16 novembro, 2008

Verdades não Engessadas.

Li um artigo que dizia que o budismo é perigoso. De certa forma, não deixa de ser verdade, para qualquer religião. Quando mal interpretada, quando as práticas não tem o uso correto, na intensidade correta, sob orientação da pessoa certa para cada prática, e quando se beira ao fanatismo, qualquer filosofia barata pode ser avassaladora.

Considerando que grande parte das pessoas somente buscam algum "remédio espiritual" quando estão em alguma situação de perigo ou de sofrimento profundo, a chance de pegar o que estiver pela frente sem avaliar bem é muito grande. Não haverá esse tempo para experimentar, testar, considerar um e outro e descartar o que não serve.

O mais perigoso, entretanto, aos que não tem experiência suficiente, pode ser muito antes de chegar a algum templo ou mestre budista. Basta ler alguns livros (a vasta oferta de escritos online)e não saber como filtrar as informações ou não ter como esclarecer suas dúvidas e está feita a confusão. Vamos a um exemplo recorrente daqueles que apenas lêem, mas nunca tiveram contato com a prática budista.

Tomar as Quatro Nobres Verdades ao pé da letra, como de sorte qualquer escrito religioso tomado ao pé da letra leva a consequências imprevisíveis.

Uma das máximas diz:"A vida é sofrimento."

É natural que essa máxima choque pois nós buscamos o oposto.

Na verdade, há um erro de tradução da palavra "dukkha", ela significa muitas coisas, todavia traduzi-la como "aflição" ficaria melhor. Pois são as "aflições mentais" que geram sofrimento. E elas advém da nossa instabilidade. Do fato de não estarmos presentes nas nossas ações mais corriqueiras.

Se vc. está vivo tem aflições mais ou menos. Se não tem pode experimentar o contentamento, mas ele é facilmente roubado por uma mínima aflição. A mente é muito instável. Dai haverem métodos para treinar essa mente instável e levá-la a experimentar por mais tempo a estabilidade. O processo é para toda a vida.

"Ter o que vc. quer gera aflição e não ter o que vc. quer também."

O desejo é visto como o vilão de toda a história, mas Buda nunca disse para extinguir o desejo. O desejo quando bem direcionado é essencial. Mas é fato que aquele que não tem preferências ou pouco deseja pode ter mais satisfação e menos problemas do que aquele que muito quer e nada lhe satisfaz.

O que importa não é nem o muito ou o pouco, mas como vc. administra sua vida. Se vc. sabe como conduzir seu desejo, nenhum problema virá dele.

Quando Buda apresentou as Oito Etapas do Caminho do Meio. Etapas que se seguidas poderiam levar à dissolução das aflições ele não as fez pensando apenas no seus discípulos monásticos,que nem existiam até ali. Ele considerou que qualquer um que se dispusesse a seguir esse Caminho poderia, ao longo de sua vida,experimentar cada uma das etapas. Não significa que teriam que superar todas elas em uma única vida.

Uma explicação bem mais depurada do que consigo dar pode ser encontrada neste texto.


Verdades não são imutáveis. Até mesmo estas verdades são impermanentes, pois isso não devem ser engessadas.

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