30 abril, 2003

Vc. sobre a água, a água sobre vc.


Você sobre a água
Água sobre você
Para que serve a água se você não a vê.

Dentro fora,
Invisível aos olhos
Simplesmente água,
Sem ela,
Ossos no deserto.

Melhor não desperdiçar!

28 abril, 2003

An extraordinary joy cannot keep this feeling separete.

One need above all, courage,
truth, and the power to endure.

But it may be fine- I expect it will be fine.

Indescritible air of expectation.

Virginia Woolf [To the Lighthouse]

27 abril, 2003

A lógica não poupa nem os peixinhos no rio

Disse Chuang:

"Veja como os peixes pulam e correm tão livremente:
isto é a sua felicidade".

Respondeu Hui:

"Desde que você não é um peixe,como sabe o que torna
os peixes felizes?"

Chuang respondeu:

"Desde que você não é eu,como é possível que saiba
que eu não sei o que torna os peixes felizes?"
Hui argumentou:

"Se eu, não sendo você,não posso saber o que você sabe,
daí se conclui que você,não sendo peixe,
não pode saber o que eles sabem".

Disse Chuang:

"Um momento:
Vamos retornar à pergunta primitiva.
O que você me perguntou foi:

"Como você sabe o que torna os peixes felizes?’
Dos termos da pergunta você sabe evidentemente que eu sei
o que torna os peixes felizes."

"Conheço as alegrias dos peixes no rio
através de minha própria alegria,
à medida que vou caminhando
à beira do mesmo rio".



Chuang Tzu e Hui Tzu [Atravessavam o rio Hao
pelo açude, enviado por Francisco Vitar]


Um peixinho puxa o outro...

Atirei um limão n'água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n'água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão n'água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n'água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n'água
mas perdi a direção
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão n'água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n'água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
é dor de quem muito amou.

Atirei um limão n'água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n'água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n'água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n'água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n'água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n'água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh'alma dolorida.

Atirei um limão n'água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n'água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n'água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão n'água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado para trás.

Atirei um limão n'água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
Você não ama: tortura.

Atirei um limão n'água
e caí n'água também
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão n'água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.


Carlos Drummond de Andrade [Lira do amor romântico ou a eterna repetição]

26 abril, 2003

Entrevista com Monja Coen

Como o zen tranformou a sua vida?

Coen: Além de despojar um pouco por fora, despojou por dentro, das preocupações superficiais. Comecei a me preocupar com a essência das coisas, com a melhor qualidade de vida, com a fome, com a pobleza, com a desigualdade- não houve como não me envolver com esses assuntos. A dor do outro é a minha dor, não existe um isolamento. O jornalismo foi o primeiro passo para essa descoberta. Como repórter, entrei em contato com a realidade global. Saí do meu pequeno mundo e meus valores todos se modificaram. O Zen veio corroar esse processo de desenvolvimento.

Como foi a relação com os seus mestres budistas?

Coen: Você tem que ter uma confiança absoluta, pois entrega ao mestre seus corpo e sua alma. Com a abadessa Shundo Aoyama Rôshi, que me orientou no Japão, essa entrega demorou anos. Mas, ao longo desse período, fui recebendo dela uma paciência infinita, de repetir todo dia, inúmeras vezes, que eu deveria ser como a água, flexível. E eu era dura como um tronco.

Como essa energia atua no mundo?

Coen: Precisamos encontrá-la. Isso acontece sentando, como fazemos no zazen. Mas esse sentar-se não significa isolar-se do mundo. Quando a gente supera a superficialidade da mente, as nossas particularidades, chegamos àquilo que o psicanalista Carl Jung chamava de inconsciente coletivo e penetramos nessa coletividade. É por isso que Buda falava do controle da propria mente.. eu controlo meus pensamentos. Se fulano me faz algum mal, enquanto estou meditando desejo que aconteçam com ele coisas boas. Em vez de imaginar crimes, procuro visualizar o assassino largando a arma. Acredito que isso mude o mundo.

É preciso abrir mão do mundo terreno para vivenciar o Budismo?

