28 fevereiro, 2003

A alegria da procura por alguém que possa receber é maior que a própria doação.

K.Gibran [O Profeta]


Lá vamos nós para mais um retiro.
Estou muito feliz porque PSN voltou e está de bom humor.
Está até aprendendo ....
Christine já comprou a passagem,Yeepeee!
Meu amigo fez uma surpresa e enviou-me um CD com os cantos da Kwan Um
mais um bonus: o Sutra do Coração em Sânscrito. Muito lindo!
Até a volta!
Qualidades da Atenção

A atenção meditativa tem três qualidades: a calma, a abertura e a
harmonia.

Tarthang Tulku [Gestos de Equilíbrio]

26 fevereiro, 2003

Silêncio

Há alguns anos, quando eu só via o zen vagamente como uma filosofia de vida, comprei um livro num supermercado em Lion, depois larguei-o num albergue em outro país. Hoje achei algumas anotações que sobraram:

“O silêncio não é ausência de vida. É o ponto de encontro da realidade que nos traz de volta para essa dimensão, a qual chamamos de eternidade.
Sem o silêncio o Zen não existe. “

Bernard Baudouin [Le Zen- De la forme d’esprit a la maniere de vivre: Paris,1995]

25 fevereiro, 2003

Budismo ou Modismo

Essa coisa de os artistas se declararem budistas, até pouco tempo eu achava só marketing, modismo,
mas quando falei lá em casa que estava praticando, as coisas que ouvi foram: tem aquele ator que é budista, aquela atriz, etc. Então essa mínima informação acabou me ajudando. Daí, seja lá o que for, se for para pelo menos
as pessoas se familiarizarem com o nome “Budismo” ou ficarem curiosas e quererem saber mais já vale a intenção.
Como se diz com frequência: nada é por acaso. E tudo no mundo tem a sua função.
Então modismo ou não.
Eu quero mais é que os artistas falem que são budistas.
Ontem eu até ouvi a Christiane Torloni (a personagem dela) falando, camufladamente,
em Caminho do Meio na novela das oito.
Se pelo menos se ousasse falar abertamente, como se fala de outras tradições.
Quem sabe um dia!

23 fevereiro, 2003

Três características

A prática depende do temperamento de cada um. Aqueles que praticam mais a
impermanência- desenvolvem a fé.
Os que vão pela porta do sofrimento-têm facilidade para a concentração.
Os que escolhem a porta da não-eu-têm sabedoria desenvolvida.


22 fevereiro, 2003

Mulheres no Budismo

Decididamente, as mulheres tem tudo a ver com o Budismo. É cada vez maior o número das que se destacam como professoras, mestras, monjas.
Então meu olhar que busca pelo próprio olhar só poderia ir por esse caminho. Eu sabia que teria que ser uma e não um.

Fomos visitar um centro de Dharma na Costa de Dentro. A monja Jokei estava falando lá. Abrindo um retiro que haverá hoje e domingo.

Ele falou sobre seus mestres, sobre zazen, explicou o significado do kenji za zen. Não dá para pôr os ideogramas aqui, mas significam:
Um caminho de equilíbrio com tudo, com todos.
Que transforma o universo.

Fizemos za zen. Foi um dos melhores que tive em grupo.

O mosteiro está movimentado é monja para cá, monge para lá...

21 fevereiro, 2003

Ritos de Passagem

Estava me olhando no espelho e a imagem que olhava de fora não era a mesma que olhava de dentro. Então a imagem de fora foi se aproximando à imagem de dentro e ambas se fundiram numa só atravessando o espelho e depois atravessando a parede até que cai em pé do lado de fora da parede. Era dia. Havia sol. Lembrei de um lugar onde já havia estado. Levantei os braços, comecei a me elevar do solo e voei baixo sobre a cidade, sobre riachos, pântanos até chegar a um porto. Quando vi o mar
tive medo de atravessa-lo voando e desci para o chão. No porto haviam dois portões de chegada ou partida. Em um estava escrito Índia e no outro África do Sul. Abri o segundo, pois estava chegando um navio de lá.
Depois, enquanto o navio que havia chegado descarregava, fiquei circulando no porto, observando as pessoas, algumas bem estranhas.
Foi apenas um sonho. Me sinto muito leve depois de voar!

Quem não tem passagem, voa no sonho.

