26 abril, 2003

Entrevista com Monja Coen

Como o zen tranformou a sua vida?

Coen: Além de despojar um pouco por fora, despojou por dentro, das preocupações superficiais. Comecei a me preocupar com a essência das coisas, com a melhor qualidade de vida, com a fome, com a pobleza, com a desigualdade- não houve como não me envolver com esses assuntos. A dor do outro é a minha dor, não existe um isolamento. O jornalismo foi o primeiro passo para essa descoberta. Como repórter, entrei em contato com a realidade global. Saí do meu pequeno mundo e meus valores todos se modificaram. O Zen veio corroar esse processo de desenvolvimento.

Como foi a relação com os seus mestres budistas?

Coen: Você tem que ter uma confiança absoluta, pois entrega ao mestre seus corpo e sua alma. Com a abadessa Shundo Aoyama Rôshi, que me orientou no Japão, essa entrega demorou anos. Mas, ao longo desse período, fui recebendo dela uma paciência infinita, de repetir todo dia, inúmeras vezes, que eu deveria ser como a água, flexível. E eu era dura como um tronco.

Como essa energia atua no mundo?

Coen: Precisamos encontrá-la. Isso acontece sentando, como fazemos no zazen. Mas esse sentar-se não significa isolar-se do mundo. Quando a gente supera a superficialidade da mente, as nossas particularidades, chegamos àquilo que o psicanalista Carl Jung chamava de inconsciente coletivo e penetramos nessa coletividade. É por isso que Buda falava do controle da propria mente.. eu controlo meus pensamentos. Se fulano me faz algum mal, enquanto estou meditando desejo que aconteçam com ele coisas boas. Em vez de imaginar crimes, procuro visualizar o assassino largando a arma. Acredito que isso mude o mundo.

É preciso abrir mão do mundo terreno para vivenciar o Budismo?

Coen: Na verdade, você tem que abrir mão dos próprios conceitos e da maneira como se relaciona com esse mundo para viver de um modo muito melhor. O Budismo é um caminho. Aos poucos, você vai perceber no outro a angústia e aprenderá a ser, para ele, o elemento que ajuda, o elemento da paz verdadeira- não no sentido de paz como ausência de guerra, mas o que a gente chama de cultura da paz.

O que é essa cultura da paz?

Coen: Quando uma pessoa me xinga em vez de xingar de volta, qual é a outra opção? Posso compreender que essa pessoa está nervosa. Não significa, porém, que eu vá ficar contente por ela estar me xingando. Num primeiro estágio, é perceber que isso me fere. Depois, é perguntar por que está me ofendendo. E, então, dizer à pessoa: “Isso me ofende tanto.” Você vai falar a verdade, de coração a coração, sem querer vingança, sem querer rancor.

O que é gasshô, a reverência budista que se faz aos mestres e aos altares?

Coen: É um sinal de respeito, não apenas à pessoa, mas aos ensinamentos de Buda que ela traz. O ser humano está muito brutalizado. O cumprimento com o beijo ou um abraço, se tornou mecanizado. Precisamos resgatar o sentido disso. Com a reverência, as pessoas aprendem a ser respeitosas umas com as outras. Na yoga, há a saudação “namastê”, que quer dizer “o sagrado em mim cumprimenta o sagrado em você.” O gasshô tem esse sentido. Estamos criando o relacionamento de seres iluminados. Queremos que essa parte mais sagrada e mais sábia de nós venha à tona.

O que lhe encanta no Zen Budismo?

Coen: A paz, o respeito, a gratidão e ternura que deixam a vida completamente zen. A gente percebe que se torna uma só com a natureza e com os outros, e que todos são aspectos nossos. Essa transformação é difícil, pois precisamos encarar os nossos obstáculos internos para podermos nos relacionar com ternura e amizade profunda. Compartilhamos a vida. Alías, somos a vida em compartilhamento, não estamos separados. A nossa ilusão é a separação. E o Zen nos faz entrar na verdade, que é a não-ilusão, essa percepção de que tudo e todos fazem parte do nosso mundo. Isso é muito bom.


Caminho da Luz [Gabriela Agueree, Superinteressante-Revista das Religiões, maio 2003.
Páginas 62-63]

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