28 junho, 2010

Agir de Acordo com a Situação.

E, enquanto irradiamos a nossa admirável luz interior,inconscientemente estamos a permitir que os outros façam o mesmo.
Nelson Mandela.

Um dos mais preciosos ensinamentos que aprendi com minha mestra foi "Agir de acordo com a situação."

É muito difícil agir de acordo com a situação pois ao fazê-lo percebemos o mecanismo do apego agindo como obstáculo. apego ao nosso modo de ser, de pensar, de ver e sobretudo nos perdemos de vez quando nossa atenção não está conosco. Quando nos deixamos levar por nosso desejo. A atenção é o elemento mais importante no processo.
A primeira vez que estive num retiro em PZC, logo percebi o quanto a atenção era importante, pois num retiro é ela que rege nossos movimentos. Mas num retiro não temos saída, ou seguimos a rotina ou caímos fora. Todavia, no dia a dia como manter a atenção plena sobre o que fazemos e dizemos?

Lendo um texto sobre o mestre da cozinha, aquele que faz a comida durante os retiros, conhecido como Tenzo, percebi que há uma maneira de manter a atenção por mais tempo e fora do retiro. O mestre da cozinha ensina que devemos fazer uma coisa de cada vez, de uma forma precisa e sem tirar o olho daquilo que estamos fazendo. No início enquanto treinamos a atenção, os movimentos podem ser bem lentos.
Eu já sabia disso pois já havia feito um treinamento semelhante que Mestra Heila nos ensinou. Vinte Passos para Despertar.

Agir de acordo com a situação requer não só atenção mas abrir mão do nosso modo de ser, ver, agir.

Por exemplo: Nós temos a cultura do contato. Quando encontramos alguém já vamos pegando na mão, beijando ou abraçando.

Já os orientais tem a cultura do não-contato. Dar a mão para cumprimentar é um dado que não existe na cultura oriental. Pelo menos nos países que tiverem pouco contato com a cultura ocidental. É mais comum para um japonês no meio corporativo, ao encontrar alguém oferecer seu cartão do que um aperto de mãos.

Então vc. vai no Japão e como vc. age de acordo com a situação ao encontrar com um japonês vc. estende a mão, dá beijo na face, tapinha nas costas? Não! Agir de acordo com a situação e se adaptar ao modo deles. No Japão qualquer contato é feito juntando palma com palma /\. Serve para tudo: "Oi, como vai, obrigado, tchau."

Nem precisa falar.

Então vc. vai na casa de alguém que te convidou para um jantar e não falou antes:"Eu sou vegetariano." Ai vc. chega lá e só tem carne. O que vc. faz? Diz que não come carne e frustra a pessoa que te convidou e preparou um banquete pra vc? Claro que não. Vc age de acordo com a situação e come o que tem para comer.

E por ai vai. Inúmeros exemplos de estar aberto a situação. Isso significa não-apego. Abro mão do que sou e quero, Abro mão do que gosto pela harmonia do todo.

O que mais fazemos é exatamete ao contrário: fincamos pé nos nossos hábitos: "gosto, não gosto, quero não quero, mas eu sou assim, esse é meu jeito, não vou mudar", e vivemos a causar imenso sofrimento a nós mesmos e a todos que encontramos.

Os Bodisatvas somente agem de acordo com a situação. Para um Bodisatva não há "meu,minha,eu" querer,não quero, gosto, não gosto".

Se precisa ser um mendigo pra ajudar um mendigo o Bodisatva vai lá e se faz de mendigo. Um Bodisatva protege, ajuda, se sacrifica pelo bem e pelo despertar de todos os seres. Qualquer um pode ser um Bodisatva.

25 junho, 2010

Natureza Buda

Natureza Buda é a natureza presente em todos os seres. Ela se manifesta quando há afinidade entre as pessoas. Quando há afinidade e prática. Prática é realização.


Monja Coen.


Cinco méritos em apontar a presença da natureza Buda:

1. O medo será removido e a pessoa ficará ansiosa para alcançar o despertar, sabendo que não é difícil de concretiza-lo.
2. A arrogância em relação a outros seres será removida, e a pessoa se tornará respeitosa em relação a todos, que são iguais aos Budas, assim como em relação ao mestre.
3. A ignorância, em relação ao absoluto e a sabedoria, será removida de nossas mentes, e a sabedoria do despertar completo surgirá.
4. Ao compreender a natureza dessa maneira, a pessoa acaba com os extremos do eternalismo e do niilismo, e a sabedoria da verdadeira natureza irá surgir.
5. O sentimento de importância do eu e o apego ao ego serão removidos, a pessoa verá eu e outros como iguais, e irá desenvolver grande amor por todos.