19 fevereiro, 2003

Sempre principiantes


O Despertar é um sabor único.
As nuvens podem cobrir a lua
Mas logo a primavera retorna cheia de força,
E a natureza floresce como o pinheiro sempre verde.
Viva no alto das montanhas e próximo de riachos,
Atravesse vales profundos, e tudo estará bem.

Kozan Saisho

Quando tudo parece estar dando errado, pode ser um sinal de preparação.
Se não soubermos ser pacientes e esperar, se desistimos, não saberemos o que é.

Tudo tem ciclos: começo, ápice e fim. A prática não é diferente.
No começo pode ser um misto de entusiasmo com esforço e dor (física). Se queremos ir adiante, lutamos para superar os obstáculos e chegar ao topo da montanha. No ápice, experimentamos o melhor da prática. Temos coragem, energia. Já nem sentimos tanto as dores da prática formal. Tudo ficou para trás.
Na prática a subida é como escalar o Monte Evereste. Poucos se aventuram, muitos desistem em algum ponto. Poucos chegam ao topo. Mas quando se chega no ar rarefeito do topo, não dá para ficar lá para sempre, mesmo que se queira, por mais extasiante que seja.
Temos que aprender a deixar tudo e descer da montanha, voltar para a nossa vida cotidiana, (desapegar-se desse lugar, estado especial). Descer a montanha é como uma morte e ao mesmo tempo é a preparação para
começar tudo de novo. A montanha estará sempre no mesmo lugar. Aprendendo a subir uma vez, podemos voltar. Mas para refazer o caminho é preciso começar tudo do zero. Esquecer do que já sabemos e do que já usamos e aprender tudo de novo. Como se nascêssemos novamente. Para alguns há um intervalo, mas não deveria, pois os intervalos trazem as dúvidas e o risco de desistirmos. “Eu já fui lá, já sei como é , já tive minha experiência, já consegui o que queria, então para que continuar? “ Conquistar o topo não lhe dá nenhum prêmio, nenhum certificado de conclusão. Neste curso nunca nos formamos. Somos sempre principiantes.
É essa mente que devemos manter conosco.


18 fevereiro, 2003

Sinceridade & Simpatia

Sinceridade é o mesmo que “âmago da mente”.
Simpatia é o mesmo que “compatibilidade de mentes”.
Quando alguém atinge o âmago da mente e a compatibilidade de mentes, entre dez mil
assuntos nenhum será mal resolvido.

Takuan Söhö [ A Mente Liberta, Cultrix]

16 fevereiro, 2003

sete dias vendo as ondas subirem
ameaçadoras
sete dias sem dormir
esperando
quem vai desistir primeiro?

não convém desafiar a natureza,
mas é preciso desafiar nossa natureza.
Qualquer semelhança é mera coinscidência

Dizem que entre aluno e mestre vale o dito: “cara de um,focinho do outro”
É como aqueles casais que vc. olha e diz: “são tão pareceidos fisicamente”, porque já não são mais dois.
Já se fundiram numa pessoa só. São um. Assim deve ser com o aluno e o seu mestre: Apenas UM.

É claro que se o aluno for ocidental e o professor oriental fica mais complicado.

Oração para o Mestre




Que cessem as ilusões enganosas,
Que vão desde não ser respeitoso com o professor às sutis formas de dualidade.
Que todos os estados positivos da mente, desde ser respeitoso com o mestre,
Alcancem toda a união e sejam realizados.
Que todos os obstáculos externos e internos sejam superados.


Na foto:Mestra Heila Downey, PSN.
Parecidas? Não, ainda não tenho cabelos vermelhos,,já os brancos...
Mas geralmente são curtos e usamos óculos. De resto só o tempo dirá.

15 fevereiro, 2003

Internet à Cabo

Como diriam os budistas tibetanos: acho que não tenho méritos para ter uma conexão à cabo.
Se for pra praticar com essa finalidade, I’m sorry, nunca vou ter! Mas posso trabalhar com esse finalidade, ai já fica mais conectável. Foi só uma introdução fora do cabo. Sem conexão,digo, sem sentido.

Hoje vou ao zazenkai. Depois tenho que dar continuidade às páginas e páginas do home page do grupo. Ainda não consegui gravar os cantos da página da kwanumzen.org.
Já tentei em dois computadores e não sei se tem proteção contra gravações. Preciso escanear fotos e por ai vai.
O bom é que vou ter fotos exclusivas de PSN! O ruim é que não sei como colocá-las na página. Uma aluna dela está vindo para cá, mas só pra passear.
Na África do Sul o símbolo do Zen Coreano é o Rinoceronte. Forte e veloz. Gostei da idéia, mas nada a ver com o Brasil. Alguma sugestão?

