23 junho, 2004

Tai chi chuan

Inspiro. Wu dji sz.
Senta na calma.
Os movimentos são golpes.
Expiro. Concentro-me na
almofada e o vermelho toma conta do olhar.
Lentamente,lan tcha ue.
Avanço à esquerda. "Olha o peso na
perna!", pipoca da lembrança a recomendação do mestre.
A delicadeza mal oculta a intenção no gesto.
Alisa a cauda do pássaro e, agora sim, shao po pipa.
Você é o chicote.
Não há treino que me prepare para as palavras.
Alheio, Átila entra, afia as garras no tapete e bebe
água da fonte artificial.
Tsui lo tchiao pu é o meu
movimento, mas nada no gato que se espreguiça lembra a
"postura do ataque do felino".
Átila é irônico por
natureza. Tento conter a inquietação.
A violência é maior quanto menos se vê.
Nas palavras, por exemplo.
No desejo.
Tii shao can szi e a garça abre as suas
asas devagar.
Átila corre. Ele sabe que a garça
enfrenta o nada calculando milimetricamente o golpe
lento. Os dedos levemente entreabertos, o pulso
quebrado no ângulo certo, e a tensão se traveste de
sutileza.
San shao pipa, corda esticada de violão
chinês. Pés sempre firmes no chão e resto flutuando
com as memórias.
Transformo em gestos precisos a minha
violência cinza, mas você é o chicote.
Estalam no pensamento as suas palavras mais belas, as mais
exatas.
Explodem em vermelho as que jamais serão
ditas. Pan lan tchiao ue e assim estilizo o gesto de
agarrar a cauda do pássaro que não está mais ali. A
mão desliza à frente no gesto de defesa. "Dá o passo!
Olha o ângulo do pé", grita o mestre do passado. Presa
à serenidade em movimento, continuo lutando
vagarosamente contra o que não existe. Wu dji tze.
Fecho a forma. O silêncio é o supremo último golpe.

Ponto Final

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