o mais danoso: Estão felizes? Se estivessem conosco estariam melhor.Como ser uma instituição sem fins lucrativos, não pagar impostos e agir como uma empresa que vende a fé ou crença usando subterfúgios? Algo está em contradição.

Claro, eles sabem que tendo mais gente nas audiências, mais podem receber em doações, mais podem pedir e mais portas podem abrir. Por esse ponto de vista há muito mais portas abertas em religiões não budistas do que em  budistas porque no budismo fazer propaganda ou sair por ai chamando as pessoas para ir a tal centro ou grupo não é um meio bem visto. Lembra da lei do carma? Cada um deve decidir por si se quer seguir o Caminho do Buda e não ser empurrado até ele, forçado ou seduzido. Mas o budismo também usa estratégias para gerar indiretamente interesse. Afinal se você se esconder ninguém vai te achar, mesmo tendo interesse.

Mas este artigo é para falar de quando a religião torna-se uma doença.
Ele torna-se doente quando sua única ocupação é a igreja, o centro, a religião. Tudo gira em torno  disso. Acontece o mesmo com quem vive só para o trabalho e se esquece da família, dos amigos, do lazer

A vida comum é toda gerenciada a partir da religião. O pastor ou monge ou Bramâne, ou quem for o líder da comunidade é quem diz o que você deve fazer? É a ele que você recorre quando precisa de conselhos?  Como se eles fossem um conselheiros da vida cotidiana e não da vida espiritual. Alguém pode dizer, mas se a vida cotidiana não vai bem a espiritual também não irá. O líder espiritual vai te dizer ao contrario: se a vida espiritual não vai bem a vida cotidiana não irá bem. Mas será que você não é capaz de decidir por si só?


Quando os preceitos aprendidos lá na instituição religiosa tomam conta do seu cotidiano e são levados ao pé da letra não é mais você quem conduz a rédeas da sua vida e sim os conselheiros espirituais que te conduzem e eles te levam para onde eles quiserem levar e você diz sim ou já nem reflete mais. O outro que te guia está sempre certo. Você não pensa mais por si. Não questiona, não duvida. A fé cega não é um porto seguro. É apenas uma fraqueza de quem passa o bastão para o outro decidir sua vida e apenas aceita o que outro diz. O outro diz: pule da ponte e você pula. Se você ainda se questiona. "Peraí, porque esse cara tá me mandando pular da ponte?" Ai você ainda tem jeito.

Não pense que só em religiões que martelam o nome de seus mártires e trituram as escrituras despejadas na mente ingenua dos desesperados geram fanatismo. No budismo isso também ocorre, especialmente no início com um natural deslumbramento pela pratica ou por um professor. Com a leitura excessiva de ensinamentos não depurados, e bem esclarecidos. Tem até um termo para esse momento: "Doença Zen". Com o tempo e o amadurecimento isso passa, mas se o professor não cortar o excessivo entusiasmo, se não corrigir o aluno, se for displicente com seu Sanga (grupo ou comunidade), ou até se aproveitar do entusiasmo dos alunos ou simpatizantes para angariar fundos mais facilmente então é provável que ele tenha problemas no futuro com pessoas sendo abordadas ou ofendidas por esse aluno fanático. Ou quanto muito o aluno irá ver algo que não gosta, que contraria as demandas do seu fanatismo e irá se afastar do grupo. Não sem falar para todo mundo que se decepcionou, que isso e aquilo que o professor não presta. Quando o fanático é desarmado ele corre para outro lugar em busca de outro culto onde possa seguir sendo fanático. Este tipo é o mais doente e talvez dificilmente mude seu comportamento mesmo porque quase ninguém dentro de uma comunidade vai lhe dizer que não deve agir de tal forma.

O autor Amos Oz , escreveu o livro "Como Curar um Fanático" e receita doses de bom-humor contra o fanatismo, recorrendo a escritores como Shakespeare, em cujas obras “toda forma de fanatismo acaba em tragédia ou comédia”.

"Usando do bom humor Amos Oz diz: "Muito frequentemente o fanático só consegue contar até um, dois é um número muito grande para ele. "


"Um verso do poeta israelense Yehuda Amichai diz:

 “Onde temos razão não podem crescer flores.”

"Senso de humor é a grande cura.
Quanto mais você tem razão, mais engraçado fica."

"... a essência do fanatismo reside no desejo de forçar as outras pessoas  a mudarem. O fanático é uma pessoa bastante generosa. É um grande altruísta. Frequentemente o fanático está mais interessado em você do que nele próprio. Ele quer salvar a sua alma, quer redimi-lo, quer libertá-lo do pecado, do erro, do fumo, da sua fé, da sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares ou curá-lo de seus hábitos de bebida ou de voto. Ele está sempre atirando no seu pescoço apertando sua garganta, caso você prove ser irrecuperável. "

O fanatismo pode ser contagioso? Sim, para Amos Oz  "Vocês podem contrair facilmente fanatismo, mesmo quando estiverem tentando derrotá-lo ou combatê-lo."

Convivo no trabalho com alguns fanáticos religiosos e sei por experiência que não adianta argumentar com quem tem todas as escrituras linha por linha,palavra por palavra na ponta da língua. Eu não discuto, muito pelo contrario até concordo porque assim eles ficam sem argumentos. Ir contra um fanático é declarar guerra e pode ser perigoso.

É mais fácil deixá-los de lado. Desistir do fanático por ele nos incomodar é o caminho mais razoável e fácil. Se eles nos incomoda será que nós também não somos um pouco presos a nosso ponto de vista?

Como cura-los? Eu uso a sugestão do Amos Oz: Bom-humor e amorosamente ir sinalizando o caminho. Não com discurso, mas com bons exemplos. Ou você se afasta ou ele te abduz para seu mundo alienado.

Como pessoas de religiões diferentes se entendem então nos relacionamentos?
Você não pode exigir que alguém te siga na mesma fé. Seria como pedir para que seu parceiro(a) fumasse ou bebesse porque pra te acompanhar. Se você sente só em seus hábitos e crença deve buscar companhia naqueles que tem a mesma crença sem necessidade de impô-la a seu parceiro/a
Em geral, alguém faz aquela pressão para que o outro abra mão da sua crença em favor de um dos parceiros. É muito mais comum parceiros cederem a essa pressão e abrirem mão da sua crença em favor do relacionamento. Poucos abrem mão do relacionamento em favor da crença do seu parceiro/a.

Há alguns que se entendem perfeitamente bem praticando em religiões diferentes, mas talvez isso seja a minoria.  Há sobretudo que se  respeitar a opção de cada um. Se isso não for possível ou abre-se mão da crença ou da relação. Ou seja ou ficamos juntos ambos com ou sem crença ou ficamos separados cada um com sua crença.

Do ponto de vista zen budista o remédio é: menos leitura, menos discussão sobre os ensinamentos e mais ação, mais prática. Viver no cotidiano o ensinamento mais do que teorizar sobre ele. Dê-me uma vassoura e um balde e eu te ensino o que é o zen.

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