Coen: Na verdade, você tem que abrir mão dos próprios conceitos e da maneira como se relaciona com esse mundo para viver de um modo muito melhor. O Budismo é um caminho. Aos poucos, você vai perceber no outro a angústia e aprenderá a ser, para ele, o elemento que ajuda, o elemento da paz verdadeira- não no sentido de paz como ausência de guerra, mas o que a gente chama de cultura da paz.

O que é essa cultura da paz?

Coen: Quando uma pessoa me xinga em vez de xingar de volta, qual é a outra opção? Posso compreender que essa pessoa está nervosa. Não significa, porém, que eu vá ficar contente por ela estar me xingando. Num primeiro estágio, é perceber que isso me fere. Depois, é perguntar por que está me ofendendo. E, então, dizer à pessoa: “Isso me ofende tanto.” Você vai falar a verdade, de coração a coração, sem querer vingança, sem querer rancor.

O que é gasshô, a reverência budista que se faz aos mestres e aos altares?

Coen: É um sinal de respeito, não apenas à pessoa, mas aos ensinamentos de Buda que ela traz. O ser humano está muito brutalizado. O cumprimento com o beijo ou um abraço, se tornou mecanizado. Precisamos resgatar o sentido disso. Com a reverência, as pessoas aprendem a ser respeitosas umas com as outras. Na yoga, há a saudação “namastê”, que quer dizer “o sagrado em mim cumprimenta o sagrado em você.” O gasshô tem esse sentido. Estamos criando o relacionamento de seres iluminados. Queremos que essa parte mais sagrada e mais sábia de nós venha à tona.

O que lhe encanta no Zen Budismo?

Coen: A paz, o respeito, a gratidão e ternura que deixam a vida completamente zen. A gente percebe que se torna uma só com a natureza e com os outros, e que todos são aspectos nossos. Essa transformação é difícil, pois precisamos encarar os nossos obstáculos internos para podermos nos relacionar com ternura e amizade profunda. Compartilhamos a vida. Alías, somos a vida em compartilhamento, não estamos separados. A nossa ilusão é a separação. E o Zen nos faz entrar na verdade, que é a não-ilusão, essa percepção de que tudo e todos fazem parte do nosso mundo. Isso é muito bom.


Caminho da Luz [Gabriela Agueree, Superinteressante-Revista das Religiões, maio 2003.
Páginas 62-63]

23 abril, 2003

A História de Akisa Gotami

Há muito tempo, houve uma mulher que teve a sorte de viver na época do Buda, chamada Akisa Gotami.
Ela nunca havia experimentado qualquer grande sofrimento na vida, até que seu filho pequeno, enquanto brincava no jardim, foi subtamente picado por uma serpente venenosa, morrendo sem que nada pudesse ser feito.
Completamente desesperada e em estado de choque, aquela jovem mãe pegou o seu filho recém-morto nos braços e se pôs a vagar pelas ruas da cidade. Perambulando dia e noite, como um fantasma, em busca de alguém que pudesse salvá-lo do “sono profundo que o havia acometido, e do qual não podia mais acordar...”
Rapidamente ela se tornou uma figura conhecida e patética, pois com o passar dos dias e a franca decomposição o cadáver que apertava contra o peito, deixava todos os habitantes da cidade num misto de dó, asco e pavor. A todos que encontrasse pelo caminho, ela apresentava o cadáver e perguntava: “Por favor, vc. conhece algum remédio que possa fazer acordar meu filho? Acometido deste estranho e profundo sono, ela não consegue mais acordar...”
Mas ninguém sabia como curar da morte... este mistério impenetrável aos homens.

