26 agosto, 2012

Bossa Zen Entrevista: Islan Alex Triumpho

Islan no Zendô



Islan é Téc-enfermagem e atua na UTI de Hospital em Porto Alegre. Conviveu, como autodidata, com o Budismo desde meus 9 ou 10 anos. Através seu pai e por leituras que fez desde então. Em torno de 2005 assistiu uma palestra do Mestre Zen Moriyama Roshi e passou a ler tudo que se referia ao Zen, então foi ao Via Zen e lá conheceu a monja Coen que foi sua inspiração para dar os primeiros passos no caminho zen. Através dela conheceu a monja Isshin, a quem recorre para conversar e para pedir orientação. Islan é aluno leigo de monja Isshin desde 2008. Colabora como pode divulgando e escrevendo eventualmente sobre o tema em seu blog e redes sociais. Islan também pratica a "ecologia doméstica" (termo que inventou para definir as coisas simples que podemos fazer em casa para ajudar a não piorar mais o mundo).

Islan chamou-me atenção por replicar meus artigos em seu blog Arando a Mente Fértil, o qual passei a prestar mais atenção, pois tenho o hábito de mudar meus artigos ou corrigir algum erro que vejo depois de publicá-los.




Bossa Zen (BZ) Como "Agricultor Zen" quanto tempo vem  “Arando a Mente Fértil”? 


Front Page do Blog de Islan

IS: O “Arando” nasceu em 2005, de uma necessidade minha de leitor. Precisava juntar de forma mais organizada os artigos, blogs e autores que eu lia e divulgava e usava como referência para “consumo” pessoal, estudo e como referência em uma rede social. O problema era que, volta e meia, me vinha uma pessoa ou outra pedir informação sobre onde eu tinha achado “aquele” autor, ou “aquele” texto, ou “aquela” frase de um dia “x” que eu citar em uma conversa de um ou dois anos antes. Eu ficava frustrado de não fazer a menor ideia de como ajudar . Nisto me apresentaram a ferramenta do Blog. Eu lia muitos Blogs. Comentava de forma discreta em alguns. Foi quando, em 2008 iniciei minhas “colagens”. A ideia inicial era trazer os assuntos abordados nos bate-papos virtuais para o blog. Virou de um pretenso arquivo em uma revista/mural onde postaria as informações, textos e links de pessoas que eu considerasse significantes para o Dharma.  Acabei por deixar de lado as listas de bate papo me dedicando apenas ao Blog. Percebi que os blogs tem um sistema da estatística. Eu estava convicto que escrevia para mim e mais meia dúzia de amigos. Eram mais de uma centena visitas ao mês. Hoje são 3 mil.


BZ: A “mente fértil” também precisa ser arada?

IS: Toda a terra para gerar bons frutos precisa ser trabalhada, não é? Do contrário ela será tomada por ervas daninhas. O mesmo se dá com nossa mente e nossa vida. Se não aprendemos a  conhece-la e gerencia-la ela é tomada por forças e direções que podem nos ser prejudiciais ou desnecessariamente sofridas. Acredito que se toda potencialidade do homem esta como “semente”  latente dentro de cada um, sem o estímulo permanecerá lá.  Apenas encarcerado, como uma semente em um pote de vidro. A árvore se manifesta quando a terra, a água e o sol lhe dão estímulo. Cabe a cada um cultivar as suas sementes, não é. Estimulando as sementes certas que dormitam dentro de si.

No belo livro “Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA”, de Thich Nhat Hanh, Buda é interpelado por um agricultor que lhe acusa de perder tempo em vez de trabalhar a terra:


 “Nós somos fazendeiros. Nós aramos, semeamos, fertilizamos, cultivamos e ceifamos para comer. Vocês não fazem nada, não produzem nada e, ainda assim, comem. Vocês são inúteis. Não aram, não semeiam, não fertilizam, não cultivam e não ceifam."

“Oh, mas nós fazemos tudo isso. Nós aramos, semeamos, fertilizamos, cultivamos e ceifamos.” – disse o Buda.

.“Então, onde estão seus arados, seus búfalos e suas sementes? Quais culturas vocês plantam? Quais culturas ceifam?”
O Buda respondeu: “Nós cultivamos as sementes da confiança na terra do coração verdadeiro. Nosso arado é a mente alerta, e nosso búfalo é a prática da diligência. Nossa colheita é o amor e a compreensão. Senhor, sem confiança, compreensão e amor, a vida não é nada além de sofrimento.”


BZ: Você pretende plantar algo seu nessa terra virtual ou apenas sementes alheias?

