24 janeiro, 2004

Neste preciso tempo, neste preciso lugar

No princípio era o Verbo
(e os açucares e os aminoácidos)
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3ro andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!

Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais enespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia,
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviazado
olhar da ironia?

Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença.

Manoel Antônio Pina, Poeta português contemporâneo
[in: Folha de SP, Mais! 08/05/03]

Sem comentários: