18 maio, 2004

Dúvida

Para que a fé esteja assentada na experiência, deve ser também suficientemente aberta para incluir a dúvida.

Se usamos a fé para afastar a dúvida construímos uma muralha defensiva que mantém fora quaisquer perguntas perturbadoras, evitando o reconhecimento dos nossos medos e incertezas. A amplitude da fé nos permite conviver com tudo o que possa surgir, investigando a própria natureza da dúvida e quaisquer outras que apareçam.
Abraçando habilmente a dúvida, fortalecemos a fé.

A dúvida é o difícil estado mental da perplexidade. É como estar numa encruzilhada e não saber que caminho seguir. Vamos de um lado para outro, entre alternativas e, depois, ficamos paralisados pela confusão e indecisão. Quando a dúvida é esmagadora, não podemos nos mover. Ela não nos dá nem mesmo a oportunidade de virar para o lado errado e aprender com nossos equívocos.

Quase todas as tradições falam da dificuldade desse estado e de como ele é comum em nosso caminho em diferentes ocasiões. A dúvida pode assumir muitas formas.
Algumas vezes é dúvida sobre nós mesmos, sobre nossa capacidade de praticar e seguir pelo caminho. É a voz que diz ? Não posso fazer isso. É difícil demais. Talvez em alguma outra ocasião.? Talvez seja dúvida sobre nossos mestres quando começamos a ver as suas falhas e limitações. Pode ser sobre nosso caminho. ?Que benefício pode trazer ficar sentado observando minha respiração? (ou qualquer outra prática em que estejamos empenhados). Na verdade isso é inútil.?

A dúvida é muito sedutora, porque vem mascarada de sabedoria. Ouvimos dentro de nossas mentes essas vozes, que soam sabias, tentando resolver os dilemas, dificuldades e paradoxos da nossa experiência por meio de pensamentos respeitadores. Mas pensar pode levar-nos apenas até determinado ponto. É como tentar conhecer a experiência da música lendo um livro sobre ela ou saber de uma boa refeição, olhando para o cardápio.Precisamos de alguma outra maneira para entender a natureza da dúvida. Para podermos enfrentar de forma apropriada as preocupações que ela nos causa.

O primeiro passo é reconhecer que a mente incerta está presente e, reconhecendo isso, familiarizarmo-nos com suas várias vozes. Se tivéssemos consciência dessas vozes como fitas gravadas mentais, apenas outros pensamentos na mente, é menos provável sermos seduzidos por seus conteúdo. Nesse momento, tiramos seu poder: ?Não posso fazer isso? torna-se apenas um pensamento. Podemos então fazer valer a sabedoria no próprio processo da dúvida, notando como ela nos afasta da experiência direta do momento.

Joseph Goldstein.[Dharma- O Caminho da Libertação, Bertrand, 60-1]

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