14 fevereiro, 2003

Apenas faça!

Segundo o Dr. William Douglas, autor do livro "Como passar em provas e concursos",
Vc. tem que amar de paixão aquilo que quer fazer (mas tem preguiça). “

O problema não é aquilo que GOSTAMOS de fazer,mas aquilo que TEMOS que fazer.
Temos que fazer faxina pelo menos uma vez por semana.
Talvez a dica seja aprender a amar tudo que fazemos.
Sem distinção. Tudo e a todos. O bom e o ruim.
O doce e o amargo. O belo e o feio...

Ou como diz o Mestre Zen Seung Sahn: Apenas faça!

Quando vc. vai fazer o seu primeiro retiro?

11 fevereiro, 2003

A fé no zen budismo é na possibilidade do homem se levantar por seus
próprios meios, como Buda Shakiamuni fez.

Possa o teu espírito ler estas palavras e
lembrar do teu propósito.


T.S. Eliot [ Os Quatro Quartetos]




Da Série Meditar & Atenção Plena

- Meditar, meditar, meditar...
Não tô falando de Zazen!
Mas de tudo, tudinho que fazemos:

-Meditar ao mastigar o alimento, evita que ele seja engolido sem a devida mastigação necessária, o que trará
trabalho para digeri-lo e absorvê-lo em etapas posteriores.

-Meditar enquanto caminhamos, evita sermos atropelados, tropeçar na calçada, esbarrar em alguém.
Se for alguém interessante, e estivermos atentos, até é possível esbarrar de propósito.
Meditando, observando, atentos, vemos as coisas como elas são.
Basta experimentar. Um mundo maravilhoso se abre diante de nossos olhos.

-Meditar ao ler qualquer mínima coisa. Seja um anúncio da Mc Donald’s: “Será que vou ou não
vou me deixar levar pelo apelo? Estou com fome? Preciso, posso, devo?
Não seria melhor comer uma salada light?”

-Meditar na leitura. Preste atenção no que ler. Em tudo há um sinal, um dedo apontando para o caminho.
Numa tira de jornal, no horóscopo, num poema, uma placa na estrada, um adesivo no carro.
Quem souber olhar vai encontrar o caminho. Quem estiver atento vai saber reconhece-lo.
Como dizem “o sol nasce para todos”, mas quantos sabem que o sol existe, quantos se lembram de
percebe-lo, de usufruir de seus benefícios. E no entanto ele está, é, como tudo.

Preste atenção no que está por trás das palavras, imagens, gestos, sons, se eles são ensinamentos ou venenos.
Perceba o que é real e o que é subliminar. O que é honesto e o que é desonesto. O que é bom e o que é ruim.
Experimente tudo, mas fique apenas com o melhor. Vc. sabe o que o melhor? Então saiba. Talvez um gosto amargo seja melhor que o doce.

-Meditar ao ler ao ouvir, ao sentir. Perceber “aonde aperta o sapato” ou onde as sensações, percepções e pensamentos nos tocam: no coração, na mente, no peito, no estômago, no fígado, nos rins e por ai vai descendo...até onde estiver a raiz do problema. Onde está o problema tb. está a solução, ou pelo menos a chave para ele.

-Meditar ao ver TV. Não há problema em ver TV, desde que seja com atenção plena. A TV também pode ensinar.
Melhor seria não ver. Faz mais mal do que bem, devido ao envolvimento natural com as ilusões e os venenos.
Não ver TV desintoxica a mente, mas vendo aplique a atenção plena nisso também.
Um exemplo:
Quem nunca viu aquelas pessoas que sofrem ao ver a novela. Elas se envolvem na trama, incorporam os personagens, sentem raiva dos vilões. Para elas ver TV é como torcer para um time de futebol (uma espécie de catarse diária). Alguns sabem que é uma ilusão e até dizem que é uma ilusão boa, mas muitos não querem nem saber se aquilo existe ou não existe, se é possível ou impossível: coisa de novela. Ai aparece o Giani e vc. vai logo chamando ele de Maria. No, Scusi! Come se chiama lui?

