07 fevereiro, 2003

A fala que ninguém quer ouvir

Se formos honestos, teremos de admitir que o que de fato queremos da prática – especialmente no começo, mas em algum grau o tempo todo - é um maior conforto em nossas vidas. Esperamos que, com uma prática suficiente, o que nos incomoda agora não nos incomode depois. Existem na verdade duas maneiras de abordarmos a prática, e que precisam ser citadas. A primeira perspectiva é o que a maioria de nós pensa que é a prática (quer o admitamos, quer não), e a segunda é aquilo que a prática na verdade é. Conforme nossa prática vai se desenvolvendo com o tempo, aos poucos passamos de uma perspectiva para outra, embora nunca abandonemos por completo a primeira. Estamos todos em algum ponto desse continuum.



Quando agimos movidos pela primeira perspectiva, nossa atitude básica é que empreenderemos essa prática difícil e exigente porque esperamos obter determinados benefícios pessoais dela. Podemos não esperar tê-los todos ao mesmo tempo. Podemos ter uma certa limitação de paciência, mas depois de alguns meses de prática podemos começar a sentir que fomos ludibriados caso nossa vida não tenha melhorado. Entramos na prática com uma certa expectativa ou exigência de que ela, de alguma forma, irá incumbir-se de nossos problemas. Nossas exigências básicas são que nos sintamos bem e nos tornemos felizes, que tenhamos mais paz e serenidade. Esperamos não ter mais que aturar aqueles horríveis sentimentos de contrariedade, e iremos conseguir tudo o que desejamos. Esperamos que, em vez de ser insatisfatória, nossa vida se torne mais gratificante. Esperamos ficar mais saudáveis, mais à vontade. Esperamos ter melhor controle de nossa vida. Imaginamos que seremos capazes de tratar os outros melhor sem que isso seja inconveniente.



Exigimos que a prática nos deixe confiantes e que obtenhamos cada vez mais aquilo que queremos: se não dinheiro e fama, pelo menos algo próximo. Embora talvez não queiramos admiti-lo, exigimos que uma outra pessoa tome conta de nós e que as pessoas que nos são próxima atuem em nosso benefício. Esperamos ser capazes de criar condições de vida que nos sejam agradáveis, como o relacionamento certo, o trabalho certo, o melhor programa de estudos. Para aqueles com quem nos identificamos, queremos ser capazes de consertar suas vidas.



Não há nada de errado em querer qualquer uma dessas coisas, mas, se pensarmos que alcançá-las é do que trata a prática, então ainda não a teremos entendido. As exigências são todas a respeito do que NÓS queremos: queremos ficar iluminados, queremos paz, queremos serenidade, queremos ajuda, queremos controle sobre as coisas, queremos que tudo seja maravilhoso.



A segunda perspectiva é bem diferente: cada vez mais queremos ser capazes de criar harmonia e crescimento para todas as pessoas. Estamos incluídos nesse crescimento, mas não somos o centro dele; somos apenas uma parte do quadro. Conforme essa segunda perspectiva vai se fortalecendo em nós, começamos a desfrutar o serviço que prestamos aos outros e temos menos interesse em saber se servir aos outros atrapalha nosso próprio bem-estar. Começamos a ir em busca de condições de vida - como um emprego, saúde, um namorado - que mais favoreçam esse serviço. Talvez elas não nos sejam sempre agradáveis. O que mais nos importa é que tais condições nos ensinam como servir bem a vida. Uma relação difícil pode ser extremamente proveitosa, por exemplo.



Conforme adotemos a segunda perspectiva mais e mais vezes, aprendemos a servir a todos, e não só as pessoas de quem gostamos. Cada vez mais temos interesse em ser responsáveis pela vida, e não nos importa mais tanto se os outros se sentem ou não responsáveis por nós. Na realidade, nós inclusive nos tornamos dispostos a ser responsáveis pelas pessoas que nos maltratam. Embora possamos não o preferir, tornamo-nos mais propensos a vivenciar situações difíceis para aprender.



À medida que nos aproximamos mais da segunda perspectiva, iremos continuar conservando – muito provavelmente - aquelas preferências que definiam a primeira perspectiva. Continuaremos preferindo ser felizes, sentir-nos bem, estar em paz, obter o que queremos, mantermo-nos saudáveis, ter um certo controle sobre as coisas. A prática não nos leva a perder nossas preferências. Porém, quando uma preferência entra em conflito com aquilo que é mais proveitoso, então sentimo-nos dispostos a desistir da preferência. Em outras palavras, o centro de nossa vida está mudando, da preocupação conosco para a atenção à própria vida. A vida nos inclui, sem dúvida; não fomos eliminados da segunda perspectiva, mas não somos mais o centro.



A prática diz respeito a deslocar-se da primeira para a segunda perspectiva. Existe uma armadilha inerente à prática, porém: se praticarmos bem, muitas das exigências da primeira perspectiva podem ser satisfeitas. Temos mais probabilidade de nos sentir melhor, de ficar mais confortáveis. Podemos nos sentir mais à vontade com nós mesmos. Uma vez que não estamos punindo nossos corpos com tanta tensão, nossa tendência é nos tornarmos mais saudáveis. Essas mudanças podem causar em nós a equivocada noção de que a primeira perspectiva é correta: que a prática é tornar a vida melhor para nós. Na realidade, os benefícios que auferimos pessoalmente são incidentais. A verdadeira razão da prática é servir a vida da maneira mais plena e produtiva que pudermos. E isso é muito difícil para a nossa compreensão, sobretudo a princípio. "Você quer dizer que devo tomar conta de alguém que acabou de me destratar? Isso é loucura!" "Você está dizendo que devo desistir do que é conveniente para mim para servir alguém que nem gosta de mim?"



Nossas atitudes centradas em nosso ego têm raízes profundas e levam muitos anos de árdua prática para afrouxá-las um pouco. E estamos convencidos de que a prática diz respeito à primeira perspectiva, de que iremos conseguir alguma coisa dela que seja maravilhosa para nós.



A verdadeira prática, contudo, é muito mais voltada para enxergarmos como nos ferimos e magoamos aos outros com pensamentos e atos iludidos. É enxergarmos de que maneira magoamos os outros, talvez por estarmos simplesmente tão perdidos em nossos próprios pensamentos que nem sequer conseguimos vê-los. Não acho que de fato causemos danos aos outros; é só que não vemos muito bem o que estamos fazendo. Posso saber como está indo a prática de uma pessoa vendo se seu interesse pelos outros está aumentando, interesse que vai além do que meramente EU quero, do que está ME ferindo, de como a vida é terrível, e assim por diante. Esse é o sinal de uma prática que está avançando. A prática sempre é uma batalha entre aquilo que queremos e aquilo que a vida quer.



É natural ser egoísta, querer o que se quer, somos inevitavelmente egoístas até que enxerguemos uma alternativa. A função de lecionar num centro como este é ajudar a enxergar a alternativa e incomodar-nos em nosso egoísmo. Enquanto estivermos presos na primeira perspectiva, governados pelo desejo de nos sentir bem ou em estado de graça, ou iluminados, nós precisamos ser incomodados. Precisamos ser contrariados. Um bom centro e um bom instrutor trabalham para isso. Afinal de contas, a iluminação é apenas a ausência de todo interesse ou preocupação por si. Não venham a este centro para se sentirem melhor; este não é o lugar para isso. O que quero são vidas que cresçam para que possam tomar conta de mais coisas e de mais pessoas.

CHARLOTTE JOKO BECK [Nada de Especial- Vivedo Zen]



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