02 dezembro, 2002

A prática é esta: É estar aqui.


É voltarmos ao primeiro instante, quando podíamos estar completamente aqui. Antes de fugirmos para as lembranças, os projetos, etc. Estar tranqüilamente no centro de tudo que existe, sem véus, sem separações com respeito à felicidade e ao sofrimento. A isto nós chamamos não-ego, não-sofrimento.


Como ser justo na vida cotidiana?

É importante nesse caminho a adequada utilização da palavra, porque penso que intuitivamente sabemos quando algo é ou não é justo.

Muitas vezes isso fica muito claro, por exemplo, quando vocês estão com amigos e dizem algo inconveniente, que talvez fosse melhor não ter dito. Naquele momento pareceu mais interessante chamar a atenção, aparentar saber mais que os outros ou ser o primeiro a dizer aquilo, mas, no fundo, sabíamos que não era a melhor coisa a ser dita. Não era justo.

Justo significa adaptado à situação. Uma maneira de manter a atenção sobre a nossa vida a cada momento. Sobre como ela é e não como gostaríamos que fosse. Há, então, um tipo de manipulação interessante. Tentamos empurrar as pessoas e as coisas para exercer o nosso desejo. Então dizemos: "Ah, se essa pessoa pudesse fazer assim ou assado, se pudesse ser mais gentil..." mas se ela não age como desejamos, ficamos enraivecidos. E certamente os outros estão fazendo o mesmo conosco... O estudo das Quatro Nobres Verdades pode nos fazer compreender comportamentos de nossa vida cotidiana. Porém, isso é teórico, uma elaboração mental.

Muitas vezes compreendemos que deveríamos mudar em alguns aspectos. Nosso caráter, nossa maneira de ser. É muito difícil mudar. É por isso que a prática budista está baseada na meditação. Sidarta é o exemplo. Há muitas falsas idéias sobre a meditação. Primeiro, vou lhes dizer o que a meditação não é. Não é um refúgio para nos apartar dos outros, do mundo. Não é alcançar um pequeno paraíso com nuvenzinhas e pequenos anjos que pulam por todo lado. Não é sentar para olhar o próprio umbigo, nem para fazer um estudo psicológico de si mesmo, nem para ter tempo de cuidar de tudo que deve ser feito durante o dia. Não é relaxamento. Praticar meditação é estar preparado para olhar aquilo que está dentro de nós, nossa cólera, medo e frustração.

Tudo o que fechou nosso coração a nós mesmos e aos outros. Meditar é um longo trabalho, física e moralmente doloroso. Pode ser mesmo aborrecido, mas é absolutamente necessário. às vezes utilizamos uma comparação: Não podemos ver através de um copo com água lamacenta, devido às impurezas em suspensão. Se colocarmos o copo tranqüilamente sobre a mesa, aos poucos as impurezas vão decantando e a água vai ficando límpida, pura e transparente. Da mesma forma, nosso espírito está constantemente agitado com projetos, desejos, contentamentos, descontentamentos e recordações. É impressionante nossa primeira meditação, quando vemos tudo isso em nossa cabeça.

Nos textos clássicos, o espírito é comparado a um macaco. O macaco é muito interessante de ser observado. Ele pega um objeto, olha, larga, pega um outro, larga... Está sempre em movimento, nunca pára. Pode ser lúdico observá-lo assim, mas se imaginarmos o macaco conosco durante as 24 horas do dia, seria muito cansativo. Contudo, nós fazemos a mesma coisa. Nossa mente não repousa. Aí está a importância da meditação.

É preciso prestar atenção, pois começamos, evidentemente, com a idéia de nos tornarmos uma pessoa melhor. Vamos deixar de sofrer, vamos estar em harmonia com as demais pessoas. Começamos logo por nossos desejos. Não são desejos materiais, são desejos espirituais. Além disso, temos a consciência tranqüila, pois dizemos: "Ah, que pessoa maravilhosa, que ser espiritual estou me tornando". Mas a meditação, o zazen, não é isso. É apenas estar lá, sentado. Mesmo sendo desagradável. Só quando estamos enraizados em nós mesmos é que podemos formar uma relação apropriada conosco e com os outros. Uma relação direta, não afetada por nossos sonhos e ilusões. É como uma roda. É necessário um ponto fixo para que a roda possa girar.

Todas as vias espirituais oferecem um caminho. É preciso fazer uma escolha e segui-la com determinação. Não é necessário para isso tornar-se monge. Não é necessário seguir o ensinamento búdico a ponto de deixar a família, os bens, mas será necessário abandonar muitas coisas no caminho, para que possamos avançar mais levemente, sem transportarmos tanto "peso".

Gosto muito da idéia de dançar. Dançar com a vida, levemente, em cada instante.

Não podemos sempre dizer que as coisas estão lá fora, no exterior. É necessário voltar-se para si mesmo. A nossa prática não é uma prática egoísta. Eu realmente penso que tornando mais leve nosso sofrimento, estamos diminuindo o sofrimento de todo o mundo.

É por isso que o ensinamento de 25 séculos do Buda é sempre atual, condizente com nossa vida de hoje. Por isso tornei-me uma monja. Quando comecei a praticar a meditação, pensei: "É a coisa mais importante do mundo". Fui então para o Japão. Procurei um templo e um mestre. Quando os encontrei, raspei a cabeça e me tornei monja. Fiquei vários anos nesse templo e recebi de meu mestre o selo da transmissão "mestre-discípulo", conforme a tradição.

Meu mestre me pediu que voltasse a meu país, a França, e abrisse um mosteiro onde pudesse repassar o que recebi. Ali chegam pessoas leigas para viver, em retiros de alguns dias, uma semana, um mês, a vida de um monge zen: meditação e trabalho.

Há um poema zen que aprecio muito e que diz: "Como a andorinha que voa no céu, completamente livre". Este é o ensinamento.

Zuymyo Joshin Sensei.[ Mestra Zen da escola Soto, superiora do templo "La Demeure Sans Limites"]

Joshin Sensei costuma passar férias na Ilha. Chique, né?


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