27 maio, 2009

Tipos de Dificuldades.

O Buda disse, “As pessoas encontram vinte tipos de dificuldades.


É difícil dar quando se é pobre.
É difícil estudar o caminho quando se tem dinheiro e status.
É difícil abandonar a vida e enfrentar a certeza da morte.
É difícil encontrar os sutras budistas. Buda não contava com a Internet.
É difícil nascer quando um Buda está no mundo.
É difícil suportar a luxúria e o desejo.
É difícil ver coisas preciosas e não as desejar.
É difícil ser insultado e não se enfurecer.
É difícil ter poder e não abusar dele.
É difícil entrar em contato com as coisas e não ser afetado por elas.
É difícil ter um conhecimento vasto e investigar profundamente.
É difícil vencer o orgulho.
É difícil não menosprezar quem ainda não estudou.
É difícil manter a mente em equanimidade.
É difícil não falar dos outros e não dar opiniões.
É difícil encontrar um Mestre Bom e Sábio.
É difícil ver a própria natureza e estudar o Caminho.
É difícil ensinar as pessoas e conduzi-las à Iluminação de acordo com as suas capacidades.
É difícil ser o mestre de si mesmo perante todas as situações.
É difícil entender completamente os meios hábeis dos Budas.”

In: Sutra das 42 Sessões.

20 maio, 2009

Cuidado para não dar um tiro no próprio pé.

Muito tempo antes de conhecer o Caminho Zen e o Budismo tive um sonho e nele me encontrava em uma praia. Em minha direção vinha um senhor de terno preto e chapéu coco com um guarda-chuva que usava como bengala. Ele passou por mim e cumprimentou-me em alemão. Sentamos-nos na areia e lhe perguntei:

-Her Freud. O que significa a “morte do ego”? – Ao que ele respondeu, olhando para o mar.
- Porque isso é importante.
Acordei e essa questão ficou na minha mente. Tinha uma professora que havia clinicado como psicóloga e tão logo a vi fuzile-a com a mesma pergunta.

-O que significa a “morte do ego”?
-Procure no dicionário de psiquiatria. –Disse-me ela, livrando-se da pergunta.

Foi o que fiz. Nada encontrei e não satisfeita me dei ao trabalho de folhear toda a extensa obra de Frued a procura de algum sinal que respondesse a questão. Ainda não havia internet.

O tempo passou e esqueci-me do assunto até me deparar com o Zen. A pergunta voltou à tona na prática.

No início minha prática era para dissolver o sofrimento e logo percebi que estava buscando a extinção como uma forma de sair do mundo, uma forma de suicídio sem deixar o corpo físico. Não sabia o perigo que corria praticando assim.
Pois, se de fato, a extinção acontecesse eu certamente, não saberia como lidar com o evento. Certamente seria assustador.

Tive sorte de ter uma mente forte e aos poucos abandonar esse caminho e ver a prática com mais leveza. Tive mais sorte em encontrar um mestre que me puxou para o Caminho do Bodisattva e me trouxe à realidade de uma prática centrada, equilibrada e harmoniosa, sem riscos para mim e para quem convive comigo.

Talvez a “morte do ego” só aconteça com a extinção, mas o que é “extinção” do ponto de vista budista?
Em geral, equivocadamente, somos levados a acreditar que extinção significa morrer fisicamente e que é necessário matar o ego para tanto. Nem um nem outro tem a ver com a morte física. Talvez confundamos a iluminação com extinção.
Extinção “significa” o fim do ciclo de nascimento e morte. Ao iluminar-se completamente Buda extinguiu todo o sofrimento e viu a verdade que ele buscava. Naquele momento ele poderia ter ido embora pois já havia realizado o que buscava. Poderia deixar seu corpo e extinguir-se, mas ele preferiu ficar por compaixão a todos os seres e ensinar o que havia compreendido. Então ele adiou sua completa extinção para levar uma vida comum e humana. Viveu até os 80 anos e morreu como qualquer simples mortal poderia morrer. Mas ao deixar seu corpo físico ele não renasceria mais em outros corpos. Seria literalmente o que já era: a verdadeira natura. O universo infinito, sem começo nem fim.

Portanto aqueles que apostam que morrendo, ou praticando à exaustão, estarão livres do ego, do sofrimento, de problemas, que sumirão do mundo e estarão livres dele estão iludidos e podem ser levados a loucura ou ao suicídio. Assim, buscar esse tipo de morte é buscar mais carma para si e todos os seres. Se vc. morre nessas condições significa que o ego triunfou. Não terá adiantado nada lutar contra o ego, pois não é esse o propósito da prática. Ela não é para matar nada, muito menos o ego. Nem para lutar contra ele, nem para forçar contra sua natureza. A prática é para dissolver processos mentais e curar a mente levando-a ao encontro da verdadeira natureza.
Ela pode ser acessada a qualquer momento independente de ego, ou de iluminação. Ser independente significa poder ir e vir de/para sua verdadeira natureza quando quiser sem precisar morrer fisicamente. Esse é o sentido mais profundo da liberdade.

17 maio, 2009

Guru Jay.

Vi alguns vídeos com Jamie Oliver e depois dessa experiência minha mente ficou super atenta. Não sei por que, mas a maneira aparentemente frenética e ao mesmo tempo organizada que o Jamie se vale para preparar receitas me despertou em algum ponto a atenção. O site dele tem boas dicas e quem quiser segui-lo no twitter... O mais engraçado é que há vários imitadores de Jamie no YTube e todos são cômicos. Eles pecam exatamente porque não tem o treinamento que Jay (já somos íntimos) tem. Não tem nenhum dos vídeos novos disponíveis. Neste ai dublado em espanhol ele ensina a fazer massa de pizza.

13 maio, 2009

O que Faço com meus Preceitos?











Você pode viver uma vida extraordinária, hoje!


Receber cinco preceitos significa que vc. está recebendo cinco tarefas.
Vc. vai olhar para elas com humildade e sinceramente se comprometer a pô-las em pratica. "Pôr em pratica" não significa se apegar, se aferrar, se prender nos preceitos como leis máximas, supremas, acima do seu arbítrio. Significa que no momento que uma situação aparecer vc. pode lançar mão deles. Não havendo a situação vc. os deixa quietos. Nem sempre vc. poderá fazer a escolha que parece a mais correta vista de fora. Veja, o preceito que diz para "Não matar", não significa exatamente o que diz. Melhor seria se o preceito se chamasse:"Salvar vidas!", pois é isso que está por trás de "Não matar". Então, às vezes se faz necessário matar para salvar vidas e outras vezes se faz necessário salvar "alguém ou algo" para impedir que muitas vidas sejam perdidas. Confuso? Sim, os preceitos carregam essa ambiguidade, por isso somente o tempo e maturidade da prática nos permitem ver o duplo sentido que eles tem. Se olhamos com rigidez certamente cometeremos erros e ficaremos apenas no plano do fanatismo. É preciso ir além.

Veja o preceito "Não roubar". Ele é muito amplo. Não se restringe a roubar coisas materiais. Quando fazemos alguém sofrer roubamos sua tranquilidade. Quando invejamos a boa situação alheia, roubamos a energia. Alias, roubar energia dos outros e das coisas é o que mais fazemos e ingenuamente, às vezes, nem nos damos conta que essa é uma forma de roubar tão danosa quanto roubar algo material.

Certa vez vi uma pessoa roubando um sapato numa loja de departamento. Fiquei chocada, mas a pessoa me viu e me encarou ameaçadoramente então tive que ficar na minha. Em outra oportunidade sabia que uma pessoa tinha costume de roubar e decidi dar um basta. Ficava no encalço da pessoa toda vez que entrava na loja e um dia pedi para deixar a bolsa e o carrinho do bebe na entrada da loja. A pessoa nunca mais apareceu. Se continua roubando em outras lojas não sei, mas quando a pessoa tem um vício é preciso ser firme. Nunca acusei. Apenas dei a entender que sabia.

Devemos deixar as pessoas se ferrarem ou devemos "salva-las"? É uma questão delicada que precisa ser estudada com carinho para não complicar mais as coisas.

O preceito de "Não mentir", também tem uma amplitude interessante. Conheci uma pessoa que seguia esse preceito ao pé da letra. Nunca mentia. Era uma tortura, pois certamente há coisas que são do seu foro intimo que vc. não precisa publicar no jornal. Vivendo em sociedade é praticamente impossível viver sem "dissimular", uma variante muito usada de "mentir". As pessoas esquecem-se que ao dissimular também mentem e com muito mais propriedade e convencimento que se simplesmente mentissem por maldade. Faz parte da nossa estratégia de sobrevivência em sociedade, dissimular. Mestre Seung Sahn que conviveu com várias culturas costumava dizer que um bom praticante é aquele que haje de acordo com a situação. Sinceridade em demasia traz transtornos, inimizades, tumulto e brigas tanto quanto ser maldoso e falar da vida alheia. Portanto é preciso ter o dom da dissimulação para viver bem e em paz com todos.

Todavia, novamente nos deparamos com o que é mais importante: Não mentir ou salvar vidas? Se para salvar alguém de cometer um mal maior, ou um sofrimento desnecessario ou que pode ser adiado, podemos omitir alguma informação.