Longchenpa

24 junho, 2010

A Importância da Respiração Correta.


Para respirar bem, você deve exalar e inspirar completamente, tentando expelir cada átomo de ar impuro dos pulmões da mesma forma que faria se estivesse tirando água de um pano umido.


J.H. Pilates


A respiração é uma ação básica da vida, apesar disso, poucos lhe dão a devida importância. Todos nós sabemos que é preciso respirar melhor, que o ar deve ser mais puro, que fumar faz mal à saúde, e que devemos respirar quando estamos alterados. No entanto, ninguém nos ensinou qual a forma mais correta de respirar no dia-a-dia.

Os benefícios de uma boa respiração são múltiplos: ao inspirar e expirar de forma completa, usando a maior parte dos pulmões, oxigenamos melhor todo o corpo por meio do sangue, com isso, aumentamos a nutrição de cada parte do organismo.

Ao expulsar o ar viciado do fundo dos pulmões eliminamos toxinas e gases nocivos.

A respiração pulmonar representa apenas a respiração externa do corpo; a interna se produz quando cada célula absorve o dióxido de carbono, que é levado aos pulmões pelo sangue para ser eliminado.

Por outro lado, a respiração abdominal, no diafragma, ajuda todos os órgãos a funcionarem muito melhor.

Do ponto de vista psicológico, este tipo de respiração mais profunda (no diafragma), tem uma função de acalmar pois o cérebro recebe uma maior quantidade de oxigênio. Respirar mais fundo permite que tanto a mente quanto o corpo trabalhem com mais energia e calma.

A simples adoção da respiração correta, em qualquer prática física, pode acabar com dores na coluna provenientes do atrito dos discos da região lombar.

O principal músculo da respiração é o diafragma. Este se conecta com a coluna em diversos pontos, desde o topo até a base. Além disso, se conecta também com músculos, como os abdominais, órgãos internos, além de nervos, veias e artérias. Um diafragma inibido, que não funciona bem, pode afetar todos estes sistemas e causar danos diversos, como por exemplo dores nas costas. Uma respiração otimizada, mobiliza a coluna vertebral na região do tórax, que provoca a mobilização do sistema nervoso autônomo que, dentre tantas outras atividades, é responsável pela digestão, reprodução, sono e relaxamento.

Nesse vídeo tudo está explicadinho como usar o diafragma na respiração correta.

Ao respirar corretamente podemos mudar o estado mental no qual nos encontramos.

Texto editado e foto do livro de José Rodrigues: Pilates 101 Exercícios Passo a Passo.

21 junho, 2010

Vc. anda de mãos dadas com Mara?

Quem é Mara? Mara é tudo que existe. São nossos sonhos, nossas obsessões, nossas ilusões, nosso vida apegada ao passado, são nossas fantasias. É tudo que nos rouba do momento presente.

Quase sempre, quando decidimos dar outro rumo a nossa vida quem vem tentar nos desviar do caminho: Mara. Tentamos largar o vício de fumar, mas Mara nos convence a fumar só mais um antes de parar e nunca paramos de fumar mais um pra só depois parar.


Quando encontramos o Caminho, aquele que nos leva a um contanto com nossa verdadeira natureza, antes precisamos passar pela resistência que a mente, apegada aos hábitos e padrões aos quais estamos acostumados, nos impõe. Mara nos dirá:"Para que mudar? Para que ir nessa direção? Fique aqui onde não há nenhum risco. Está tudo bem assim."

Então vc. olha para Mara e diz:"Eu sei quem é vc." Só isso. Nada de discutir, brigar, se debater. Apenas isso.

Mas não esqueça que se Mara é tudo que existe, ele também é você.

Mara sempre sabe quais são nossos pontos fracos. Portanto se Mara sabe trate de saber também. Se sabe, fortaleça esses pontos vulneráveis.

