13 maio, 2009

O que Faço com meus Preceitos?











Você pode viver uma vida extraordinária, hoje!


Receber cinco preceitos significa que vc. está recebendo cinco tarefas.
Vc. vai olhar para elas com humildade e sinceramente se comprometer a pô-las em pratica. "Pôr em pratica" não significa se apegar, se aferrar, se prender nos preceitos como leis máximas, supremas, acima do seu arbítrio. Significa que no momento que uma situação aparecer vc. pode lançar mão deles. Não havendo a situação vc. os deixa quietos. Nem sempre vc. poderá fazer a escolha que parece a mais correta vista de fora. Veja, o preceito que diz para "Não matar", não significa exatamente o que diz. Melhor seria se o preceito se chamasse:"Salvar vidas!", pois é isso que está por trás de "Não matar". Então, às vezes se faz necessário matar para salvar vidas e outras vezes se faz necessário salvar "alguém ou algo" para impedir que muitas vidas sejam perdidas. Confuso? Sim, os preceitos carregam essa ambiguidade, por isso somente o tempo e maturidade da prática nos permitem ver o duplo sentido que eles tem. Se olhamos com rigidez certamente cometeremos erros e ficaremos apenas no plano do fanatismo. É preciso ir além.

Veja o preceito "Não roubar". Ele é muito amplo. Não se restringe a roubar coisas materiais. Quando fazemos alguém sofrer roubamos sua tranquilidade. Quando invejamos a boa situação alheia, roubamos a energia. Alias, roubar energia dos outros e das coisas é o que mais fazemos e ingenuamente, às vezes, nem nos damos conta que essa é uma forma de roubar tão danosa quanto roubar algo material.

Certa vez vi uma pessoa roubando um sapato numa loja de departamento. Fiquei chocada, mas a pessoa me viu e me encarou ameaçadoramente então tive que ficar na minha. Em outra oportunidade sabia que uma pessoa tinha costume de roubar e decidi dar um basta. Ficava no encalço da pessoa toda vez que entrava na loja e um dia pedi para deixar a bolsa e o carrinho do bebe na entrada da loja. A pessoa nunca mais apareceu. Se continua roubando em outras lojas não sei, mas quando a pessoa tem um vício é preciso ser firme. Nunca acusei. Apenas dei a entender que sabia.

Devemos deixar as pessoas se ferrarem ou devemos "salva-las"? É uma questão delicada que precisa ser estudada com carinho para não complicar mais as coisas.

O preceito de "Não mentir", também tem uma amplitude interessante. Conheci uma pessoa que seguia esse preceito ao pé da letra. Nunca mentia. Era uma tortura, pois certamente há coisas que são do seu foro intimo que vc. não precisa publicar no jornal. Vivendo em sociedade é praticamente impossível viver sem "dissimular", uma variante muito usada de "mentir". As pessoas esquecem-se que ao dissimular também mentem e com muito mais propriedade e convencimento que se simplesmente mentissem por maldade. Faz parte da nossa estratégia de sobrevivência em sociedade, dissimular. Mestre Seung Sahn que conviveu com várias culturas costumava dizer que um bom praticante é aquele que haje de acordo com a situação. Sinceridade em demasia traz transtornos, inimizades, tumulto e brigas tanto quanto ser maldoso e falar da vida alheia. Portanto é preciso ter o dom da dissimulação para viver bem e em paz com todos.

Todavia, novamente nos deparamos com o que é mais importante: Não mentir ou salvar vidas? Se para salvar alguém de cometer um mal maior, ou um sofrimento desnecessario ou que pode ser adiado, podemos omitir alguma informação.

Costuma-se usar o exemplo de um assaltante sendo perseguido pela polícia e ele entra na sua casa e pede para que vc. não o entregue. O que vc. faz quando a polícia aparece e lhe pergunta se vc. viu o cara? Vc. o entrega porque vc. não pode quebrar o preceito de não mentir ou vc. diz ao policial que ele foi na direção oposta? Se o assaltante for seu filho? Vc. o entrega para o bem dele ou vc. o protege?
Vc. está preparado para decidir? Não, ninguém está e o mais comum é agir de acordo com a emoção ou na pressão do momento.

O Preceito que diz para não usar substâncias que alterem nosso estado mental nos deixando confusos e nos colocando em situações nas quais poderíamos cometer algum mal a nós mesmos e a outros, pois não estaríamos 100% conscientes de nossos atos, é um dos mais fáceis de entender. Todavia ele não diz, "não use, nunca, não pode." A decisão é sua. Se fizer uso, faça de modo leve. Se beber não dirija se dirigir não beba. Sabemos que os excessos ao longo prazo levam as funções vitais a se deterioram e nossa condição de praticar pode ficar impossibilitada. Se nos entregamos ao vícios retornamos para uma condição semelhante a dos animais e isso é uma involução na nossa condição.

O preceito que diz para não fazer má uso da sexualidade também não é difícil de entender. Quando vemos tantos casos de pedofilia, de estupro, de pessoas vendendo sexo por vários meios, seja pessoalmente, em filmes, na internet como um meio de vida não devemos julgar essas pessoas, mas não devemos fazer parte desse tipo de situação. Pois causamos sofrimento às pessoas às quais forçamos a nos satisfazer, mesmo que em troca de dinheiro. A pessoa que está nessa situação nem sempre quer viver assim. Infelizmente há um comércio de pornografia que usa pessoas doentes e pessoas que precisam de dinheiro para obter lucro as custas de suas dificuldades.

Quanto ao preceito de não matar que abrange qualquer ser vivo, não vou comentar sobre a questão de comer ou não carne. Essa questão deve ser entendida por quem fizer sua opção seja de comer ou não carne. É claro que nosso hábito gera uma cadeia de sofrimento sem fim e se pudéssemos ao longo de nossa vida ir reduzindo esse hábito certamente geraríamos algum benefício ao universo. Mas a escolha é muito pessoal.

Quanto ao preceito de não fazer má uso do sexo, não se pode dizer se as pessoas que são homossexuais estão quebrando esse preceito. Não cabe a ninguém escolher a direção do desejo das pessoas. Mas se o homossexual se prostitui, ele obviamente gera sofrimento. Se se relaciona com seu companheiro como qualquer outro relacionamento, isso não pode ser condenável.

Olhando superficialmente, sem nenhum comentário, parece fácil pôr em prática, mas não é nada fácil, pois temos uma carga de padrões mentais muito forte que vamos formando desde muito cedo e padrões mentais que já trazemos de nossas vidas anteriores. O que precisa ser exercitado é o que cada preceito não nos revela e para isso o uso do bom senso se faz necessário. Aprendemos com as experiências no dia a dia. Errando, corrigindo, caindo, levantando, olhando com preconceito e aprendendo a olhar compassivamente para todos os seres como se olhássemos a nós mesmos no espelho.

Cuidar dos preceitos significa cuidar de si mesmo e de todos os seres. Cuidar dos preceitos não significa engessá-los, "isso não pode, assim não pode, está errado". Decidir quando e como usar e quando deixar ir é uma prerrogativa do livre arbítrio de cada um. Se houverem consequenciais às nossas escolhas elas aparecerão.

Uma última consideração. Não tome o conceito "salvar vidas" como uma missão. Nem tudo pede que seja salvo. E se vc. partir apenas do seu ponto de vista, achando que está salvando alguém ou algo, vc. pode gerar mais sofrimento. Esse "salvar" precisa também passar por muitos filtros.

Os preceitos básicos são dez. Os próximos cinco ficam para outro post. Este já ficou longo demais.

Qualquer dúvida, consulte seu professor.

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