IS: Sou um inveterado leitor. Não sou seguro com as palavras. É algo que eu preciso trabalhar em mim, com certeza. Várias vezes eu tive de escrever por não achar textos que me refletissem a ideia, é claro, fiz algumas intervenções em textos postados aqui para ajudar a introduzir ou contextualizar alguma matéria, mas sou ainda um leitor acima de tudo. E com sorte, um bom praticante. O fato de trazer as pessoas a lerem temas que se unem aqui já é um privilégio. Mas se a produção for um caminho que se manifeste em minha vida não vou deixar de trilha-lo.


BZ: Que outras terras (temas) te interessam além do Budismo?

IS: Buenas, Tenho interesse em muitos temas e trago para o “Arando” os que mais me motivam. Como já falei o “Arando” foi pensado para ser um local para linkar o que leio com prazer. O Budismo é o mais focado, sobre tudo, mas me interesso muito sobre as questões da “mente” num espectro mais amplo, mais ocidental, acabo lendo e publicando sobre psicologia, neurologia, antropologia, filosofia e psicanálise. Nada pensado de forma acadêmica, longe de mim. Mas trazer temas que tragam outras visões que ajudem a entender este mundo em que nos encontramos. Falo também de cultura da cozinha e da cultura da alimentação proativa. Falo de inserção da bicicleta no urbanismo e de Aikidô e Ateísmo. Ou seja, faço ainda um apanhado de coisas que de alguma forma fomentam minha vida.


BZ: Poderia contar como foi sua aproximação com o Budismo? Foi através do Aikidô?
IS: Bom, o Budismo foi sempre um assunto próximo de minha vida desde a infância. Mais como uma cultura estimada que uma filosofia praticável. Meu pai me apresentou tanto as artes marciais quanto ao Budismo quando eu tinha uns 10 anos, eu acho. Mas comecei a me interessar MESMO próximo dos 25 anos quando eu fazia faculdade de psicologia. O Aikidô foi uma grata coincidência. Sempre admirei. Aprendi algumas técnicas com meu pai, mas só fui praticar quando descobri que as aulas eram no mesmo espaço que as reuniões da Sanga criada pela Monja Isshin. Foi amor ao primeiro pisar do tatame.

BZ: Quanto tempo dedica à pratica formal no zendô e em casa?

IS: Comecei a praticar em casa ainda sob influência da Monja Coen e do Via Zen (de Porto Alegre) em 2005, eu acho, mas só passei a praticar com regularidade em casa e no Zendô quando passei a fazer Zazen com a Monja Isshin em 2008.

BZ: É membro atuante na comunidade budista?
IS: Estou afastado da Sanga faz um ano,mas sou membro da Comunidade Soto Zen Budista Jisui Zendô-Sanga Águas da Compaixão. Meu afastamento se deve principalmente ao fechamento da academia de Aikido que era local de prática da sanga no bairro onde trabalho. Foi preciso organizar um novo “ZenDô” e fazer a transferência da Sanga. Será preciso que eu faça muitas mudanças, que ainda estou trabalhando para concluir, mas pretendo voltar a vida de Sanga em breve. Faz MUITA diferença a prática de Sanga para a prática individual. Sofro os efeitos disto assim como um atleta que percebe que treinar junto de outros atletas lhe apruma o treino.


BZ: Já pensou em criar algo no seu trabalho mesmo? 

IS: Temos um projeto de trazer a prática de meditação para gestantes internadas... Mas ainda depende de aprovação por parte da administração do hospital.

 

BZ: O que mudou no seu cotidiano depois que tornou-se discípulo leigo e praticante de uma comunidade zen budista?

IS: Com certeza muito em minha vida mudou com a entrada do Budismo em meu cotidiano. Existe uma gritante diferença entre ser uma pessoa introspectiva e ser uma pessoa tranquila. Existe uma gritante diferença entre ser uma pessoa neurótica e ser uma pessoa alerta. Eu sempre fui tido como alguém tranquilo, intelectual e “bem resolvido” mas eu sempre fui um introvertido. Se não exteriorizava meus medos e rancores não era “mérito” nenhum, mas falta de opção. Guardava dentro de mim, vivia sob o julgo das culpas neuróticas, assim como qualquer um. Hoje sou muito mais tranquilo e menos preocupado. Mas sou muito mais atento e percebo (tanto em mim quanto nas pessoas de meus convívios) as sutis linhas que ligam as ações e as consequências. Parei de me punir por coisas que eu não podia ser menos influente e passei a me antecipar de cometer erros recorrentes. Trabalho em um ambiente (UTI) onde a morte e a vida espreitam diariamente e percebo que existem coisas que estão fora do nosso alcance. Não confundo erro com falha. Às vezes fazemos escolhas que foram boas tentativas, às vezes elas acertam. Mas errar de propósito ou me punir pelo que não é como eu gostaria... não obrigado. Busco SIMPLIFICAR minha vida e passar esta maneira de viver para meus filhos. Estou mudando o mundo a partir daqui de Porto Alegre, de dentro de minha casa. A prática Budista é viver este momento. É agora.

