08 agosto, 2003

Perdão

O amor perfeito significa amar aquele por meio de quem tornamo-nos infelizes.

Soeren Kierkengaard

Quem é a pessoa que você não consegue perdoar?

Cada um de nós tem uma lista que pode incluir nós mesmos ( em geral, os mais difíceis de perdoar) e também acontecimentos, instituições e grupos.

Não é natural que nos devamos sentir assim por causa de uma pessoa ou um acontecimento que nos feriu- de maneira talvez grave e irreparável?

Do ponto de vista comum, a resposta é sim. Do ponto de vista do zen, a resposta é não. Precisamos formular o seguinte voto: irei perdoar, mesmo que custe praticar a vida inteira. Por que uma declaração tão forte?

A qualidade de toda a nossa vida está em jogo.
Deixar de perceber a importância do perdão é sempre parte de um relacionamento falho e um fator em nossa ansiedade, em nossas depressões,
em nossos males, em todos os nossos problemas.

Nossa incapacidade de conhecer o contentamento é um reflexo direto de nossa incapacidade de perdoar.

Então por que apenas não o fazemos? Se fosse fácil, seríamos todos budas realizados. Mas não é fácil. Não tem proveito nenhum dizer:

-Devo perdoar. Eu devo. Eu devo. Eu devo...

Esses pensamentos desesperados ajudam muito pouco. Análises e esforços intelectuais podem produzir um certo abrandamento da
rigidez do não-perdão. Mas o perdão genuíno, completo, está em outro plano.

O não perdão está alicerçado em nossos pensamentos habituais centrados em nossa própria pessoa.
Quando acreditamos neles, são como uma gota de veneno em nosso copo de água.
A primeira e monumental tarefa consiste em rotular e observar esses pensamentos até que o veneno possa evaporar.

Então o trabalho maior pode ser efetuado. O vivenciar ativo,como sensação física corporal, do resíduo da raíva no corpo,sem nenhum apego aos pensamentos autocentrados. A transformação em perdão, que está intimamente relacionado com a compaixão,
pode ocorrer porque o mundo dualista da pequena mente e seus pensamentos foi abandonado pelo vivenciar não-dual, não-pessoal, que é a única maneira de sairmos de nosso buraco infernal do não-perdão.

Só a nítida constatação da necessidade crítica de uma espécie de prática como essa pode capacitar-nos a realizá-la com força e determinação ao longo de muitos anos. A prática madura sabe que não existe nenhuma outra escolha.

Então, quem é que você não consegue perdoar?

Charlotte Joko Beck [Nada Especial: Vivendo Zen, Saraiva]



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