Mara também pode ser entendido como "obstáculos" que surgem no nosso caminho e nos levam a desistir da prática, os obstáculos não são ruins. Eles testam nossa coragem em prosseguir e superá-los. Mara vem testar não atrapalhar. Será que estamos preparados? Será que aguentamos? Um bom praticante, sincero e determinado sempre será importunado por Mara pois ele não gosta que ninguém tente ser livre das amarras desse mundo, que ninguém conquiste o despertar e se liberte da escravidão do sofrimento. Pois o que alimenta Mara é justamente o sofrimento, o apego, o desejo por ter e ser. Mara é o oposto de Buda, mas Mara também pode despertar.

Chamar Mara não é aconselhável. Ignorá-lo também não. Estar atendo, manter-se firme, fortalecer o centro (hara) é suficiente.

Não chame Mara, vc. pode perder-se para sempre. Chame por todos os Budas e Bodhisatvas. Eles estão sempre conosco: presente, passado e futuro.

19 junho, 2010

Meditação Zen fortalece o Hara.

O homem com Hara não se desgasta. Quanto mais aprende a concentrar-se no Hara, mais e mais ele consegue extinguir as perturbações do corpo e da alma que se apoiam no fascínio pessoal e abrir caminho às forças regeneradoras essenciais.
“Ki” é a energia universal da qual participamos na essência. Deve-se aprender a senti-la no Hara e “permitir que flua”, diferentemente da força da vontade, que “se impõem”!
Sempre que se realiza um esforço físico com uma postura correta do Hara, isto é, com o “centro ligado”, todos os órgãos trabalham em função de um todo, ludicamente, com precisão e sem esforço. Quem não tem nenhuma postura do ego também não oferece nenhum alvo ao agressor.
O homem que possui Hara também consegue esperar. Ele tem paciência em todas as situações e sempre tem tempo. Pode sossegadamente observar e não tem de atacar imediatamente quando algo o desagrada.
O homem que tem Hara é sereno. O Hara tem assim um significado salutar para qualquer forma de “nervosismo”. É como se a paz entrasse no corpo. Trata-se de uma paz interior.
Pelo fato de não depender do julgamento do mundo, ele se entrega ao mundo sem se importar com a impressão que causa, pois sua auto consciência se fundamenta no Hara.
Todo verdadeiro poder aparece no final quando se deixa que as coisas aconteçam, isto é, quando se deixa aflorar o que se sabe. O poder, porém, é bloqueado, quando se acredita que se deve constante e obrigatoriamente demonstrá-lo. Todo nervosismo é expressão de um medo que domina o homem em situações que ele não consegue resolver. Com medo, o homem torna-se tenso e impede o fluxo do poder. Permitir que o poder se manifeste equivale a desapegar-se do ego que “controla”.
Em todas as falhas humanas e nas situações decisivas, existe algo em comum: a falta de uma serenidade confiante.

Karlfried Graf Dürckheim

18 junho, 2010

Meditando na Cozinha.

Comida e alma se dão bem. Cozinhar pode ser uma prática tão rica em significados e insighs quanto qualquer outra. Além de acalmar a mente. S. Hirsch, Meditando na Cozinha.

14 junho, 2010

Antes de querer ser um mestre, seja um Bodhisatva para todos os seres.

Há por ai algumas pessoas que se fazem passar por mestres. Às vezes por malandragem e outras por não saberem esperar o momento certo de ensinar.

Se um aluno estiver ensinando, fazendo entrevistas (dokusan), ensinando koans, ou fazendo palestras está pondo a carroça na frente dos bois.

Todavia há muitos "mestres" por ai fazendo retiros e dokusans sem treinamento e sem autorização. Pessoas com fome de serem reverenciadas,com a ilusão de estarem ajudando,de se sentirem especiais e que na intimidade de uma entrevista põem os pés pelas mãos, dizem bobagens para quem ingenuamente lhes confia a "alma", pessoas até desesperadas por um alento, um concelho, pessoas muitas vezes doentes que não tem condições de entender quando alguém lhes diz:"Vc. precisa morrer, ou vc. precisa matar o ego." Então essas pessoas entendem ao pé da letra e fazem o que esse pretenso mestre lhes diz. Santa ingenuidade. Como alguém pode ouvir tais frases e não achá-las insanas. Pois nenhum mestre as diria sem um contexto muito bem explicado e esclarecido.

E se essas coisas acontecem tanto, principalmente aqui no Brasil, é pq. nós também alimentamos um estilo de budismo que tem que falar, dar explicações, responder perguntas e dar palestras. Nossa cultura não suporta o silêncio e alimenta ou empurra as pessoas para uma direção para a qual não estão preparados para assumir.


