12 janeiro, 2003

Prosperidade e Bem-Estar

Prosperidade e bem-estar é tudo que as pessoas querem na vida, depois de saúde e paz ou talvez até antes.
Porque prosperidade bem-estar são sinônimos de felicidade. Mas tudo isso é apenas um degrau de uma longa escada que não leva ao paraíso. Além do mais, no Zen, o céu não é o limite. Porque o céu (nirvana) tb. é uma manifestação de nossos desejos de bem-estar, paz, serenidade, pureza... Um dia a nuvenzinha se desfaz e cai-se do céu para sabe-se lá onde. Por isso aqueles que alcançam o céu e param de praticar podem voltar para o ciclo de nascimento e morte, o chamado samsara, ou até cair em reinos inferiores. Do céu para o inferno.
A única condição mais favorável é atingir a liberação completa de todas as ilusões e todos os carmas.
Então não há mais ir e vir. Poucos são os que chegam a esse nível de prática, por isso mesmo não sendo completa, as práticas que contém forte apego, chamadas de praticas devocionais, ainda assim, são melhores do que nenhuma prática. Elas representam degraus que vão levando, ainda que lentamente, os seres a possibilidade de despertar pelo prática da realização da nossa verdadeira natureza. Quem pratica assim não veio do nada. Já praticou por muitos kalpas [eras] em outras formas e foi evoluindo, evoluindo, até chegar no degrau mais próximo da Luz.

Portanto se alguém vir até vc. falando de prosperidade e bem-estar e ao mesmo tempo usar o rótulo de budista, ou qualquer outro, gire os calcanhares e dê no pé, pq. é furada. A não ser que vc. queira ter essa experiência. Digo, ou pagar pra ver...

Há um espantoso crescimento, inclusive no Brasil de seitas assim, que só estão interessadas em tirar dinheiro dos desesperados incautos. Fazem marcação cerrada nas ruas, nos metrôs, em lugares públicos, bem no estilo evangélico agressivo. Criticam o budismo tradicional e o método de meditação. Usam apenas um mantra, o título de um sutra que veneram como único ensinamento, além do líder da seita, que se auto proclamou um Buda.

O Buda [histórico] disse:”Não acredite em nada que eu disser se vc. não puder comprovar em si mesmo.”
Por isso seus ensinamentos eram considerados por ele como remédios. Estamos todos doentes. O mundo está doente, sempre esteve e sempre estará doente. As pessoas procuram por cura em todos os cantos e quem lhes prometer uma esperança de cura, é ali que elas vão tentar.
É preciso saber se as pessoas e seus remédios são no mínimo confiáveis. Como? Procurando as instituições de referência, os mestres mais conhecidos. Alunos mais experientes.

O fato é que eles sabem ser convincentes e até escrevem textos muito bons, mas quando vc. entra no universo da prática em uma sanga, é que vc. vê como a banda toca por lá. Por tanto é importante conhecer a comunidade de praticantes, chamada sanga. É importante conhecer, mas não se deve decidir ficar em um lugar tão rápido. Se houver dúvida, melhor ser paciente e praticar em casa mesmo, até esclarecer as dúvidas.

É claro que no budismo tb. tem culto à prosperidade, e ao bem-estar, mas está é uma característica herdada do oriente e um pouco da mistura com o cristianismo.

Pelo menos entre os ocidentais (fora dos templos onde há imigrantes e descendentes) não é uma prática incentivada: fazer mantras uma hora por dia ou todo dia, para conseguir algum benefício material, não é bom nem ruim. Toda troca tem seu preço. Vc. pode conseguir, e geralmente consegue, em qualquer tradição onde haja culto de devoção a alguma manifestação dita divina, mas o que vc. consegue um dia lhe será cobrado.
A graça existe, mas ela não é de graça.

Na escola em que prático se costuma recitar o mantra ao buda amitaba ou para bodisattvas como Avalokitesvara ou Manjushi para conseguir coisas. O Mestre Seung Sahn diz que isso não é bom nem ruim, mas o melhor seria não fazer com tais intenções pois isso se reverte invariavelmente em mais carma para quem usa de qualquer prática como barganha, assim como a prática do zazen, as prostrações, tb. não deve ter qualquer finalidade barganha. Pratica-se para curar nossas margas, dissolver nosso carma, clarear a mente, e então temos tudo. Nada precisa ser pedido, pq. tudo já nos foi dado, apenas não sabemos, não vemos ou não temos acesso. Praticamos para despertar dessa ignorância.

Admitamos que é exatamente esse tipo de prática (de veneração) que mais atrai as pessoas em geral. Estamos lidando com ignorância (ilusão, ausência de iluminação). Melhor estar praticando de alguma forma do que de nenhuma. Apartir daí a mente pode ser transformada. O que não pode é se deixar levar por terroristas e trapaceiros que usam a fraqueza e a ingenuidade, ou nossos maus momentos para encher seus bolsos.

Um bom resumindo feito pelo Eduardo:

Existem três formas de praticar:

1.Melhorar a experiência no samsara;
2.Ir do samsara ao nirvana;
3.Reconhecer que samsara e nirvana são vacuidade.

As três são essenciais e precisam ser ensinadas sempre, porque os seres precisam destes ensinamentos. A primeira é basicamente ética, visão correta.
A segunda é basicamente o caminho espiritual, a prática no sentido mais usual - fazer isto para conseguir aquilo.
A terceira é a própria realização, além de esperança e medo, de algo a obter.

No Zen, usualmente ensina-se a praticar de acordo com a terceira, mas nem todo mundo é capaz desse nível, então eles, ao tentar praticar este nível, praticam o segundo. Em todos os casos, em todas as tradições budistas, o primeiro nível é essencial, pois sem ele você nem tem tempo ou possibilidade de praticar. Em geral os ensinamentos estão centrados neste nível, não só sobre COMO melhorar a experiência do samsara, mas sobre O QUE SEJA uma experiência melhor de samsara.
A melhor experiência de samsara é a que permite a prática do Dharma, não a mais prazerosa ou agradável.

[Eduardo Pinheiro]

Em 3, apenas reconhecer que samsara é nirvana são vacuidade não garante a realização.
Eu incluiria um 4. Ir além da vacuidade. Atingir a Grande Perfeição da Sabedoria.
Onde tudo é assim como é.

"De maneira hábil, Buddha diz que este é um caminho, aquele é outro, e aquele outro é um terceiro caminho para as pessoas escolherem, mas, na verdade, só há um caminho (sânsc. ekayana)." [...]

Thich Nhat Hanh [Cultivando a Mente de Amor]

Então escolha seu caminho, mas não peça nada em troca. Cabe a vc. dar muito mais que pedir.
A prática já é uma forma de doação.


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