07 julho, 2011

Os Caminhos da Morte são os Caminhos da Vida.



Falo com frequência sobre morte, mas, raramente falo em um tipo de morte que poucos ou quase ninguém gosta de falar: suicídio. Parece que há uma combinação mundial em blindar esse assunto. Alguns dizem que não se pode falar, sobretudo na midia, para não incentivar já que os índices são altos. Nunca ouvi nenhum professor ou mestre falando sobre o assunto. Para quem acha que budistas não se suicidam é bom saber que antes de serem "budistas" (que é um rótulo) budistas também são pessoas e teem os mesmos impulsos e tendências que qualquer outra pessoa e com as quais já nasceram.

De certa forma não há como saber, nem como salvar ou impedir. Quem comete suicídio não manda avisar, sequer dá sinal ou aparenta. É uma das coisas mais difíceis de prever.

Logo se esquece um suicida por que pensa-se que, afinal a opção foi dele, mas ninguém sabe o que realmente se passa na mente da pessoa no momento que o ato acontece. Não há como saber se o próprio indivíduo sabe o que está fazendo.

Já me imaginei várias vezes morrendo por diversas formas. É uma pratica budista que se chama "Preparação para a Morte." Não é da tradição zen budista e nem sei se tem no zen uma prática assim, mas ajuda a ver-se em situações que podem acontecer e experimentar a dor, o sofrimento e o medo. Enfim todas as sensações sobre as quais fantasiamos e que sem o corpo físico cessarão.

A doutrina budista condena,sim, o ato de tirar a vida de outros seres e de si mesmo. Mas aceita o livre arbítrio, o direito da escola, que traz consequências como qualquer escolha. Resta saber se o suicida tem escolha ou se ele apenas repete um padrão que já executou outras vezes e sobre o qual não tem controle. Todavia acredito que em algum momento esse impulso vai cessar e ai há uma chance de o padrão não se repetir mais.

Nós todos convivemos com padrões. Alguns são nossos velhos conhecidos e outros estão soterrados sob montanhas de lixo mental. Não podemos e nem devemos condenar quem se suicida pois não sabemos se nós mesmos não temos esse padrão adormecido em nós. Não podemos julgar ninguém pois nós não nos conhecemos e não sabemos o que pode vir a tona da nossa mente. Deveríamos tomar sim medidas preventivas e vigilância atenta a nossos padrões para poder identificá-los antes que eles submerjam como um jato incontrolável e ai talvez não tenhamos tempo de reverter o processo. Isso não pode ser feito por ninguém a não ser por nós mesmos. Somos nós que temos que estar atentos a nossas ações, reações, impulsos, desejos, pensamentos...E sobretudo não devemos fazer pouco caso ou achar que damos conta de tudo. Quando houver sinal de perigo não tente apagar o fogo sozinho, ou seja, pedir ajuda, não é um ato de fraqueza. É um movimento saudável em favor de si mesmo.

Existem muitos motivos que levam ao suicídio: escapismo da realidade, inadequação ao meio e as pessoas, ao trabalho (o formato social), pressões por, bouling, solidão, vingar-se de alguém que o abandonou, medo de enfrentar situações, doenças mentais como esquizofenia. Portanto há suicidas que planejam minuciosamente sua morte e há aqueles que são arrastados por um impulso que lhes foge ao controle. Todos são dignos de compaixão não importa quais sejam os motivos que os levaram ao ato.

Os caminhos da morte são os mesmos caminhos da vida. Não há como separá-los. Não há caminho mais fácil ou mais difícil. Deixar o caminho da vida é apenas um atalho para começar novamente o caminho interrompido pela morte. A morte não cessa a vida e a vida não cessa a morte.

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