-Meditar ao escrever. As palavras escritas se perpetuam, perpetuando seus erros.
Se aplicamos a atenção plena como os poetas que lapidam palavras como quem lapida diamantes, escolhendo a palavra certa, então se alguém for ferido pelo diamante é porque ainda não é diamante. Diamante com outro diamante não se estranham, se as faces e a qualidade forem as mesmas. Mas se mesmo assim alguma palavra escapar, a atenção recorrente a percebe e ainda podemos corrigi-la a tempo ou esperar as consequências.

Quando as coisas se repetem preste atenção. Em quanto vc. não resolver, isso vai continuar se repetindo.

-Preste atenção e medite sobre o que vc. pensa. Capture um pensamento, uma palavra um sentimento e brinque com ele, assim vc. aprende a ser saudável, a ser generoso, bondoso consigo e com os outros. Pratique o bom humor. Se nesse exercício vc. viajar, perceba que viajou, desfrute da viagem, mas volte a sua atenção plena. Preste atenção para sons, perfumes, cores, sensações térmicas, tudo o que está a sua volta e a que
isso te remete. Perceba que tudo simplesmente existe e não se apegue a nada. Deixe as coisas irem e virem num fluxo continuo até que um dia o fluxo cesse.

08 fevereiro, 2003

Continue fazendo um bom trabalho



Seung Sahn Soen-Sa nasceu em 1927 em Seun Choen, Coréia do Norte. Seus pais eram Cristãos Protestantes. A Coréia nesta época estava sobre severa vigilância militar japonesa, e a liberdade política, cultural e de expressão foi brutalmente abulida.
Em 1944, Soen-Sa se associou a movimento que lutava pela independência da Coréia. Em poucos meses ele foi preso pela polícia japonesa e por pouco escapou da pena de morte. Depois que ele saiu da prisão, ele e dois amigos emprestaram algum dinheiro de seus pais e cruzaram a fortemente armada fronteira da Manxuria numa mal sucedida tentativa de se alistar no exército da Coréia.
Nos anos que se seguiram, durante a Segunda Guerra Mundial, ele estudou filosofia ocidental na Universidade Dong Guk. A situação política na Coréia do Sul se tornava cada vez mais e mais caótica.

Um dia Soen-Sa decidiu que ele não conseguiria ajudar as pessoas através das suas atividades políticas ou seus estudos acadêmicos. Então, ele raspou a cabeça e foi para as montanhas, fazendo o voto de só voltar quando tivesse encontrado a verdade absoluta. Por três meses ele estudou as escrituras Confucionistas, mas ele não ficou satisfeito com elas.
Então um amigo seu, que foi monge em um pequeno templo na montanha deu-lhe o Sutra do Diamante, e ele teve seu primeiro encontro com o Budismo. “Todas as coisas que aparecem nesse mundo são transitórias. Se vc. percebe todas as coisas que aparecem como se elas nunca tivessem aparecido, então vc. irá entender toda seu verdadeiro self.” Quando ele leu estas palavras, sua mente ficou clara. Nos próximas semanas ele leu vários sutras. Só então ele decidiu se tornar um monge budista e foi ordenado em 1948. Soen-Sa já tinha entendido os sutras. Ele percebeu que a coisa mais importante agora era a prática. Então, dez dias após sua ordenação, ele subiu a montanha mais alta e iniciou um retiro de 100 dias na Montanha Won Gak ( a Montanha da Perfeita Iluminação).

Ele comeu apenas sementes de pinus, castanhas secas. Por 20 horas, todos os dias, ele cantou o Grande Dharani da Energia da Mente Original. Várias vezes por dia ele tomava banhos gelados. Era uma prática bastante rigorosa.

Rapidamente ele foi assolado por dúvidas. Porque este retiro é necessário? Porque ele tinha que ir até ao extremo? Ele poderia ir embora para um pequeno templo em um vale tranqüilo, casar-se com uma monja japonesa e obter a iluminação gradualmente, em meio a uma família feliz?

Uma noite esses pensamentos ficaram tão intensos que ele decidiu fazer sua mochila e ir embora. Mas no dia seguinte sua mente estava mais clara, e ele desfez a mochila. Alguns dias depois aconteceu o mesmo e nas semanas seguintes ele fez e desfez a mochila nove vezes. Até então, 50 dias tinham se passado. E o corpo de Soen-Sa estava muito cansado. Toda noite ele tinha alucinações terríveis. Demônios apareciam no escuro e faziam gestos obscenos para ele. Um espírito saltou sobre ele e colocou suas mãos frias no pescoço dele. Enormes besouros picaram suas pernas. Tigres e dragões apareciam em sua frente, gritando alto. Ele esteve em constante terror.

