02 abril, 2003

Clarice em estado de graça



In truth, I think that we should make contact with the supernatural in silence and in a profound and lonely meditation. (Interview)


Foi uma sensação súbita, mas suavíssima. A luminosidade sorria no ar: exatamente isso.
Era um suspiro do mundo. Não sei explicar assim como não se sabe contar sobre a aurora a um cego.
É indizível o que me aconteceu em forma de sentir: preciso depressa da tua empatia. Sinta comigo.
Era felicidade suprema.
Mas se vc. já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer.
Não me refiro `inspiração, que
que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte.
O estado de graça de que falo não é usado para nada.
É como se viesse apeanas para que se soubesse
que realmente se existe e existe o mundo. Nesse estado, além da tranqüila felicidade
que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão leve.
É uma lucidez de quem não precisa mais adivinhar: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não me pergunte
o quê, porque só posso responder do mesmo modo: sabe-se.

Clarice Lispector [Água Viva. Rocco,79-80]

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