29 novembro, 2003

O que é Religião?

O sentido original do termo "religião", é interessante: vem do latim
religare que significa "reatar, unir o homem e os deuses". Re quer
dizer de novo, ligare é atar, ligar, unir.
O que estamos unindo? Antes de mais nada, unimo-nos a nós mesmos,
porque mesmo em nosso íntimo estamos separados, e unimo-nos aos
outros; enfim, a todas as coisas, as sensíveis e as insensíveis.
Unimos os outros a eles mesmos. Tudo que não estiver unido é nossa
responsabilidade. Mas, a maior parte do tempo, nossa tarefa é nos
unirmos a nossos companheiros, a nosso trabalho, a nossos parceiros,
filhos e amigos; depois, é nos unirmos a Sri Lanka, ao México, e a
todas as coisas do mundo, ao universo.
Isso parece uma beleza! No entanto, na realidade, não é sempre que
vemos a vida assim. Qualquer prática religiosa verdadeira consiste em
retomar a visão do que já existe: é enxergar a unidade fundamental de
todas as coisas, é ver nossa verdadeira face. É remover a barreira
entre nós, outrem e as coisas: é remover ou enxergar através da
natureza dos obstáculos.

Enquanto não nos sentirmos abertos e amorosos, nossa
prática está bem ali, esperando por nós. Uma vez que
na maior parte do tempo não nos sentimos abertos e
amorosos, devemos praticar de modo meticuloso o tempo
todo. Essa é a vida religiosa: essa é a "religião",
embora não precisemos usar essa palavra. Trata-se da
reconciliação das pessoas e de suas noções
separatistas; trata-se da reconciliação de nossos
pontos de vista a respeito de como as coisas deveriam
ser, como as pessoas deveriam se comportar, trata-se
da reconciliação de nossos receios. A reconciliação de
tudo que é a experiência -do quê? de Deus? Daquilo que
simplesmente é. A vida religiosa é um processo
incessante de reconciliação, de um segundo a outro.
Cada vez que atravessamos essa barreira, algo muda
dentro de nós. Com o tempo, vamos ficando cada vez
menos separados. Isso, porém, não é fácil, porque
desejamos ficar dependentes daquilo que nos é
familiar: estarmos separados, sermos superiores ou
inferiores, sermos "alguém" diante do mundo. Um dos
aspectos distintivos de uma prática séria é o estado
de alerta e de reconhecimento para os momentos de
separação. No exato instante que tivermos mesmo que
seja uma fugaz noção de estar julgando outra pessoa, a
luz vermelha da prática se acende e podemos
percebê-la.

Charlotte Joko Back [Nada Especial. Vivendo Zen]

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