20 maio, 2009

Cuidado para não dar um tiro no próprio pé.

Muito tempo antes de conhecer o Caminho Zen e o Budismo tive um sonho e nele me encontrava em uma praia. Em minha direção vinha um senhor de terno preto e chapéu coco com um guarda-chuva que usava como bengala. Ele passou por mim e cumprimentou-me em alemão. Sentamos-nos na areia e lhe perguntei:

-Her Freud. O que significa a “morte do ego”? – Ao que ele respondeu, olhando para o mar.
- Porque isso é importante.
Acordei e essa questão ficou na minha mente. Tinha uma professora que havia clinicado como psicóloga e tão logo a vi fuzile-a com a mesma pergunta.

-O que significa a “morte do ego”?
-Procure no dicionário de psiquiatria. –Disse-me ela, livrando-se da pergunta.

Foi o que fiz. Nada encontrei e não satisfeita me dei ao trabalho de folhear toda a extensa obra de Frued a procura de algum sinal que respondesse a questão. Ainda não havia internet.

O tempo passou e esqueci-me do assunto até me deparar com o Zen. A pergunta voltou à tona na prática.

No início minha prática era para dissolver o sofrimento e logo percebi que estava buscando a extinção como uma forma de sair do mundo, uma forma de suicídio sem deixar o corpo físico. Não sabia o perigo que corria praticando assim.
Pois, se de fato, a extinção acontecesse eu certamente, não saberia como lidar com o evento. Certamente seria assustador.

Tive sorte de ter uma mente forte e aos poucos abandonar esse caminho e ver a prática com mais leveza. Tive mais sorte em encontrar um mestre que me puxou para o Caminho do Bodisattva e me trouxe à realidade de uma prática centrada, equilibrada e harmoniosa, sem riscos para mim e para quem convive comigo.

Talvez a “morte do ego” só aconteça com a extinção, mas o que é “extinção” do ponto de vista budista?
Em geral, equivocadamente, somos levados a acreditar que extinção significa morrer fisicamente e que é necessário matar o ego para tanto. Nem um nem outro tem a ver com a morte física. Talvez confundamos a iluminação com extinção.
Extinção “significa” o fim do ciclo de nascimento e morte. Ao iluminar-se completamente Buda extinguiu todo o sofrimento e viu a verdade que ele buscava. Naquele momento ele poderia ter ido embora pois já havia realizado o que buscava. Poderia deixar seu corpo e extinguir-se, mas ele preferiu ficar por compaixão a todos os seres e ensinar o que havia compreendido. Então ele adiou sua completa extinção para levar uma vida comum e humana. Viveu até os 80 anos e morreu como qualquer simples mortal poderia morrer. Mas ao deixar seu corpo físico ele não renasceria mais em outros corpos. Seria literalmente o que já era: a verdadeira natura. O universo infinito, sem começo nem fim.

Portanto aqueles que apostam que morrendo, ou praticando à exaustão, estarão livres do ego, do sofrimento, de problemas, que sumirão do mundo e estarão livres dele estão iludidos e podem ser levados a loucura ou ao suicídio. Assim, buscar esse tipo de morte é buscar mais carma para si e todos os seres. Se vc. morre nessas condições significa que o ego triunfou. Não terá adiantado nada lutar contra o ego, pois não é esse o propósito da prática. Ela não é para matar nada, muito menos o ego. Nem para lutar contra ele, nem para forçar contra sua natureza. A prática é para dissolver processos mentais e curar a mente levando-a ao encontro da verdadeira natureza.
Ela pode ser acessada a qualquer momento independente de ego, ou de iluminação. Ser independente significa poder ir e vir de/para sua verdadeira natureza quando quiser sem precisar morrer fisicamente. Esse é o sentido mais profundo da liberdade.

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