Entretanto, um belo dia, Akisa Gotami cruzou com um monge que mendigava pelas ruas da cidade e fez-lhe aquela mesma inquirição e ladainha horripilante. Compadecido com o que viu e ouviu, o monge asseverou:
“Minha cara senhora, infelizmente eu não conheço nenhum remédio capaz de curar o seu pequeno bebê. Mas sei de alguém que certamente conhece!”
O rosto de Akisa brilhou, como a lua cheia em alta madrugada, quando ouviu tais palavras. “enfim a cura para meu filho! Que maravilha!”, pensou consigo. Depois de atentamente ouvir do monge que deveria ir ao bosque de Jatavana e procurar por aquele a quem todos chamavam de “Buda”, saiu a mulher em disparada, sem parar para descasar nem olhar para trás, até que se viu diante do tal homem. Tensa e nervosa, cheia de expectativa, contou-lhe tudo o que havia acontecido, mais uma vez refazendo sua súplica. Tendo ouvido, observado e ponderado sobre o que se passava, o Buda fez brotar do seu profundo silêncio as seguintes palavras: “Minha cara, o remédio de que necessitas é, na verdade, muito simples... “ “Oh, por Brahma, diga-me como posso obtê-lo e assim o farei!”, interrompeu a pobre ansiosa por ver o filho prontamente recuperado. “Basta trazer-me uma semente de mostarda...”, falou o Buda.
“Sim, providenciarei imediatamente, senhor, pois tal semente é abundante por todo esse lugarejo”
“Eu sei, mas há uma condição a ser cumprida para que o remédio surta efeito...”, disse o Buda ternamente, olhando fundo nos olhos da jovem mulher. “Cumprirei qualquer condição senhor, basta mo dizer, eu lhe imploro...”, voltou a suplicar a mulher. Então, o Buda sentenciou que a semente de mostarda deveria vir de um lar que jamais houvesse sido visitado pela morte.

Repleta de esperança, de casa em casa, ela clamava por apenas uma pequena semente. Quase todas as moradias possuíam dezenas de sementes de mostarda, e podia-se obter até mesmo um bom punhado delas muito facilmente.
Contudo, quando ela perguntava se aquele lar já havia ou não sido visitado pela morte, a resposta era sempre a mesma, “Oh, lamento... sinto muito, desculpe-me, mas a morte passou por aqui recentemente. Foi quando perdi fulano, ciclano ou beltrano...” E, em cada casa em que batia à porta, a jovem mãe ouvia as estórias mais dolorosas sobre mães e pais que haviam falecido, avós que haviam morrido das formas mais estúpidas e gratuitas. Foi uma sucessão de lágrimas, choros, malogros, sofrimentos e saudades de corações cruelmente marcados pela visita enesperada da morte. Uma procissão de lamentações foi desfilando e se avolumando tanto diante dos olhos e ouvidos dela que, de repente, seu coração não pôde mais suportar e saltou um poderoso grito...
Naquele exato instante, ela voltou a si e, arregalando bem os olhos, fitou o corpo que trazia em seus braços.
Finamente, ela reconheceu a face da morte e derramou as últimas lágrimas de despedida que se haviam aprisionado em sua consciência. Então, ela levou o corpo até bem perto das margens do rio, próximo de uma grande e sinuosa curva e ali o sepultou para sempre, erguendo-se para a vida que prosseguia à sua frente. No seu sembante, havia agora um brilho sereno e claro, como a luz de um alvorecer. Tendo percebido a sutil sabedoria e habilidade do homem que lhe havia pedido aquela única semente de mostarda, ela tomou o rumo do bosque que há poucos dias tinha deixado para trás. Dizem que esta mulher, mais tarde, alcançou a completa sanidade. E eu acredito, pois até agora sua história ainda é lembrada.

Equipe Bodigaya [ Revista Bodigaya, Ano 5, n. 14, p.5-6]

22 abril, 2003

Somos todos iguais

Estava numa loja de aquários e comecei a olhar os peixinhos e de repente
eu vi um que estava boiando na superfície, morto e outros dois que iam
e vinham como se estivessem pedindo ajuda e eu falei com eles em
pensamento e disso que não adiantava, ele estava morto, então eu
fiquei ali olhando aquele mundo e pensando que ali tb. tinha sofrimento,
eu me vi como um peixe e senti que não era legal ficar o tempo todo
se mexendo, comendo, e tudo mais que os peixinhos faziam, que aquilo
que parecia lindo para nós, ornamental, na verdade era sofrimento.
Se eu fosse eles e soubesse, não gostaria de ser peixinho e não acharia lindo ser peixinho.
Então me vendo com peixinho eu chorei.
Eu vi que a condição deles não era melhor nem pior que a minha,
que eles não eram mais sortudos por serem peixinhos,
viverem em baixo d'água, nadar, etc.
Todas as condições têm sofrimento. Por isso ninguém é mais nem menos.
Todos estamos submetidos a mesmas condições, a mesma natureza nos trouxe aqui.

