19 junho, 2003

As Três Peneiras

Há muitos séculos atrás, num mosteiro budista, após a cerimônia noturna, o Monge
Abade se retira
para o seu merecido descanso e enquanto tomava calmamente o seu chá, à luz de apenas
uma lamparina
de óleo. Fazendo entreabrir a porta de correr, feita apenas de madeira e papel de
arroz, entra um
dos monges instrutores do templo, reverenciando profundamente o mestre.

Indagado pelo Abade sobre o motivo de sua visita a essas altas horas da noite, o
monge lhe diz que o
motivo de sua visita é contar ao mestre sobre alguns comentários que estão correndo
no templo sobre
um outro mestre instrutor.

O Venerável Abade, então, lhe diz em sua profunda sabedoria:

- Calma! Antes de me contares algo que ouviste sobre outra pessoa, gostaria de lhe
perguntar: Já
fizeste passar essa informação pelas Três Peneiras da Sabedoria?

- Peneiras da Sabedoria, Venerável Mestre? Espanta-se o monge.

- Sim, as Três Peneiras da Sabedoria. Tudo o que ouvires falar sobre os outros, deve
passar pelas
Três Peneiras da Sabedoria, antes de ser retido, acreditado e repassado. Ouça com
atenção e me
responda: Tens absoluta certeza de que o que te contaram é realmente verdade?

- Não, não tenho certeza Venerável Mestre. Apenas sei o que me contaram. – Disse
meio sem jeito o
monge.

- Então, se não tens certeza, a informação já vazou pelos furos da primeira peneira
que é a da
profunda investigação da Verdade. Agora ela repousa sobre a segunda peneira, e por
isso eu lhe
pergunto: - O que tens a me dizer é algo que gostaria que dissessem sobre ti?

- De maneira alguma, Mestre! É claro que não! Diz o monge.

- Então tua estória acaba de passar pelos furos da segunda peneira que é a da
compaixão, pois nunca
deverias dizer ou fazer a alguém aquilo que não quisesses que fizessem ou dissessem
de ti. Agora,
tua estória repousa sobre a terceira e última peneira, e por isso lhe faço a última
pergunta: -
Achas que me contando essa estória sobre o seu irmão e companheiro de mosteiro, ela
será útil a ele
de alguma maneira?

- Não, Mestre, - respondeu já ruborizado o monge -. Refletindo profundamente, sob a
Luz da
Sabedoria, vejo que nada de útil poderia surgir dessas estórias e boatos.

- Então, essa estória acaba de vazar pela terceira peneira, para dissolver-se na
terra. Nada restou
para contar. E assim, lembra-te sempre que devemos ser como as abelhas que mesmo no
mais imundo dos
pântanos, buscam sempre as flores para delas retirar o doce néctar e nunca como as
moscas que mesmo
em um corpo sadio, buscam as feridas para delas se alimentar.


(Tradição Budista)

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