Depois de um mês destas alucinações terem acontecido, novas vieram, mas agora eram visões de felicidade. Às vezes, Buda vinha ensinar a ele o Sutra. Às vezes Bodhisattvas lhe apareciam em maravilhosos trajes e lhe falavam que ele iria para o paraíso. Às vezes ele caia de exaustão e Kwan Seung Bosal gentilmente o levantava. Nos últimos oito dias, seu corpo estava forte. Sua pele se tornou verde como as folhas de pinus.

Um dia, uma semana após o retiro ter terminado Soen-Sa estava caminhando nas redondezas, cantando e fazendo ritmo no seu moktak. De repente, dois rapazes, de 11 ou 12 anos, apareceram cada um em um dos seus lados e o reverenciaram. Eles estavam vestindo robes bem coloridos, e suas faces tinham uma beleza etérea. Soen-Sa ficou muito surpreso. Sua mente parecia com grande energia e perfeitamente clara, então como estes demônios tinham se materializado? Ele continuou andando até o caminho dava acesso à montanha, e os dois garotos seguiram ele, caminhando através da encosta no mesmo lado do caminho. Eles caminharam juntos em silêncio por meia hora, então em frente ao altar onde Soen-Sa se prostrou, eles se foram. Isso aconteceu todos os dias, por uma semana.

Finalmente, chegou o centésimo dia. Soen-Sa estava descendo a montanha, tocando o moktak. Todo aquele lugar e seu corpo desapareceram, e ele foi para o espaço infinito. Ao longe ele podia ouvir a batida do moktak e som da sua própria voz. Ele ficou nesse estado por algum tempo. Quando ele retornou ao seu corpo, ele entendeu. As pedras, o rio, cada coisa que ele podia ver, cada coisa que ele podia ouvir, tudo isso era seu verdadeiro Eu (Self). Todas as coisas são exatamente como elas são. A verdade é apenas isso. Soen-Sa dormiu muito bem nesta noite.

Quando ele acordou na manhã seguinte, ele viu um homem subindo a montanha, e depois vários corvos voando para uma árvore. Ele escreveu este poema:

A estrada para o fundo da Montanha Won Gak Não é está estrada.
O homem subindo com sua mochila não é o homem de antes tok,tok,tok- fazem seus passos transpassando passado e presente.
Corvos voam para árvore. Caw, caw, caw.

Logo que ele desceu a montanha, ele encontrou o mestre Zen Ko Bong, o qual tinha sido professor do Mestre Zen Mang Gong. Ko Bong era famoso por ser o mais brilhante mestre Zen da Coréia, e um dos mais severos. Neste momento ele estava ensinando apenas para leigos; ele dizia que os monges não tinham perseverança, fé suficiente para serem bons estudantes do Zen.
Soen- Sa queria testar sua iluminação com Ko Bong, então ele levou para ele o moktak e disse, “o que é isso? “ Ko Bong tocou o moktak e bateu nele. Isso era apenas o que Soen –Sa esperava que ele fizesse com ele.
Então Soeng-Sa disse: “Como eu posso praticar o Zen?” Ko Bong disse, “Uma vez um monge perguntou ao Mestre Zen Jo-ju, “”por que Bodhidharma veio para a China? Jo-ju respondeu, “O pinheiro no jardim”. O que isso significa? Soen-Sa entendeu, mas ele não soube como responder. Ele disse, “Eu não sei.” Ko Bong disse, “Apenas mantenha está “mente não-sei”. “Está é a verdadeira prática zen.”

Aquela primavera e verão, Soen-Sa fez um bocado de trabalho zen. No outono, ele foi para um retiro de 100 dias no mosteiro de Dok-Sa, onde ele aprendeu a linguagem Zen e Dharma-Combate. No inverno, ele começou a sentir que os monges praticavam muito pesado, então ele decidiu ajuda-los um pouco. Uma noite, quando ele estava na guarita, ele colocou todos os potes e panelas fora da cozinha e os colocou em um círculo em frente ao jardim.
No noite seguinte, ele foi até o altar e pegou o Buda do altar principal e pegou o queimador de incenso, que é um tesouro nacional, é o pendurou em uma árvore no jardim. Depois da Segunda manhã todo o mosteiro estava em polvorosa. Rumores estavam circulando sobre um ladrão lunático ou deuses que vieram das montanhas para avisar aos monges para praticarem com mais emprenho. Na terceira noite,