Só é possível saber o que é compaixão quando nos colocamos no lugar do outro
e sentimos como o outro sente, como se fossemos nós, pq. de fato o outro
somos nós e nós somos o outro. Nesse sentido todos somos iguais.
A compaixão nos torna iguais a tudo que existe.
Portanto ninguém é melhor ou pior, nem mais ou menos.
Todos estamos aqui porque temos a mesma natureza.
Como se diz: somos farinha do mesmo saco, partículas do mesmo universo.
Ou como diz o poema: "irmãos das estrelas e árvores".

19 abril, 2003

OS TRISTES ACHAM QUE O VENTO GEME;
OS ALEGRES, ACHAM QUE ELE CANTA.


O mundo é como um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo de
seus próprios pensamentos. A maneira como você encara a vida faz
TODA a diferença.

18 abril, 2003

No meio do barulho e da agitação
caminhe tranqüilo, pensando na paz
que pode encontrar no silêncio.

Procure viver em harmonia com as pessoas que
estão ao seu redor sem abrir mão da sua dignidade.

Fale a sua verdade clara e mansamente,
Escute a verdade dos outros, pois eles também tem a sua própria história.

Evite as pessoas agitadas e agressivas elas afligem o nosso espírito
Não se compare aos demais
olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você,
isso o tornaria superficial e amargo.

Viva intensamente seus ideais e o que você já conseguiu realizar
conserve o interesse pelo seu trabalho
por mais humilde que seja, ele é um verdadeiro tesouro
na contínua mudança dos tempos.

Seja prudente em tudo que fizer
porque o mundo está cheio de armadilhas
mas não fique cego para o bem que sempre existe
há muita gente lutando por nobres causas
em toda parte a vida está cheia de heroísmo.

Seja você mesmo, sobretudo não simule afeição
e não transforme o amor numa brincadeira
pois no meio de tanta aridez, ele é perene como a relva.

Aceite com carinho o conselho dos mais velhos
e seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude

Cultive a força do espírito,
você estará preparado para enfrentar as surpresas da sorte adversa

Não se desespere com perigos imaginários
muitos temores tem sua origem no cansaço e na solidão
ao lado de uma sadia disciplina, conserve para consigo mesmo uma imensa vontade

Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores , você merece estar aqui
e mesmo se você não pode perceber, a terra e o universo
vão cumprindo seu destino

Procure, pois, estar em paz com Deus, seja qual o nome que você lhe der
No meio dos seus trabalhos e aspirações, na fatigante jornada pela vida,
conserve no mais profundo do ser a harmonia e a paz.

Acima de toda mesquinhez, falsidade e desengano o mundo ainda é bonito
Caminhe com cuidado e partilhe com os outros a sua felicidade,
faça tudo para ser feliz!

Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores , você merece estar aqui
e mesmo se você não pode perceber, a terra e o universo
vão cumprindo seu destino

Max Ehrmann,1927 [Desiderata:ouvir]

Versão em inglês/espanhol

16 abril, 2003

Sem Cerimônia

Uma pessoa estava deitada em frente ao Buda.
Um outro chegou e indagou porque ela estava ali, deitada!
“Que fazes ai, tão sem respeito deitado diante do Buda?”
“Estou aqui na casa do meu Pai, por isso não preciso fazer cerimônia.”

Ryotan Tokuda [Psicologia Budista,38]

15 abril, 2003

Há poucos blogs sobre budismo. Hoje descobri um.

If the doors of perception were cleansed everything
would appear to man as it is, infinite.


William Blake

I can feel guilty about the past,
apprehensive about the future, but only in the present can I act.
The ability to be in the present moment is a
major component of mental wellness.


Abraham Maslow


14 abril, 2003

Então,se alegre com este momento.
Está prática não pertence a ninguém. Seja livre.


This practice does not belong to anyone. Stay free.
[Heila, PSN]

13 abril, 2003

Em quem podemos confiar?

