30 maio, 2003

Experimentando nossa indelicadeza

O que significa experimentar minha própria indelicadeza?
Primeiro, uma observação
impessoal e sem julgamentos de meus pensamentos indelicados é necessária –
sem nenhuma análise, apenas atenção pura.
Segundo, devo experimentar diretamente a tensão corporal que é o espelho
exato de meu pensamento separador, meu medo.
Neste experimentar, neste samadhi de não-pensamento,
eu sou os outros e a gentileza é a minha verdadeira natureza.
Mais e mais eu vejo meus próprios pensamentos indelicados
como o sonho que são (e vejo também que meus ideais
são os filhos deste sonho).
Nesta prática ou zazen, nossa experiência do que nossa vida é devagar clareia,
e mais e mais sua expressão natural é a gentileza e a compaixão.
Fácil? Nem um pouco. Achamos difícil de fato nos afastar de nosso falso
desejo por um ideal (sempre envolvendo julgamento sobre nós e os outros)
e praticar com a experiência direta de nossa vida neste exato momento.
Mas em nome de nossos votos de fidelidade a toda a vida, apenas fazemos,
pacientemente e com determinação.

Charlote Joko Back
Tradução para o português de
Emerson Zamprogno

25 maio, 2003

We are like one who in the midst of water cries out desperately in thirst.
We are like the son of a rich man who wandered away among the poor.

Realizing the form of no-form as form, whether going

or returning we cannot be any place else. Realizing the thought of no-thought as thought, whether singing or dancing, we are the voice of the Dharma.

How vast and wide the unobstructed sky of samádhi! How bright and clear the perfect moonlight of the Fourfold Wisdom! At this moment what more need we seek? As the eternal tranquility of Truth reveals itself to us, this very place is the land of Lotuses and this very body is the body of the Buddha.

Somos como quem, no meio da água, grita desesperadamente de sede. Somos como o filho do rico que se meteu entre os pobres. Ao percebermos a forma da nao-forma como forma, tanto indo quanto vindo, não poderemos estar em nenhum outro lugar. Percebendo o pensamento do não-pensamento como pensamento, tanto cantando quanto dançando, somos a voz do Dharma. Como é vasto e aberto o céu desbloqueado do samadhi! Como e' luminoso e claro o luar perfeito da Sabedoria Quadrupla! Neste momento qual é outra necessidade que buscamos? Conforme a tranqüilidade eterna da Verdade se nos revela, este exato lugar é a terra dos Lotus e este exato corpo é o corpo de Buda.

Tradução [ Emerson Zamprogno]

24 maio, 2003

THE CIRCLE HAS NO ENDS


The circle has no ends.
It doesn't end.
It is whole, complete.
The circle differs from so many things as we usually see them.
When we understand everything as being linear, the endlessness of the circle disappears from our conscious mind. Life becomes something that starts and stops, and we start concentrate on worrying about a long life, a happy life. We think so much about it that we forget to relax and observe the beauty of our surroundings. We fail to understand what will really bring the happiness to our lives. And we get narrow minded.
But nothing is lost; we are still able to see the cycle, and to even understand it.
When we do so we realize the endless love and peace that life brings us. We can see the continuing circle of life, and all worries and distress vanish like dew in the early sun.
And the most exciting is that it only takes one little step to experience all of this.
Do not try to bend the spoon itself; instead, only realize: there is no spoon.
Become conscious that you are alive and start appreciating it.

Jeppe



Como fazer seu coração crescer

Se você pôe uma quantidade de sujeira em um recipiente pequeno de água, então aquela água tem que ser jogada fora, as pessoas não a podem beber. Mas se você lança aquela quantidade de sujeira em um rio enorme, as pessoas na cidade continuam bebendo do rio, porque o rio é tão imenso. Elas não tem que sofrer por causa daquela quantia de sujeira. Durante a noite aquela sujeira será transformada pela água, pela lama no coração do rio. Assim se seu coração é grande como o rio, você pode receber qualquer quantia de injustiça e ainda pode viver com felicidade, e pode transformar as injustiças infligidas a você durante a noite. Se você ainda sofre, significa que seu coração ainda não é bastante grande. Este é o ensinamento da paciência no Budismo. Você não tenta agüentar, você não reprime seu sofrimento. Você apenas pratica para que seu coração se expanda tão amplamente quanto um rio. Então não tem que agüentar, você não tem que sofrer.

