17 julho, 2012

Entrevista Dalai Lama

Selecções do Reader`s Digest – O seu assistente disse-nos que é «semivegetariano». Como é que se pode ser «semivegetariano»?

Dalai Lama – (Riso.) No princípio dos anos de 1960, tornei-me vegetariano, e durante quase dois anos fui vegetariano em sentido estrito. Mas depois contraí hepatite, e o meu corpo tornou-se amarelo – os olhos, as unhas, tudo ficou amarelo. Tornei-me, de facto, a imagem viva de Buda, mas por razões de doença, não de espiritualidade. Foi por isso que voltei à minha antiga dieta, e durante uns tempos era vegetariano um dia e não vegetariano outro. Desde o ano passado, a minha cozinha é totalmente vegetariana. Mas isso não significa que seja um vegetariano completo, porque quando visito locais diferentes e o hotel me põe carne sobre a mesa, eu como. Ocasionalmente, como comida não-vegetariana. O resto do tempo, vegetariana. Ajuda-me a diminuir o tamanho da barriga.

SRD – Acorda todos os dias às 3 da madrugada e gasta três horas diárias em meditação. Se não tiver tempo para meditar, fica irritadiço?
DL –Irritadiço? Sim, se tiver uma série de dias trabalhosos seguidos e durante vários meses. Mas também quando tenho encontros com gente que não se comporta com seriedade. Mas estou sempre ansioso por visitar novos lugares e conhecer novas gentes.

SRD – Como monge, que experiências pensa ter perdido que as pessoas comuns têm?
DL – Perdi com toda a evidência estes trabalhos (aponta para a virilha e ri).
SRD – E lamenta?
DL – Não. Para monges e freiras, a prática do celibato não é uma mera regra. O nosso objectivo principal é tentar reduzir as emoções negativas. O desejo sexual e a relação sexual são agradáveis, mas são também pontos de partida para a ira, o ódio e o ciúme. Os monges fazem abstinência e as suas vestes são sóbrias. Estas práticas não são apenas para obter paz de espírito, mas em prol da Moksha, da libertação.


SRD – A intolerância religiosa parece ser hoje em dia uma das principais fontes da violência no Mundo. Que fazer para reduzi-la?
DL – Tenho quatro sugestões. A primeira, são encontros de estudiosos para debater as distinções e as semelhanças entre religiões. A segunda, encontros entre praticantes de religiões diferentes. Este intercâmbio de experiências espirituais é muito útil à compreensão do valor de outras tradições. A terceira é fazer peregrinações a diferentes lugares sagrados. Visitei já Jerusalém, Lourdes, no Sul de França, e Fátima, em Portugal. E aqui, na Índia, visito igrejas, sinagogas, mesquitas e templos hindus e jains. Não acredito em Deus, não acredito num Criador, mas tenho respeito.
Por exemplo, há uns anos, um grupo de católicos ingleses veio à Índia, a Bodh Gaya (a cidade onde o Buda foi iluminado), para participar num seminário. Todas as manhãs, sob a árvore Bodhi, irmãos e irmãs cristãos e budistas, e muçulmanos e hindus e jains reuniam-se em meditação silenciosa. Todos com fés diferentes, mas todos em busca de paz interior e tentando serem seres humanos bons.
A minha quarta sugestão é a realização de conferências como a de Assis, onde líderes religiosos de diferentes credos se reúnem e falam com uma plataforma comum.
Quanto aos fundamentalistas... penso que uma das causas principais da sua intolerância é o seu isolamento. Quando estávamos no Tibete, muitos budistas tibetanos e eu incluído pensávamos que o budismo era melhor. Mas depois de conhecer outras gentes, o meu sentimento é que devemos respeitar as outras religiões. Tentar convertê-las é contraproducente e gera muitos problemas.
Já vemos que, porque há muitos hindus, muitos sikhs e muitos jains na Índia, a atitude dos muçulmanos indianos para com outras religiões é muito mais aberta que a dos muçulmanos árabes, que se encontram isolados. Mais contacto com tradições diferentes ajuda a mitigar esta atitude de extremo fundamentalismo.

SRD – Considera que os líderes religiosos de hoje partilham um espírito de ecumenismo?
DL – Sim, a maioria dos líderes religiosos respeitam o pluralismo. Mas há muitos anos, em Paris, um padre católico tentou realmente converter-me ao cristianismo. Impossível! (Risos.)

Entrevista completa.

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