Soen-Sa foi para os alojamentos das monjas, pegou 70 pares de sapatos das monjas e os colocou em frente do quarto do Mestre Dok Sahn, dispostos como se estivessem em uma loja de sapatos. Mas nesse tempo, uma monja acordou e saiu para fora, e esqueceu seus sapatos, ela acordou todas as monjas e Soen-Sa foi pego. No outro dia ele foi levado para a julgamento. A maioria dos monges votaram por dar-lhe outra chance ( as monjas estavam contra ele), ele não foi enxotado do mosteiro. Mas ele deveria se desculpar com todos os monges mais antigos.

Primeiro ele foi ver o Mestre Dok Sahn e o reverenciou. Dok Sahn disse, “continue fazendo um bom trabalho.”

Diana Clark [Revista Primeiro Ponto]

07 fevereiro, 2003

A fala que ninguém quer ouvir

Se formos honestos, teremos de admitir que o que de fato queremos da prática – especialmente no começo, mas em algum grau o tempo todo - é um maior conforto em nossas vidas. Esperamos que, com uma prática suficiente, o que nos incomoda agora não nos incomode depois. Existem na verdade duas maneiras de abordarmos a prática, e que precisam ser citadas. A primeira perspectiva é o que a maioria de nós pensa que é a prática (quer o admitamos, quer não), e a segunda é aquilo que a prática na verdade é. Conforme nossa prática vai se desenvolvendo com o tempo, aos poucos passamos de uma perspectiva para outra, embora nunca abandonemos por completo a primeira. Estamos todos em algum ponto desse continuum.



Quando agimos movidos pela primeira perspectiva, nossa atitude básica é que empreenderemos essa prática difícil e exigente porque esperamos obter determinados benefícios pessoais dela. Podemos não esperar tê-los todos ao mesmo tempo. Podemos ter uma certa limitação de paciência, mas depois de alguns meses de prática podemos começar a sentir que fomos ludibriados caso nossa vida não tenha melhorado. Entramos na prática com uma certa expectativa ou exigência de que ela, de alguma forma, irá incumbir-se de nossos problemas. Nossas exigências básicas são que nos sintamos bem e nos tornemos felizes, que tenhamos mais paz e serenidade. Esperamos não ter mais que aturar aqueles horríveis sentimentos de contrariedade, e iremos conseguir tudo o que desejamos. Esperamos que, em vez de ser insatisfatória, nossa vida se torne mais gratificante. Esperamos ficar mais saudáveis, mais à vontade. Esperamos ter melhor controle de nossa vida. Imaginamos que seremos capazes de tratar os outros melhor sem que isso seja inconveniente.



Exigimos que a prática nos deixe confiantes e que obtenhamos cada vez mais aquilo que queremos: se não dinheiro e fama, pelo menos algo próximo. Embora talvez não queiramos admiti-lo, exigimos que uma outra pessoa tome conta de nós e que as pessoas que nos são próxima atuem em nosso benefício. Esperamos ser capazes de criar condições de vida que nos sejam agradáveis, como o relacionamento certo, o trabalho certo, o melhor programa de estudos. Para aqueles com quem nos identificamos, queremos ser capazes de consertar suas vidas.



Não há nada de errado em querer qualquer uma dessas coisas, mas, se pensarmos que alcançá-las é do que trata a prática, então ainda não a teremos entendido. As exigências são todas a respeito do que NÓS queremos: queremos ficar iluminados, queremos paz, queremos serenidade, queremos ajuda, queremos controle sobre as coisas, queremos que tudo seja maravilhoso.



A segunda perspectiva é bem diferente: cada vez mais queremos ser capazes de criar harmonia e crescimento para todas as pessoas. Estamos incluídos nesse crescimento, mas não somos o centro dele; somos apenas uma parte do quadro. Conforme essa segunda perspectiva vai se fortalecendo em nós, começamos a desfrutar o serviço que prestamos aos outros e temos menos interesse em saber se servir aos outros atrapalha nosso próprio bem-estar. Começamos a ir em busca de condições de vida - como um emprego, saúde, um namorado - que mais favoreçam esse serviço. Talvez elas não nos sejam sempre agradáveis. O que mais nos importa é que tais condições nos ensinam como servir bem a vida. Uma relação difícil pode ser extremamente proveitosa, por exemplo.