"Mestres" assim só vão acumular carma e cadáveres nas costas. São como Zaratustra, que depois de meditar solitário numa caverna por 30 anos achou-se mestre e saiu a procura de discípulos. O que conseguiu? Um cadáver nas costas.


Antes de buscar ser um mestre seja um Bodhisatva para todos os seres. Pois sem treinamento de Bodhisatva ninguém pode ser mestre de ninguém.

Bodhisatva: É um ser de grande sabedoria, grande compaixão. Capaz de abrir mão de si para conduzir todos os seres ao despertar. Um Bodhisatva não tem "eu" "meu", apenas segue a situação e está livre para ser o que for necessário em cada momento.

09 junho, 2010

Viver o Momento.

Círculo Aberto

Um círculo saudável deve ser por natureza aberto. Deve abrir-se a qualquer um que venha e deixar-se abrir para quem quiser sair, quando quiser. O círculo não prende, não aprisiona, não se fecha em ideias lineares. O círculo tem suas regras internas. Elas precisam existir para que a harmonia exista. Se cada um faz o que quer e como quer não funciona. Ele simboliza Iluminação, Esforço, Elegância, o Universo e o Vazio. É também uma "expressão do momento". Tudo cabe no círculo assim como tudo cabe no Universo.

03 junho, 2010

Se alguém te atormente não olhe.

Algumas pessoas por não se renderem a algum grupo, uma tribo, por não serem populares, não se enquadrarem num padrão, cada vez mais perverso, são facilmente vítimas de bullying ou assédio psicológico. Seja na escola, seja no trabalho, a vida para quem não se encaixa em padrões pode ser uma eterna tortura.

Eu nunca me encaixei e sofri por isso. Ao longo da infância, adolescencia e parte da vida adulta. Mas o que eu lembro é que não dava muita bola quando me davam apelidos medonhos na escola. Acho que o que é mais difícil de assimilar é, quando as pessoas que vc. espera que te amem incondicionalmente, só vejam defeitos em vc.

Até pouco tempo ainda me incomodava quando alguém falava:"Mas, ela é quieta,né!" Não me incomoda mais. Levo mais tempo para confiar em alguém. Ao contrário da maioria das pessoas que tão logo encontram alguém já parecem amigos de infância. Eu só vou fundo se houver uma base segura. É outra maneira de conduzir a vida. Não me garante milhares de amigos, nem popularidade. Mas é o que eu dou conta de ser.
E isso só acontece aqui no Brasil. Pois não me lembro de ouvir nada parecido em outros lugares onde estive. As pessoas respeitam seus limites. Nós não aceitamos alguém que não seja extrovertido. Essa é a nossa cultura.

No Zen aprende-se a testar a si mesmo, investigar padrões. Nas minhas investigações descobri que se há algo ou alguém que me incomode posso anular sua ação apenas não olhando para a pessoa ou para o objeto que me perturba. Somos muito dependentes do olhar. Com o olhar nos comunicamos, mas com ele também registramos o que acontece em nosso cotidiano.

Se saísse nua na rua e não olhasse para ninguém não sentiria vergonha. Por que o que nos limita é o olhar do outro, a censura, os sinais que nos mandam através do olhar. Então se vc. não olha tudo a sua volta some. Se alguém te molesta e vc. não olha pra ele essa pessoa desaparece. Deixa de existir.

Quando alguém vinha pra perto de mim na escola, pra zombar de mim ou falar nomes feios, eu sai do seu foco. O deixava falando sozinho e aplicava um castigo: "Não vou mais ver essa pessoa." Mas também nunca, nunca andava sozinha. Por que ficar sozinho na escola é ser alvo perfeito de alguém que no mínimo tem algum problema e aproveita pra descarregar naqueles que parecem mais frágeis.

Num retiro tradicional somos fortemente encorajados a não fazer contato físico ou visual com as pessoas do retiro. Por que? Porque perdemos o foco do retiro que é investigar a si mesmo. No mosteiro, no período de três anos de internato, os noviços ou noviças, ficam proibidos de falar entre si e devem olhar apenas para o chão.
Olhar para o chão os mantém focados no treinamento monástico. Deve ser muito duro ficar três anos em silêncio e sem contato, mas ao mesmo tempo deve ser uma experiência valiosa para aqueles que sobrevivem a ela.