27 abril, 2003

A lógica não poupa nem os peixinhos no rio

Disse Chuang:

"Veja como os peixes pulam e correm tão livremente:
isto é a sua felicidade".

Respondeu Hui:

"Desde que você não é um peixe,como sabe o que torna
os peixes felizes?"

Chuang respondeu:

"Desde que você não é eu,como é possível que saiba
que eu não sei o que torna os peixes felizes?"
Hui argumentou:

"Se eu, não sendo você,não posso saber o que você sabe,
daí se conclui que você,não sendo peixe,
não pode saber o que eles sabem".

Disse Chuang:

"Um momento:
Vamos retornar à pergunta primitiva.
O que você me perguntou foi:

"Como você sabe o que torna os peixes felizes?’
Dos termos da pergunta você sabe evidentemente que eu sei
o que torna os peixes felizes."

"Conheço as alegrias dos peixes no rio
através de minha própria alegria,
à medida que vou caminhando
à beira do mesmo rio".



Chuang Tzu e Hui Tzu [Atravessavam o rio Hao
pelo açude, enviado por Francisco Vitar]


Um peixinho puxa o outro...

Atirei um limão n'água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n'água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão n'água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n'água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n'água
mas perdi a direção
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão n'água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n'água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
é dor de quem muito amou.

Atirei um limão n'água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n'água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n'água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n'água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n'água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n'água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh'alma dolorida.

Atirei um limão n'água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n'água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n'água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão n'água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado para trás.

Atirei um limão n'água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
Você não ama: tortura.

Atirei um limão n'água
e caí n'água também
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão n'água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.


Carlos Drummond de Andrade [Lira do amor romântico ou a eterna repetição]

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