23 abril, 2003

A História de Akisa Gotami

Há muito tempo, houve uma mulher que teve a sorte de viver na época do Buda, chamada Akisa Gotami.
Ela nunca havia experimentado qualquer grande sofrimento na vida, até que seu filho pequeno, enquanto brincava no jardim, foi subtamente picado por uma serpente venenosa, morrendo sem que nada pudesse ser feito.
Completamente desesperada e em estado de choque, aquela jovem mãe pegou o seu filho recém-morto nos braços e se pôs a vagar pelas ruas da cidade. Perambulando dia e noite, como um fantasma, em busca de alguém que pudesse salvá-lo do “sono profundo que o havia acometido, e do qual não podia mais acordar...”
Rapidamente ela se tornou uma figura conhecida e patética, pois com o passar dos dias e a franca decomposição o cadáver que apertava contra o peito, deixava todos os habitantes da cidade num misto de dó, asco e pavor. A todos que encontrasse pelo caminho, ela apresentava o cadáver e perguntava: “Por favor, vc. conhece algum remédio que possa fazer acordar meu filho? Acometido deste estranho e profundo sono, ela não consegue mais acordar...”
Mas ninguém sabia como curar da morte... este mistério impenetrável aos homens.

Entretanto, um belo dia, Akisa Gotami cruzou com um monge que mendigava pelas ruas da cidade e fez-lhe aquela mesma inquirição e ladainha horripilante. Compadecido com o que viu e ouviu, o monge asseverou:
“Minha cara senhora, infelizmente eu não conheço nenhum remédio capaz de curar o seu pequeno bebê. Mas sei de alguém que certamente conhece!”
O rosto de Akisa brilhou, como a lua cheia em alta madrugada, quando ouviu tais palavras. “enfim a cura para meu filho! Que maravilha!”, pensou consigo. Depois de atentamente ouvir do monge que deveria ir ao bosque de Jatavana e procurar por aquele a quem todos chamavam de “Buda”, saiu a mulher em disparada, sem parar para descasar nem olhar para trás, até que se viu diante do tal homem. Tensa e nervosa, cheia de expectativa, contou-lhe tudo o que havia acontecido, mais uma vez refazendo sua súplica. Tendo ouvido, observado e ponderado sobre o que se passava, o Buda fez brotar do seu profundo silêncio as seguintes palavras: “Minha cara, o remédio de que necessitas é, na verdade, muito simples... “ “Oh, por Brahma, diga-me como posso obtê-lo e assim o farei!”, interrompeu a pobre ansiosa por ver o filho prontamente recuperado. “Basta trazer-me uma semente de mostarda...”, falou o Buda.
“Sim, providenciarei imediatamente, senhor, pois tal semente é abundante por todo esse lugarejo”
“Eu sei, mas há uma condição a ser cumprida para que o remédio surta efeito...”, disse o Buda ternamente, olhando fundo nos olhos da jovem mulher. “Cumprirei qualquer condição senhor, basta mo dizer, eu lhe imploro...”, voltou a suplicar a mulher. Então, o Buda sentenciou que a semente de mostarda deveria vir de um lar que jamais houvesse sido visitado pela morte.

Repleta de esperança, de casa em casa, ela clamava por apenas uma pequena semente. Quase todas as moradias possuíam dezenas de sementes de mostarda, e podia-se obter até mesmo um bom punhado delas muito facilmente.
Contudo, quando ela perguntava se aquele lar já havia ou não sido visitado pela morte, a resposta era sempre a mesma, “Oh, lamento... sinto muito, desculpe-me, mas a morte passou por aqui recentemente. Foi quando perdi fulano, ciclano ou beltrano...” E, em cada casa em que batia à porta, a jovem mãe ouvia as estórias mais dolorosas sobre mães e pais que haviam falecido, avós que haviam morrido das formas mais estúpidas e gratuitas. Foi uma sucessão de lágrimas, choros, malogros, sofrimentos e saudades de corações cruelmente marcados pela visita enesperada da morte. Uma procissão de lamentações foi desfilando e se avolumando tanto diante dos olhos e ouvidos dela que, de repente, seu coração não pôde mais suportar e saltou um poderoso grito...
Naquele exato instante, ela voltou a si e, arregalando bem os olhos, fitou o corpo que trazia em seus braços.
Finamente, ela reconheceu a face da morte e derramou as últimas lágrimas de despedida que se haviam aprisionado em sua consciência. Então, ela levou o corpo até bem perto das margens do rio, próximo de uma grande e sinuosa curva e ali o sepultou para sempre, erguendo-se para a vida que prosseguia à sua frente. No seu sembante, havia agora um brilho sereno e claro, como a luz de um alvorecer. Tendo percebido a sutil sabedoria e habilidade do homem que lhe havia pedido aquela única semente de mostarda, ela tomou o rumo do bosque que há poucos dias tinha deixado para trás. Dizem que esta mulher, mais tarde, alcançou a completa sanidade. E eu acredito, pois até agora sua história ainda é lembrada.

Equipe Bodigaya [ Revista Bodigaya, Ano 5, n. 14, p.5-6]

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