Costuma-se usar o exemplo de um assaltante sendo perseguido pela polícia e ele entra na sua casa e pede para que vc. não o entregue. O que vc. faz quando a polícia aparece e lhe pergunta se vc. viu o cara? Vc. o entrega porque vc. não pode quebrar o preceito de não mentir ou vc. diz ao policial que ele foi na direção oposta? Se o assaltante for seu filho? Vc. o entrega para o bem dele ou vc. o protege?
Vc. está preparado para decidir? Não, ninguém está e o mais comum é agir de acordo com a emoção ou na pressão do momento.

O Preceito que diz para não usar substâncias que alterem nosso estado mental nos deixando confusos e nos colocando em situações nas quais poderíamos cometer algum mal a nós mesmos e a outros, pois não estaríamos 100% conscientes de nossos atos, é um dos mais fáceis de entender. Todavia ele não diz, "não use, nunca, não pode." A decisão é sua. Se fizer uso, faça de modo leve. Se beber não dirija se dirigir não beba. Sabemos que os excessos ao longo prazo levam as funções vitais a se deterioram e nossa condição de praticar pode ficar impossibilitada. Se nos entregamos ao vícios retornamos para uma condição semelhante a dos animais e isso é uma involução na nossa condição.

O preceito que diz para não fazer má uso da sexualidade também não é difícil de entender. Quando vemos tantos casos de pedofilia, de estupro, de pessoas vendendo sexo por vários meios, seja pessoalmente, em filmes, na internet como um meio de vida não devemos julgar essas pessoas, mas não devemos fazer parte desse tipo de situação. Pois causamos sofrimento às pessoas às quais forçamos a nos satisfazer, mesmo que em troca de dinheiro. A pessoa que está nessa situação nem sempre quer viver assim. Infelizmente há um comércio de pornografia que usa pessoas doentes e pessoas que precisam de dinheiro para obter lucro as custas de suas dificuldades.

Quanto ao preceito de não matar que abrange qualquer ser vivo, não vou comentar sobre a questão de comer ou não carne. Essa questão deve ser entendida por quem fizer sua opção seja de comer ou não carne. É claro que nosso hábito gera uma cadeia de sofrimento sem fim e se pudéssemos ao longo de nossa vida ir reduzindo esse hábito certamente geraríamos algum benefício ao universo. Mas a escolha é muito pessoal.

Quanto ao preceito de não fazer má uso do sexo, não se pode dizer se as pessoas que são homossexuais estão quebrando esse preceito. Não cabe a ninguém escolher a direção do desejo das pessoas. Mas se o homossexual se prostitui, ele obviamente gera sofrimento. Se se relaciona com seu companheiro como qualquer outro relacionamento, isso não pode ser condenável.

Olhando superficialmente, sem nenhum comentário, parece fácil pôr em prática, mas não é nada fácil, pois temos uma carga de padrões mentais muito forte que vamos formando desde muito cedo e padrões mentais que já trazemos de nossas vidas anteriores. O que precisa ser exercitado é o que cada preceito não nos revela e para isso o uso do bom senso se faz necessário. Aprendemos com as experiências no dia a dia. Errando, corrigindo, caindo, levantando, olhando com preconceito e aprendendo a olhar compassivamente para todos os seres como se olhássemos a nós mesmos no espelho.

Cuidar dos preceitos significa cuidar de si mesmo e de todos os seres. Cuidar dos preceitos não significa engessá-los, "isso não pode, assim não pode, está errado". Decidir quando e como usar e quando deixar ir é uma prerrogativa do livre arbítrio de cada um. Se houverem consequenciais às nossas escolhas elas aparecerão.

Uma última consideração. Não tome o conceito "salvar vidas" como uma missão. Nem tudo pede que seja salvo. E se vc. partir apenas do seu ponto de vista, achando que está salvando alguém ou algo, vc. pode gerar mais sofrimento. Esse "salvar" precisa também passar por muitos filtros.

Os preceitos básicos são dez. Os próximos cinco ficam para outro post. Este já ficou longo demais.

Qualquer dúvida, consulte seu professor.

04 maio, 2009

O que é Isso?

Depois de nomear os pensamentos, que é uma estratégia muito útil no início da prática, passei a usar a pergunta:"O que é isso?" para qualquer coisa que surgisse na minha mente. Não apenas sentada em zazen, mas em qualquer momento que me lembrasse da pergunta. O que é isso? É como um estalar de dedos, uma campainha, um "Olha!" e vc. logo começa a se perceber no turbilhão de pensamentos e depois percebe que pode fazer escolhas. Simplesmente deixar seus pensamentos fluírem sem reprimi-los. Ou se se deixa levar pelo turbilhão. Não se torture por eles existirem e nem caia na armadilha de querer se livrar deles.