Há modos de fazer seu coração crescer. Esta é a prática de olhar profundamente para que vocês entendam. No momento em que vocês entendem, sua compaixão surge. E esta compaixão lhes permitirão ir em frente, lhes permitem não sofrer, não olhar outras pessoas com olhos de irritação e ódio. Esta é a real prática da paciência - você não tem que sofrer. Paciência no contexto do ensino budista é não tentar engolir a injustiça, ou suprimir a injustiça, mas abraçá-la completamente com seu grande coração. Assim todas as manhãs vocês tem que ir aos seus corações, tocá-los, e perguntar-lhes, "Meu coração, meu querido, você durante a noite tornou-se um pouco maior?" Nós temos que visitar nosso coração diariamente para ver se nosso coração ainda continua crescendo ilimitadamente, tornando-se grande. "Tornar-se grande" é o termo usado por Buddha enquanto ele estava ensinando sobre as quatro mentes imensuráveis. Seu coração de compaixão fica maior. Torna-se grande todo o tempo, seu coração de generosidade amorosa, seu coração de alegria, seu coração de equanimidade. [...] "o ponto mais alto, o limite ". É um extremo, este é o limite. Mas como nossa compaixão, nossa generosidade amorosa, nossa alegria, nossa equanimidade conhece nenhum limite? - eis por que estas quatro mentes são chamadas "mentes imensuráveis", porque elas sempre crescem e crescem, sem parar. Elas crescem como um rio, e então elas crescem como um oceano, e continuam. Quanto mais seu coração fica maior, mais facilmente você pode agüentar, ou aceitar, injustiças sem sofrer.

Thich Nhat Hanh [Transcendendo A Injustiça: A História de Quan Am Thi Kinh]




20 maio, 2003

Prática Verdadeira

“É com alegria e satisfação que leio sobre seus esforços e confusão. E não é por eu ter prazer
com seu sofrimento, mas porque eu sinto que agora vc. verdadeiramente começou a praticar.
E me entusiama saber que vc. está caminhando em direção à liberdade, começando a investigar
o viver o dia a dia, neste mundo, na realidade , com outras pessoas, com suas emoções, conceitos
e medos.
Em minha própria experiência houve um tempo, no início da minha prática, onde eu estava motivada para ler e pensar sobre tudo isso até começar a viver a teoria na prática, quando a vida começou
a parecer mais difícil que antes de eu ter encontrado o Dharma, onde nada parecia fazer mais muito sentido e eu me senti perdida, ferida e inexperiente. Mas se vc. continuar a praticar e confiar em si mesma, no ensinamento e na sua professora então vc. sairá desse momento difícil mais forte depois.”



Eu gostaria de compartilhar com vcs. algo que me inspira e pode ser útil:

“No passado, vc. plantou uma semente que agora resultou em seu encontro com o Budismo.
Não apenas isto- alguns pessoas vem para praticar meditação, e apenas uma, dentre todas permanece e
continua a praticar seriamente.
Quando vc. pratica o Zen seriamente, vc. está dissolvendo o carma que prende vc. à ignorância.
Em japonês a palavra “serio” significa “aquecer o coração”
Se vc. aquece seu coração, esse carma, que é como um bloco de gelo se derrete e se torna líquido.
E se vc. continua a aquece-lo, ele se torna vapor e some no espaço. Aquelas pessoas que praticam
irão dissolver seus sofrimentos e apegos. Por quê elas praticam? Porque é seu carma praticar.

Seung Sahn

18 maio, 2003

Prática Moderna

Estávamos praticando e lá pelas tantas toca o celular.
Minha colega de prática, sem cerimonia, pega o celular e
atende. Segue falando e eu sigo meditando.
Depois que ela desliga faço gasshô e digo: "Ah, Mestra Heila..."
Começamos a rir...
Coisas do mundo moderno.

Hoje fizemos um mini retiro manhã à tarde.
Estava precisando de mais prática. Antes eu tinha tempo para praticar
e praticava mais intensamente. Agora quase não tenho tempo para prática formal,
então estou pondo em pratica a prática no dia a dia.
Tenho grande oportunidade de praticar onde estou.
Me assustou um pouco no início, mas já estou me adaptando.

