03 junho, 2010

Se alguém te atormente não olhe.

Algumas pessoas por não se renderem a algum grupo, uma tribo, por não serem populares, não se enquadrarem num padrão, cada vez mais perverso, são facilmente vítimas de bullying ou assédio psicológico. Seja na escola, seja no trabalho, a vida para quem não se encaixa em padrões pode ser uma eterna tortura.

Eu nunca me encaixei e sofri por isso. Ao longo da infância, adolescencia e parte da vida adulta. Mas o que eu lembro é que não dava muita bola quando me davam apelidos medonhos na escola. Acho que o que é mais difícil de assimilar é, quando as pessoas que vc. espera que te amem incondicionalmente, só vejam defeitos em vc.

Até pouco tempo ainda me incomodava quando alguém falava:"Mas, ela é quieta,né!" Não me incomoda mais. Levo mais tempo para confiar em alguém. Ao contrário da maioria das pessoas que tão logo encontram alguém já parecem amigos de infância. Eu só vou fundo se houver uma base segura. É outra maneira de conduzir a vida. Não me garante milhares de amigos, nem popularidade. Mas é o que eu dou conta de ser.
E isso só acontece aqui no Brasil. Pois não me lembro de ouvir nada parecido em outros lugares onde estive. As pessoas respeitam seus limites. Nós não aceitamos alguém que não seja extrovertido. Essa é a nossa cultura.

No Zen aprende-se a testar a si mesmo, investigar padrões. Nas minhas investigações descobri que se há algo ou alguém que me incomode posso anular sua ação apenas não olhando para a pessoa ou para o objeto que me perturba. Somos muito dependentes do olhar. Com o olhar nos comunicamos, mas com ele também registramos o que acontece em nosso cotidiano.

Se saísse nua na rua e não olhasse para ninguém não sentiria vergonha. Por que o que nos limita é o olhar do outro, a censura, os sinais que nos mandam através do olhar. Então se vc. não olha tudo a sua volta some. Se alguém te molesta e vc. não olha pra ele essa pessoa desaparece. Deixa de existir.

Quando alguém vinha pra perto de mim na escola, pra zombar de mim ou falar nomes feios, eu sai do seu foco. O deixava falando sozinho e aplicava um castigo: "Não vou mais ver essa pessoa." Mas também nunca, nunca andava sozinha. Por que ficar sozinho na escola é ser alvo perfeito de alguém que no mínimo tem algum problema e aproveita pra descarregar naqueles que parecem mais frágeis.

Num retiro tradicional somos fortemente encorajados a não fazer contato físico ou visual com as pessoas do retiro. Por que? Porque perdemos o foco do retiro que é investigar a si mesmo. No mosteiro, no período de três anos de internato, os noviços ou noviças, ficam proibidos de falar entre si e devem olhar apenas para o chão.
Olhar para o chão os mantém focados no treinamento monástico. Deve ser muito duro ficar três anos em silêncio e sem contato, mas ao mesmo tempo deve ser uma experiência valiosa para aqueles que sobrevivem a ela.

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