Em que podemos confiar na vida?, perguntei a alguém que me respondeu:
"Em mim". Você pode confiar em si mesmo?
A autoconfiança é uma boa coisa, porém é inevitavelmente limitada.

Existe uma coisa na vida em que sempre podemos confiar: na vida tal como é.
Vamos falar em termos mais concretos.
Imagine que existe uma coisa que eu quero muito:
talvez casar com uma certa pessoa, ou fazer um curso de especialização,
ou ter um filho saudável e feliz. No entanto, a vida como é poderia
ser exatamente o inverso do que eu desejo.
Não sabemos se iremos ou não casar com aquele alguém.
Quem sabe, se casarmos, aquela pessoa ideal morra amanhã.
Pode ser que consigamos ser especialistas ou não.
É provável que sim, mas não podemos contar com isso.
Não podemos contar com coisa alguma. A vida será sempre do jeito que é.
Então, por que não conseguimos confiar nesse fato?
O que é tão difícil a esse respeito? Por que estamos sempre incomodados?
Suponha que sua casa tenha acabado de ser destruída por
um terremoto e você está quase perdendo um braço e todas
as suas economias. Será que dá para confiar na vida tal qual ela se apresenta?
Você consegue ser assim?

Confiar que as coisas são como são é o segredo da vida.
Porém, não queremos saber de nada disso.
Posso confiar absolutamente que, no ano que vem,
minha vida mudará, estará diferente, e, no entanto,
será sempre do que jeito que é. Se eu tiver um ataque cardíaco amanhã,
posso confiar que, porque eu o tive, eu o tenho.
Posso me apoiar na vida como ela é.

Charlotte Joko Back [Nada Especial: Vivendo Zen]

12 abril, 2003



You can learn how to be you in time.
It's easy.

Beatles [All we need is love]
Livro para iniciantes

Freqüentemente me escrevem perguntando sobre qual seria um bom livro para inciantes.
Um livro que gosto muito, pq. fala apenas do Zen e não de escolas e tradições budistas em particular, é o livro da Charlotte Joko Back Nada Especial: Vivendo Zen.

11 abril, 2003


És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!


Fernando Pessoa [Não, não digas nada]


Sobre Hierarquia, Etiqueta...

Veríssimo [Revista de Domingo / JB]

10 abril, 2003

Relação Professor e Aluno

Em nosso estilo (Zen Kwan Um), professor e aluno estão no mesmo nível, têm tarefas
diferentes, mas no mesmo nível. Um não está acima do outro.

Mestra Heila Downey,PSN [Entrevista à Revista Bodigaya Ano 5, núm. 12, p. 29-39]

09 abril, 2003

Forgive me, that I cannot sleep; forgive

The thirsty ones that they have no water.

Forgive: if you never know forgiveness,

You'll never know the blessings that God gives

Rumi
Oração do Despertar

Que a Natureza de Buda se manifeste perfeita,
completa, sem impedimentos.

Que os olhos da mente se abram para "o assim como é".
Que os ouvidos ouçam os sons do canto que desperta.
Que nossa fala manifeste a fala do Buda.
Que todos nossos sentidos expressem o Dharma Supremo.

Que a Natureza de Buda
Se manifeste a cada momento,
Sem obstáculos,
Sem ir nem vir,
Apenas neste momento somos todos budas.

08 abril, 2003

Apenas ser

Ela começa onde? Muito antes de uma nuvem? Muito antes de um relâmpago.
Antes de uma tempestade?
Essa viagem nunca começou e nunca terá fim.
Por quê isso é importante? Por quê buscar a origem das coisas, ir para o passado?
Não estamos satisfeitos com o que existe? Não nos conformamos com o que ou quem somos?
Rejeitamos nossa natureza, mas qual é nossa verdadeira natureza?
Somos feitos de chuva e viajamos nela, indo e vindo, por infinitos momentos,
de todas as formas, do jeito que
ela vir: apenas chuva, desfrutando dessa viagem.
E chuva é livre, porque ela não se pergunta “quem sou eu?”, por quê estou aqui?
Nascer, morrer, sem lamento, sem pesar, apenas ser chuva é seu instante único.
Celebremos a chuva, pois ela não compete com o sol. Ambos convivem em perfeita harmonia.