Na sexta fomos à palestra com Lama Chagdud Khadro
de Três Coroas.
A Lama Khadro retorna à ilha depois de três anos.
Lembro que ela foi meu primeiro contato com o mundo budista real.
Não havia nenhum grupo praticando zen aqui e sem opção fui ver como era.
Fiz iniciação em Tara Vermelha com a Lama e depois sigui apenas fazendo as
prostrações e continuei com a meditação no estilo zen.
Depois simplifiquei as prostrações, até descobrir como elas eram feitas no zen.

Ela falou sobre como preparar a consciência para o momento antes e depois da morte.
Que antes da morte de seu mestre e consorte C.T. Rimpoche ele viajou por
vários países dando ensinamentos sobre a morte, mas tudo que ela ensinou era baseado nos
livros, até então ela nunca havia tido nenhuma experiência concreta com ninguém próximo.
Então a primeira perda, justo de um grande mestre, foi muito inesperada.
Falou de mais algumas coisas como: que não se deve mexer no morto por um determinado
tempo após a morte, até que a consciência saia do corpo.
Entre outros rituais próprios da tradição tibetana.

14 maio, 2003

A Arte do Improviso



“Sei o que estou fazendo aqui: estou improvisando. Mas que mal tem isso?”

No improviso somos como crianças aprendendo a andar: engatinhamos, levantamos,
caímos, ficamos com medo de tentar de novo, mas a curiosidade supera o medo damos
mais um passo. Depois que conquistamos o mundo na vertical não estamos livres de quedas,
de tropeços, de obstáculos. Tudo está no caminho para ensinar.
Só não podemos esquecer de continuar a improvisar. Improvisar é a
arte de não levar a vida demasiado a serio, de usar de bom senso,
de bom humor, de serenidade.

“[...]E depois saberei como pintar e escrever.

O que eu te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa.
Ouve o silêncio.


Clarice Lispector [Água Viva]

11 maio, 2003

When life leaves you hanging...
Quando a vida te deixar pendurado...

DON'T QUIT

NÃO DESISTA

Anything can happen.
Tudo pode acontecer

Bend, don't break.
Dobre-se, não se quebre.

Challenge your potential.
Desafie o teu pontencial.

Destiny is a choice.
O destino é uma escolha.

Effort creates opportunities.
O esforço cria oportunidades.

Follow your intuition.
Siga sua intuição.

Get back up and try again.
Volte atrás e tente de novo.

Hold on to your vision.
Mantenha seus planos.

Impress yourself.
Impressione-se.

Just dig a little deeper.
Cave um pouquinho mais fundo.

Keep knocking on doors.
Continue a bater nas portas.

Learn from mistakes.
Aprenda com os erros.

Motivate with compassion.
Motive-se com compaixão.

Nothing worthwhile comes easy.
Nada que valha a pena vem fácil.

Own a positive attitude.
Tenha uma atitude positiva.

Problems hold messages.
Os problemas trazem mensagens.

Question what's not working.
Pergunte o que não funciona.

Regroup when you need to.
Reagrupe quando precisar.

Stand up for your principles.
Finque o pé pelos seus princípios.

Think outside the box.
Pense fora da caixa.

Unite perseverance with resolve.
Una perserverança com resolução.

Value knowing when to walk away.
Saiba quando é preciso se afastar

Work smarter, not just harder.
Trabalhe mais eficientemente, não apenas mais.

Xhaust all possibilities.
Esgote as possibilidades.

You can, if you think you can.
Você consegue se achar que consegue.

Zzzz's, take naps as needed.
Zzzzz's, tire tantas sonecas qto. precisar.

Tradução de Emerson Zamprogno

Onde ir?

We don’t have to go anywhere, it’s all here all the
time.
Nós não temos que ir a lugar algum, tudo está aqui o
tempo todo.

Rodney Downey Abbot [ in Shuza Newslatter. Summer’ 03,p.2]




Felicidade é passar o dia caminhando na praia, em Santo Antônio de Lisboa, sentar sobre as árvores, comer e conversar com amigos não budistas. Amigos que não ficam observando se vc. está seguindo os preceitos, se vc. está praticando conforme a cartilha do Buda. Simplesmente te deixam ser sem saber. Isto é praticar sem fazer nada. É praticar sem praticar, uma dádiva que os budistas acabam esquecendo, devido ao apego, eles
esquecem de simplesmente ser sem ser nada.
Em meio a budistas acabamos perdendo a naturalidade de ser sem ser nada.
Por isso decidi mudar de foco e olhar para outros lados, voltar a me misturar no meio da multidão.
A diversidade, não o budismo, sempre me ensinou tudo que sei: ser paciente, tolerante, honesta, sincera..
Já cheguei no budismo com boa parte da lição adiantada, mas como tudo que aprendemos e não temos oportunidade de exercitar, se perde e ou se esquece. Esqueci. Um dia vem a tempestade e já não sabemos mais o se gostávamos de sair na chuva ou se corríamos dela.
Sempre fomos felizes, apenas esquecemos... estou me empenhando em lembrar de não me esquecer sem fazer disso uma doença.