É aquela história dos cavalos puxando uma carroça. E vc. é o condutor. Se vc. mantém o controle sobre os cavalos (os hábitos dos desejos), eles vão para onde vc. quiser. Mas se vc. deixa as rédeas soltas. Eles vão para onde querem e cada um quer ir para um lugar diferente ao mesmo tempo. Assim sem atenção sobre os cavalos a carroça pode cair no precipício e vc. pode se ferir ou morrer. Mas se vc. tem as rédeas dos seus desejos, vc. pode deixar ir no ritmo certo. Nem para mais nos excessos, nem para menos, nas privações. Depende de vc. conduzir a si mesmo com maetria.

02 maio, 2009

A Arte da Imperfeição.

Wabi sabi é a expressão que os japoneses inventaram para definir a beleza que mora nas coisas imperfeitas e incompletas. O termo é quase que intraduzível. Na verdade, wabi sabi é um jeito de “ver” as coisas através de uma ótica de simplicidade, naturalidade e aceitação da realidade. É um conceito muito usado na confecção de cerâmicas.

Contam que o conceito surgiu por volta do século 15. Um jovem chamado Sen no Rikyu (1522-1591) queria aprender os complicados rituais da Cerimônia do Chá. E foi procurar o grande mestre Takeno Joo. Para testar o rapaz, o mestre mandou que ele varresse o jardim. Rikyu lançou-se ao trabalho feliz. Limpou o jardim até que não restasse nem uma folhinha fora do lugar. Ao terminar, examinou cuidadosamente o que tinha feito: o jardim perfeito, impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas caprichadamente ajeitadas. E então, antes de apresentar o resultado ao mestre Rikyu chacoalhou o tronco de uma cerejeira e fez caírem algumas flores que se espalharam displicentes pelo chão. Mestre Joo, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro. Rikyu virou um grande Mestre do Chá e desde então é reverenciado como aquele que entendeu a essência do conceito de wabi-sabi: a arte da imperfeição.

O que a historinha de Rikyu tem para nos ensinar é que a ação humana sobre o mundo deve ser tão delicada que não impeça a verdadeira natureza das coisas de se revelar. E a natureza das coisas é percorrer seu ciclo de nascimento, deslumbramento e morte. Efêmeras e frágeis. Eles enxergaram a beleza e a elegância que existe em tudo que é tocado pelo carinho do tempo. Um velho bule de chá, musgo cobrindo as pedras do caminho, a toalha amarelada da avó, a cadeira de madeira branqueada de chuva que espreguiça no jardim, uma única rosa solta no vaso, a maçaneta da porta nublada das mãos que deixou entrar e sair.


A Arte da Imperfeição é ver a vida com a tranquilidade de quem sabe que a busca da perfeição exaure nossas forças e corrói nossas pequenas alegrias.

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A Arte de Viver com as Imperfeições, Veronique Vienne, Publifolha
Wabi sabi: for artists, designers, poets and philosophers, Leonard Koren (em inglês)
The Wabi sabi house: the japanese art of imperfect beauty, de Robyn G. Lawrence
Living Wabi sabi: the true beauty of your life, Taro Gold

01 maio, 2009

Seja como um Leão.

O grande sabio Mencius percebeu que é natural que a boca deseje coisas doces, os olhos desejem cores belas,os ouvidos sons agradáveis, alfato fragâncias suaveis, e os quatro membros desejem descansar.

Buda disse que há dois tipos de praticantes: O primeiro está sempre em busca de alguma coisa. Eles querem algo da prática. Se suas mentes lhes mostram algo de que não gostam, eles querem sair fora. Se alguma coisa lhes agrada, eles querem seguir isso. Eles estão sempre tentando seguir o que gostam, talvez um bom sentimento, e concertar o que não gostam, como um problema em suas vidas. Isso parece como um cachorro perseguindo um osso. Ou vc. pode ser como um leão. Se vc. estiver na floresta e jogar um osso para um leão ele irá ignorar o osso e pular sobre você!

Mestre Zen Seung Sahn dizia, "Zen significa: Eu não quero nada."
Zen é muito simples. Se vc. ,mantém essa mente "Eu não quero nada." Então seu Grande Eu aparece naturalmente e e vc. pode ajudar o nosso mundo. Nossa Escola chama isso de "Apenas faça." "Não vigie."

Mestre Zen Dae Kwang