BZ: Em seu blog você costuma divulgar artigos sobre o ateísmo. É ateu?

IS: De fato sou ateu, por isto, volta e meia sou questionado como uma pessoa que se diz ateu pode professar uma religião??? Então me sinto obrigado a esclarecer. A questão é que percebi, em minha vida que “apesar” de “Deus” ser uma invenção humana (é o que acredito, deus é um processo/resposta psíquica constituído diante de questões do imponderável, a resposta gatilho para questões que não teem resposta. O documentário de Robert Winston, “A História de Deus”, baseado no livro “The Story of God” do mesmo autor, demonstra exatamente como eu percebo esta questão) existem inúmeras questões que ficam sem uma “resposta” adequada no secularismo ocidental. Estas questões tem no budismo um arcabouço de práticas e vivências que são muito mais adequadas. 

O budismo nos instrumentaliza para observar nossa natureza, nossas dimensões psíquicas, físicas, nossas dimensões sociais e éticas. Nos traz de volta para a realidade de uma forma simples e direta, e nos conecta com toda a experiência presente a nossa volta. Nos ajuda a perceber os sutis caminhos que unem todas as coisas. Nos desafia a avaliar-nos continuamente os aspectos de nossas escolhas (o que é a “fala correta” hoje pode não ser a mesma coisa amanhã.). Mas principalmente, nos ajuda a lidar com nossas escolhas e consequências. Nos ajuda a NÃO CULTIVAR CULPA, mas sim a mudarmos o que prejudica a nós e aos outros. Qualquer prática filosófica que substitui a culpa punitiva pela mudança edificadora já é uma grande prática.
Então, assim como defendo o direito de ser ateu também defendo o direito a fé (no meu caso de apostar na prática desta fé). Mas não sou proselitista. É bom as pessoas perceberem que ateístas são apenas isto: ateus. Sem a necessidade de fazer uma passeata por causa disto. Não vamos nos unir e derrubar templos ou prédios. Nem precisamos queimar livros. A grande diferença é que quando alguém pisa no nosso pé não pensamos que é por castigo divino.

BZ: Você costuma lembrar que seu nome é "Islan", mesmo. Seu nome influenciou na sua opção por ser ateu? 

IS: Não, na verdade foi a soma de muitos outros fatores. Entre os quais minha formação cultural e exposição a diversas religiões (desde cedo convivi com o candomblé, espiritismo e cristianismo católico em casa...) Comecei a perceber que estas, assim como as demais religiões do mundo, tratam as demais como MITO e a si mesmas como verdadeiras. 

O budismo lembra que toda natureza parece estar elaborada em um processo de causa e efeitos. Para mim parece lógico que uma entidade (mesmo que crie algo espetacular como um mundo ou realidade) precisa de causas e condições para existir...Então teremos algo anterior a esta entidade. Alias as mitologias gregas, hindús entre outras, já falavam disto: Sempre existe uma algo antes. O Deus é sempre resultado de um antes que mudou. Melhor dizendo "Deus" é uma explicação para elaborar coisas que as pessoa não conseguem realmente entender. Mas a medida que se instrumentalizam e desvendam passa a ser "NATURAL".


BZ: Acha que ateus, em geral, sentem-se mais confortáveis no meio budista pelo fato de não se falar em Deus?

IS: Eu me senti assim. Acredito que outros também poderão sentir o mesmo. O Taoismo também traz esta configuração, em certo aspecto, mas acredito que o Budismo e sua prática foi mais eficiente, sobre tudo no que diz respeito a minha experiência de vida. Posso dizer que uma posição definida de afirmativa da não existência de Deus no Budismo teria me posto impedimentos também. É a abertura de possibilidade de vivenciar por mim, sem respostas prontas que me trouxe cada vez mais para dentro do Zen e do Budismo.


BZ: O que encontrou no budismo que não encontrou em outras praticas?

IS: Um espelho que reflete o universo.

1 comentário:

Félix Maranganha disse...

Islan consegue ser mais poético que eu em muitas coisas.