07 setembro, 2011

O Zen e a Arte de Faxinar

Eu poderia estar marchando, mas estou faxinando meu apartamento. Certo, eu não estaria marchando, não com a chuva persistente que martela os telhados lá fora. Fosse pela prioridade imediata, eu deveria estar estudando para minha prova de amanhã. Entretanto, meu apartamento estava uma tragédia por conta de sucessivas semanas de cabelos arrancados e embates com meu trabalho de conclusão da especialização, e eu, alérgico a poeira e pó de gato, não poderia protelar mais.
A faxina, antes de obrigação, é uma ferramenta de crescimento pessoal e um prazer. Um dos meus preceitos, utópicos e pessoais, e não necessariamente nesta ordem de prioridade, é reduzir. Trata-se de um aparente intransitivo, mas revela-se, mais de perto, um fértil transitivo. Reduzir é reduzir tudo.
Ao reduzir-se a cacalhada do entorno, deixa-se a porta aberta para a simplicidade e para a eficácia. Desta forma, um apartamento de dois quartos, habitado por um homem solteiro e uma gata cinza-e-branca, pode ser limpo em duas horas de trabalho focado. Duas míseras horas por semana, e isto inclui pequenas reformas. Duas horas a menos de televisão ou distrações bobas. E ainda sobram tantas outras horas para ver os amigos, ler alguns livros, e tocar violão.
Oscar Wilde dizia que “apenas a mente pode curar o corpo, assim como apenas o corpo pode curar a mente”, e estava, como no mais das vezes, certo, o fanfarrão irlandês e genial. Varrer uma calçada é um exercício que se reflete na mente, de onde se “varrem” as folhas secas, a poeira velha e os eventuais lixos que os transeuntes por ali deixam.
O conceito pode se expandir. Organizar o espaço onde se vive é uma função que se transfere quase integralmente para dentro da mente. Reposicionar os livros em uma prateleira corresponde diretamente a reposicionar as idéias dentro da cabeça. A beleza disso é que, podemos manter as idéias, mas, no mínimo, tiraremos a poeira de ao redor e de cima delas.
Acredito que uma pessoa deve ser capaz de cuidar adequadamente de tudo o que possui. Seja um carro, seja uma casa, seja qualquer objeto. Não expandirei este conceito para as relações, pois poderia resvalar facilmente para raposas mimimimi e saint-exupèrys diversos. Poupo minha reputação disso.
Restringir as posses ao que se tem condições de cuidar é uma atitude que nos permite evitar a sanha imposta pela sociedade de consumo. É mais fácil dizer quando temos uma base sólida para a decisão. O tamanho de nossos braços e a capacidade de nossas mãos é uma boa medida para definir o que devemos abraçar.
É utopia, entretanto, e há coisas demais em meu apartamento. Há dezenas de lembranças e papéis de que não sei me desfazer, e muito menos organizar. Porém, a utopia é uma meta, uma direção para a qual caminhar, e não uma sereia em busca da qual enlouquecer. O caminho do meio é perceber-se. “Saber o que quer o coração”, como cita uma amiga minha. Ou o cruel “Conhece-te a ti mesmo”, sentença de Sócrates que nos assombrará pela eternidade confusa de telas coloridas e ícones piscantes.
O chão está quase seco. Demora, pois a umidade do ar está alta. É hora de começar a pensar em passar a cera no piso.

2 comentários:

Sandra disse...

Adorei seu texto...E aprendi mais um tanto,o que me ajuda muito a organizar as idéias e razões pelo qual busco aprender no budismo mais de mim mesma(e a dominar aquele eu ansioso e radical as vezes).Aprendo em relação ao todo,aprendo sempre mais um pouco e amo o aprendizado a ser colocado em prática dia a dia,todo o tempo.Um grande abraço e obrigada pelo texto maravilhoso.

Jeane Dal Bo disse...

Olá Sandra. Obrigada. O texto é do Gilvan.