23 março, 2003

O que podemos fazer se nossos familiares e amigos não apoiam
ou até lamentam nosso interesse pelo Budismo?



“Talvez seja particularmente difícil falar do budismo com seus pais, pois eles o consideram algo estranho. Assim, um ensinamento realmente bom consiste em praticar ‘samadhi'. Isso significa simplesmente estar presente em sua casa com seus pais, de todo o coração. Quando você se levantar de manhã, simplesmente diga bom-dia e dê atenção a seus pais. Finalmente, eles poderão ficar curiosos a respeito do que você anda fazendo, pois você mudou. Você é você, mas você não é você. Seus pais poderão lhe perguntar: 'O que é Budismo?' Você pode responder: 'Não sei'. Então eles lhe perguntarão porque você prática uma coisa que não conhece. Mas se você soubesse de tudo, não seria necessário praticar. Sem dúvida seus pais ficarão curiosos a seu respeito, pois você realmente mudou. Você não é aquela pessoa que eles conheceram. Se você continuar a praticar shikantaza, onde quer que você esteja, sem dúvida seus pais poderão visitá-lo para ver o que você está fazendo. Dizemos que isso é você e o universo caminhando juntos. É como o monge zen que dá comida ao cachorro para fazê-lo parar de latir".


Roshi Dainin Katagiri-assistente do Roshi Suzuki [ Retornando ao Silêncio,pág. 148, Ed. Pensamento,1991]

[Enviado por: Francisco Ferro, praticante Soto-Fortaleza-CE]

Manifeste sua opção usando não só a fala, mas principalmente o corpo, através de atos. Para que isso ocorra, praticamos meditação. Isso ajuda a transformar o mundo, que começa por você. [Enviado por: Leonardo Kendô, Monge Soto, Curitiba]

Se é realmente isto que vc quer, não desista.
O tempo é o melhor remédio... suas atitudes
mostrarão ao seus familiares que vc se tornou
uma pessoa melhor com o Budismo. Este é
o melhor caminho para a aceitação.

[Enviado por Everton, praticante Soto, RS]


Lamentar?

«Não podemos fugir da influência da família e das
mágoas que ela provoca. Por outro lado, também não dá
para impor nossos ideais espirituais à família. Uma
jovem se envolveu na prática budista e depois voltou
para a casa dos pais. Lutou com o fundamentalismo
cristão de sua família por algum tempo, até que
conseguiu separar as coisas. Numa carta que enviou ao
mosteiro, ela dizia: “Meus pais me odeiam quando sou
budista, mas me amam quando sou um Buda.” Essa é a
nossa tarefa: despertar o Buda ao enfrentar o karma
familiar.» [pág. 189]

«Uma mulher que vivia como monja budista em mosteiros
da Tailândia e Burma falou das dificuldades que tinha
quando visitava a família, que vivia num bairro
operário de Detroit. No geral, ela tinha se livrado
das antigas mágoas, mas sua família não compreendia
nem aceitava aquela freira de cabeça raspada. E quanto
mais ela tentava falar do dharma, mais cresciam os
conflitos e as frustrações. À noite, a família bebia
cerveja e via televisão. Sempre que ela passava uma
semana desagradável com a família, acabava fugindo. Eu
lhe fiz algumas sugestões: Por que não vai visitar
seus pais sem o manto e sem os ensinamentos? Vá como
um simples membro da família e ame-os como eles são.
Pode até tomar uns golinhos de cerveja e ver um jogo
na televisão. E não fique muito tempo: no máximo três
dias.” Ela seguiu as minhas sugestões. Quando a
encontrei de novo, ela sorriu: tinha funcionado. (...)
Para o [monge trapista] Thomas Merton, tolerância é
aprender a ver “a beleza secreta no coração dos
outros” sob todas as expectativas que temos em relação
a eles. Quando vemos a beleza secreta do coração dos
outros, permitimos que nossa verdadeira natureza
conduza a relação e conseguimos enxergar a centelha
sagrada que ilumina a nossa vida.» [pág. 195]

«Até mesmo Buda e Jesus tiveram problemas quando
voltaram para casa. As palavras de Jesus foram
desrespeitosamente rejeitadas pela Sua
família. Então, quando Sua mãe e irmãos chegaram à
casa onde pregava, Jesus não os deixou entrar e,
apontando para os discípulos, disse “Aqui estão a
minha mãe e os meus irmãos, porque aquele que fizer a
vontade de meu Pai que está nos Céus, esse é o meu
irmão, irmã e mãe.”
Da mesma forma, quando o Buda voltou para casa depois
da iluminação, foi repreendido pelo pai, que achou que
ele tinha se transformado num pedinte inconveniente.
Assim, o pai e a madrasta exigiram que ele deixasse de
ser monge, trocasse de roupa e voltasse aos deveres de
príncipe. O Buda tentou esclarecê-los, mas eles
acharam que seus conhecimentos eram inúteis. Ele
precisou fazer um milagre – flutuar no ar soltando
fogo e água – para convencê-los de que tinha aprendido
algo de valor.
Como Jesus, o Mestre Zen Bashô adverte: “Não dá para
ensinar a verdade na sua cidade natal. Lá só o
conhecem pelos apelidos de infância.” Mas por isso
mesmo é importante voltar para casa. Há lugar melhor
para uma genuína prática do coração, a mandala do
todo, do que a própria família e os próprios
vizinhos? São eles o verdadeiro campo de teste para a
nossa prática porque nos consideram sem ideais
espirituais, imagem ou reputação.(...)
Falando com bom humor ao marido, um conhecido
professor hinduísta, disse uma devota: “Depois da
última visita à Índia, meu marido voltou para casa num
estado incrível. E ficou iluminado por seis meses, até
ir visitar a mãe.” (...)