07 abril, 2003

Como Buda nos ensinou, a melhor maneira de vencer Mara é o silêncio.

I closed my mouth and spoke to you in a hundred silent ways.
I whispered an offer softly in the ear of your playful heart.
You've heard my thoughts, you know what's on my mind.
And now, what I described to you last night, I'll do today.

[ Rumi - Sec. XIII ]

É preciso transver o mundo.
A razão nos descompleta.


We need to look beyond this world.
reason confusses us.

Manoel de Barros [O Livro Sobre o Nada]

05 abril, 2003

The real meaning of an espiritual friend or an espiritual master is insult you.

A verdadeira função do teu amigo espiritual ou mestre é insultar você.

Chogyam Trungpa Rimpoche [ Os Lugares que nos Assustam,Pema Chödrön, Sextante]

04 abril, 2003

This is just to say


I have eaten
the plums
that were in
the icebox
and which
you were probably
saving
for breakfast
Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold

[William Carlos Williams,1934]


Tudo perfeito como é...

Segundo a Charlotte Joko Beck, tudo é perfeito como é, simplesmente
porque é impossível acrescentarmos algo ao que estamos fazendo neste
momento, ou subtrairmos. Note que não se trata de algo transcendental
e não depende de uma percepção especial. Simplesmente não podemos
estar num lugar diferente do que estamos agora, neste momento, ou
podemos? Na realidade simplesmente não temos outra opção. NO ENTANTO,
não é assim que vivemos. Apesar de ser FISICAMENTE impossível fazermos
outra coisa diferente da que estamos fazendo AGORA ou estar simultaneamente num
lugar diferente do lugar em que estamos, raramente vivemos assim e intelectualmente ou
emocionalmente sempre estamos nos lamentando de algo, sonhando com algo, com medo de algo,
com vontade de algo... mesmo que não percebemos. Isso dá pra entender
facilmente, não?
Agora, quem é capaz de não apenas entender, mas PERCEBER o momento de
agora como única opção daquele seu momento de existência atingiu o que chamamos de
iluminação. Isso só se consegue com a prática, não adianta forçar intelectualmente.
Se tentarmos viver dizendo "serei uno com a minha atividade" estaremos arrumando mais um problema,
mais um motivo para nos sentirmos culpados ou frustrados quando não estivermos
conseguindo "ser unos". Se enfiarmos na cabeça idéias do tipo "não vou agredi-lo
porque sou uno com ele", corremos o risco de conseguir uma gastrite ou úlcera nervosa porque a raiva
ainda vai estar lá quando alguém nos fizer algo desagradável, só que disfarçada.
O mesmo vale para simplesmente pormos na cabeça que "tudo é perfeito como é".
Entender isso não depende de uma percepção especial - é simplesmente o que está
escrito no primeiro parágrafo -, mas não basta entender na cabeça. É preciso viver isso nos ossos e
isso só se consegue com a prática... não adianta fugir.
Quem de fato sabe que tudo é perfeito como é já atingiu o estado de Buda,
esse talvez não precise mais praticar, mas a Joko disse que não conhece ninguém assim...

[Enviado por Emersom Zamprogno]

02 abril, 2003

Clarice em estado de graça



In truth, I think that we should make contact with the supernatural in silence and in a profound and lonely meditation. (Interview)


Foi uma sensação súbita, mas suavíssima. A luminosidade sorria no ar: exatamente isso.
Era um suspiro do mundo. Não sei explicar assim como não se sabe contar sobre a aurora a um cego.
É indizível o que me aconteceu em forma de sentir: preciso depressa da tua empatia. Sinta comigo.
Era felicidade suprema.
Mas se vc. já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer.
Não me refiro `inspiração, que
que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte.
O estado de graça de que falo não é usado para nada.
É como se viesse apeanas para que se soubesse
que realmente se existe e existe o mundo. Nesse estado, além da tranqüila felicidade
que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão leve.
É uma lucidez de quem não precisa mais adivinhar: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não me pergunte
o quê, porque só posso responder do mesmo modo: sabe-se.

Clarice Lispector [Água Viva. Rocco,79-80]