08 maio, 2003

I shall tell you a great secret, my friend.
Do not wait for the last judgement, it takes place every day.


Eu preciso te contar um grande segredo, meu amigo.
Não espere pelo próximo julgamento, ele acontece todo dia.

[Albert Camus]

07 maio, 2003

Festival do Vesak 2003

O Vesak é o momento em que a comunidade budista se reune para comemorar
o nascimento, a iluminção e a morte do Buda Shakyamuni.

Este ano, na sua segunda edição, o Vesak será no SESC Pompéia em SP, dias 9 e 10 de maio. A programação já está disponível.

04 maio, 2003

Eson e Eloíza me deram uma flor de lotus feita com conchinhas.
Sonhei que estava em um jardim cheio de flores de lotus em laguinhos.
Coloquei a flor de conchinhas no oratório.
Praticamento tudo que está no oratório é o que as pessoas
trazem ou me dão de presente.

03 maio, 2003

Removendo Camadas

Lembro de uma história que li no livro do Jack Kornfield.
Depois do Êxtase: Lavar a Roupa,

em que ele conta a história de uma princesa que foi prometida a um príncipe em casamento quando ambos eram bebês. O príncipe cresceu e por obra de um encantamento foi transformado em um dragão. Como promessa é divida, os pais fizeram o casamento se realizar, mas a princesa estava infeliz por ter que aceitar a imposição dos pais: casar-se com um dragão cheio de escamas e horripilante. Então uma fada veio até ela e ensinou-lhe como se comportar com seu marido depois do casamento, na noite de núpcias.

Ela aconselhou à princesa a vestir varias camadas de roupa sob o vestido de noiva e quando chegasse a hora H, ela diria para o príncipe que só seria sua esposa naquela noite se ele concordasse com uma coisa.

Então o casamento se realizou e quando os dois princesa e dragão já estavam no quarto, a princesa disse-lhe: Agora vc. deve fazer tudo que eu disser exatamente como eu fizer e depois quando tivermos acabado eu serei sua esposa.

O dragão concordou e ela disse: Agora, a cada camada de roupa que eu tirar vc. deve tirar uma camada sua também.
A princesa tirou uma camada de suas roupas e o dragão, mesmo sentindo muita dor, tirou as escamas de sua pele.
Mais uma camada de roupas da princesa e o dragão, retirou a pele, e depois mais uma camada de pele e assim, por mais que isso lhe custasse e lhe doesse profundamente, ele retirou todas as camadas, até que por fim sob a última camada estava o príncipe, então livre do encantamento, ambos puderam realizar suas núpcias.

Então por mais doloroso que seja, lá no fundo está a nossa verdadeira natureza e creio ser esse nosso esforço: remover as camadas da nossa mente. Isso pode levar uma vida, ou muitas outras, e não começa com a nossa morte física, mas com a morte do nosso ego doente ( o encantamento), que libertará assim o ego saudável ( o príncipe) para que possamos ser felizes nesse exato momento ( para sempre).
Isso pode parecer um conto de fadas, mas se começamos a trabalhar ( praticar) agora o tornaremos cada vez mais possível.


01 maio, 2003

Eson, visitante do Mosteiro está aqui em casa.

Ele trouxe um livro: Nada Especial: Vivendo Zen. Charllote Joko Beck, que já comecei a ler.

“Leva muito tempo até conseguirmos enxergar nosso sistema de defesa e manipulação da vida em nossas atividades diárias. A prática ajuda-nos a enxergar tais manobras com mais clareza e essas constatações sempre são desagradáveis. Ainda assim, é fundamental que vejamos o que estamos fazendo. Quanto mais tempo praticarmos, mais prontamente poderemos reconhecer nossos padrões de defesa. O processo nunca é fácil
ou indolor, porém, e aqueles que estão esperando encontrar um lugar fácil e rápido para descasar não deverão embarcar nessa viagem.” p.16