Um mestre chinês adverte:
“Não confunda desapego e liberdade com fuga. Deixar a
família e os filhos para renunciar ao mundo é como
fugir da própria sombra. É um falso vazio. Não existe
um lugar que seja mais ou menos vazio do que a sua
própria casa. É lá que a iluminação sempre esteve.” (...)
Isso é provavelmente o melhor que podemos fazer:
ajudar quando possível, assistir um ao outro com
bondade, oferecer nossa presença, mostrar confiança
que temos na vida. Na vida espiritual, o importante
não é saber muito, mas amar muito.» [pág. 187 ~ 190]

Jack Kornfield [Depois do Êxtase, Lave a Roupa
Suja] Enviado por Emerson, “praticante Soto?” SP]

Nossa prática deve ser secreta. Não devemos falar de budismo, etc.
Só praticar na vida cotidiana. Devemos meditar escondido. às vezes eu acho que devia ser assim mesmo quando as pessoas gostam do budismo, mas não se sentem inclinadas a praticar. vai chegar uma hora que elas vão dizer "porque você é assim?" e então você finalmente pode falar de budismo.

[Enviado por Padma Dorje, aluno do Lama Padma Samten, Porto Alegre]

Em primeiro lugar, aceite o fato de que se sentem assim sem sentir raiva disso.
Irritar-se com eles só aumentará a tensão. Por outro lado, não precisamos desistir de nossas crenças ou práticas devido a pressão familiar. Embora seja tolice alardear nossa prática com uma atitude de rebeldia,tampouco precisamos escondê-la por medo. Podemos nos adaptar à situação externamente e ao mesmo tempo manter nossa prática viva e firme internamente. Por exemplo, se nossa família, não consegue aceitar um altar com retratos do Buda, podemos guardar os retratos dentro dos nossos livros de Dharma e tirá-los de lá quando vamos meditar.
Em muitos casos nossas ações convencem as pessoas do valor da prática do Dharma. Quando nossos colegas observam que estamos mais pacientes e tolerantes, têm curiosidade em saber o que estamos fizemos para mudar. Se ao visitar-mos nossos pais, os ajudarmos nas tarefas de casa, eles poderão ficar muito impressionados e pensar: Esta é a primeira vez em quarenta anos que um filho nos ajuda no serviço doméstico. O Budismo é ótimo!”
É díficil prever quais de nossos amigos e familiares ficarão interessados no Dharma. Podemos achar que um amigo muito querido ficará interessado, mas isso não ocorrerá. De igual modo, podemos achar que uma parenta não desejará discutir as idéias budistas e descobrir que ela é receptiva, portanto acompanhar sua receptividade abre a porta para boas discussões.
Thubten Chodron [ O que é Budismo]

I have encountered this problem several times along our journey,
and have found that the best way to deal with this is not to say too much,
live a life of example of clear practice, and introduce your Parents to other practicing people
who look 'normal.' It appears to me that a lot of
Parents think that people who practice Zen or meditate are hippies or are doing some
form of devil worship. Our best and most effective teaching is to show them by example.
[Enviado por Mestra Heila]


No que diz repeito a minha experiência, fiz um pouco de tudo descrito ai.
Nos primeiros anos não disse nada, se possível escondia. Depois quando surgia o assunto em algum lugar,TV, livros, revistas, esperava que alguém se manifestasse para sentir como a pessoa via o assunto.
As poucas vezes que tentei falar sobre budismo percebi que não tinha condições nem de responder às perguntas mais corriqueiras, então preferi fechar a boca e ficar na minha. A prática vai mudando sua mente e tudo a sua volta. Conter esse impulso de querer dizer algo sobre sua prática e sobre os ensinamentos tb. faz parte da prática, às vezes por inabilidade e pq. ainda não estamos prontos para falar podemos afastar as pessoas do Caminho. Mas se nos concentramos na prática, as pessoas verão que mudamos e virão naturalmente nos perguntar o que estamos fazendo, ai quando alguém tem uma motivação podemos apontar o caminho, emprestar um livro, uma revista, um texto. Ou mostrar como se senta.
No fundo é uma prática de paciência, basta saber esperar.

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