13 setembro, 2012

Como ser Tranquilo?

O texto abaixo é de Félix Maranganha.


Os kanjis que gostamos muito de usar nem sempre são o que dizem ser literalmente. "Tranquilidade" para os orientais é: olhe o kanji de cima para baixo "casa" + "mulher". Ou juntando os dois "Mulher dentro de casa." Isso num tempo muito remoto onde às mulheres, realmente, cabia cuidar da casa.

Quando as pessoas pensam em tranquilidade, o que vem à mente delas é um sujeito calmo, sempre parado, movimentando-se na vida a passos de tartaruga, como se nenhuma motivação o fustigasse. Na verdade, ser tranquilo é outra coisa. Ouvi essa palavra e entendi seu conceito pela primeira vez quando li A tranquilidade da vida, do filósofo estóico romano Sêneca. Ali aprendi que ser tranquilo é simplesmente deixar as coisas passarem por você sem se apegar a nenhuma delas. Para entender melhor esse conceito, imagina a vida como um filme. Se você apertar o pause na vida para reter um momento, perderá todo o resto da sua vida. Se voltar ao passado para rever outro momento, esquecerá do momento presente que sempre acontece. Então, espera-se viver apenas o presente, sem dispersar-se, e sem perder o foco do que se faz no momento.


Uma pessoa tranquila é em essência uma pessoa desapegada. Essa pessoa é capaz de passar anos vivendo com alguém alterando o mínimo de suas atividades de quando era solteiro, e quando a solterice volta, ele não fica remoendo o relacionamento que acabou, mas segue a vida como se nada tivesse acontecido. Ele é capaz de passar vários anos com uma pessoa até perceber que está definitivamente casado. Uma pessoa tranquila, quando perde o emprego, simplesmente parte em busca de outro. Em dificuldades financeiras, apenas procura um jeito de resolvê-la. Em tudo, uma pessoa tranquila não lamenta, não fica ansioso, não sente medo e nem desenvolve culpa, apenas reage da maneira que é mais apropriada para a situação. E, se não der certo, tem seu "foda-se" ligado desde sempre para ajudá-lo. Ele não se abala, apenas caminha. Ele não para nem rebobina a vida, ele apenas vive, pois sabe que a vida não tem pausa para ir ao banheiro.

Quando finalmente aprendi a ser tranquilo, percebi que o medo é um fator de atraso, pois nos faz saltar para um futuro além do desconhecido em busca de uma segurança, nos tornando ansiosos, criando fantasias a respeito dos resultados de nosso presente, que serão inevitavelmente frustradas, acarretando em sentimento de culpa por não ter feito diferente. Como podem ver, a inter-relação de todos esses sentimentos é complexa, daí o nome Complexo. E no caso específico, prefiro chamar de Complexo do Chorão. Quer resolver todo o complexo? Ataque no ponto em que ele começa, no medo, mas não assuma a coragem, pois ela leva a atitudes impensadas. Troque a dicotomia medo/coragem pela tranquilidade, e siga em frente.


Nos últimos seis anos, minha principal tarefa foi simplificar a vida e cada vez mais ir largando peso extra, me desapegando de coisas do passado ou ansiando pelo futuro. Larguei Deus, larguei a religião, larguei a necessidade de ser rico, larguei a necessidade de chamar atenção, a necessidade de dar satisfação, a submissão aos outros, a ânsia doentia pelo prazer etc. Pouco a pouco fui vendo o quanto largar tudo isso foi me tornando mais calmo. E a calma me ajudou a encontrar a tranquilidade. Pra mim, ser feliz é isso: ser tranquilo. Tenho de aprender mais ainda, claro, mas estou no caminho certo.


Pois bem, é assim que aprendi a não ter problemas com a vida: aceitando-a como inevitável, com todos os seus revezes e suas glórias. Assim como os problemas, as soluções são também temporárias, pois a própria vida, enfim, é temporária. Temos pouco tempo aqui no planeta. Posso morrer amanhã com a cabeça estourada em um acidente de trânsito, como posso morrer daqui a 80 anos em uma cama confortável, pois nada é mais frágil que a vida. Se a vida é impermanente, então por que pausá-la? Por que não vivê-la?

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