Conforme adotemos a segunda perspectiva mais e mais vezes, aprendemos a servir a todos, e não só as pessoas de quem gostamos. Cada vez mais temos interesse em ser responsáveis pela vida, e não nos importa mais tanto se os outros se sentem ou não responsáveis por nós. Na realidade, nós inclusive nos tornamos dispostos a ser responsáveis pelas pessoas que nos maltratam. Embora possamos não o preferir, tornamo-nos mais propensos a vivenciar situações difíceis para aprender.



À medida que nos aproximamos mais da segunda perspectiva, iremos continuar conservando – muito provavelmente - aquelas preferências que definiam a primeira perspectiva. Continuaremos preferindo ser felizes, sentir-nos bem, estar em paz, obter o que queremos, mantermo-nos saudáveis, ter um certo controle sobre as coisas. A prática não nos leva a perder nossas preferências. Porém, quando uma preferência entra em conflito com aquilo que é mais proveitoso, então sentimo-nos dispostos a desistir da preferência. Em outras palavras, o centro de nossa vida está mudando, da preocupação conosco para a atenção à própria vida. A vida nos inclui, sem dúvida; não fomos eliminados da segunda perspectiva, mas não somos mais o centro.



A prática diz respeito a deslocar-se da primeira para a segunda perspectiva. Existe uma armadilha inerente à prática, porém: se praticarmos bem, muitas das exigências da primeira perspectiva podem ser satisfeitas. Temos mais probabilidade de nos sentir melhor, de ficar mais confortáveis. Podemos nos sentir mais à vontade com nós mesmos. Uma vez que não estamos punindo nossos corpos com tanta tensão, nossa tendência é nos tornarmos mais saudáveis. Essas mudanças podem causar em nós a equivocada noção de que a primeira perspectiva é correta: que a prática é tornar a vida melhor para nós. Na realidade, os benefícios que auferimos pessoalmente são incidentais. A verdadeira razão da prática é servir a vida da maneira mais plena e produtiva que pudermos. E isso é muito difícil para a nossa compreensão, sobretudo a princípio. "Você quer dizer que devo tomar conta de alguém que acabou de me destratar? Isso é loucura!" "Você está dizendo que devo desistir do que é conveniente para mim para servir alguém que nem gosta de mim?"



Nossas atitudes centradas em nosso ego têm raízes profundas e levam muitos anos de árdua prática para afrouxá-las um pouco. E estamos convencidos de que a prática diz respeito à primeira perspectiva, de que iremos conseguir alguma coisa dela que seja maravilhosa para nós.



A verdadeira prática, contudo, é muito mais voltada para enxergarmos como nos ferimos e magoamos aos outros com pensamentos e atos iludidos. É enxergarmos de que maneira magoamos os outros, talvez por estarmos simplesmente tão perdidos em nossos próprios pensamentos que nem sequer conseguimos vê-los. Não acho que de fato causemos danos aos outros; é só que não vemos muito bem o que estamos fazendo. Posso saber como está indo a prática de uma pessoa vendo se seu interesse pelos outros está aumentando, interesse que vai além do que meramente EU quero, do que está ME ferindo, de como a vida é terrível, e assim por diante. Esse é o sinal de uma prática que está avançando. A prática sempre é uma batalha entre aquilo que queremos e aquilo que a vida quer.



É natural ser egoísta, querer o que se quer, somos inevitavelmente egoístas até que enxerguemos uma alternativa. A função de lecionar num centro como este é ajudar a enxergar a alternativa e incomodar-nos em nosso egoísmo. Enquanto estivermos presos na primeira perspectiva, governados pelo desejo de nos sentir bem ou em estado de graça, ou iluminados, nós precisamos ser incomodados. Precisamos ser contrariados. Um bom centro e um bom instrutor trabalham para isso. Afinal de contas, a iluminação é apenas a ausência de todo interesse ou preocupação por si. Não venham a este centro para se sentirem melhor; este não é o lugar para isso. O que quero são vidas que cresçam para que possam tomar conta de mais coisas e de mais pessoas.

CHARLOTTE JOKO BECK [Nada de Especial- Vivedo Zen]



05 fevereiro, 2003

Próxima vida: agora

“próxima vida” significa este momento.

Mestre Zen Seung Sahn [ A Bússola do Zen]