19 dezembro, 2002

108 metas para a vida toda



Das 108 metas para a vida toda consegui cumprir 36, 56 este ano.
Já nem me importo mais em ganhar o Oscar. Se o Brasil ganhar vou considerar meta cumprida.
Olhando a lista ainda vai dar tempo de cumprir mais algumas.
Olhando melhor vou refaze-la: excluir algumas coisas e incluir outras.
Coisas que não são mais importantes diante da mudança de direção que se configurou neste ano.
Aprendi que promessa não funciona. Melhor é assumir compromisso com aquilo que desejamos realizar.
E não esquecer de checar com freqüência a lista.
Até o próximo ano, com novas metas, velhas metas.

Até a volta! Continuem praticando. Eu não vou ficar aqui sentanda esperando o ônibus passar.
Vou com ou sem ônibus.

16 dezembro, 2002


Intuition tells me how to live my day
Intuition tells me when to walk away
Could have turned left
Could have turned right
But I ended up here
Bang in the middle of real life

Pessoas Raras

É raro encontrar pessoas que estão verdadeiramente famintas por despertar e praticar- e não querem apenas uma solução para seus problemas, tentando salvar sua pele, ou batendo no ego.

Nos comunicamos e ouvimos com o coração, não com o cérebro sozinho.

Christine Nachmann

Buda está em todo lugar!

Nós tb. podemos estar em todo lugar ao mesmo tempo. De qualquer ponto do cosmo, uma pessoa pode nos tocar, em qualquer lugar em que estejamos. Nós não estamos confinados ao tempo e ao espaço.
Penetramos em todo o lugar; estamos em toda a parte.
Sempre que uma pessoa com uma mente profundamente desperta, toca algo, ela nos toca.
O milagre é possível graças à compreensão da inter-existência.
Se vc. realmente toca uma flor em profundidade, vc. toca o cosmo inteiro. O cosmo não é um nem muitos. Quando vc. toca um, toca muitos e quando toca muitos, toca um.
Como Shakyamuni Buda, vc. pode estar em toda parte ao mesmo tempo. Olhe mais profundamente e verá inter-existindo com todos e com tudo.
Na verdade, apenas o bater de palmas de suas mãos é o bastante para tocar miríades de galáxias.
Cada olhar seu, cada sorriso, cada palavra alcançam longínquos universos e influenciam todos os seres vivos e não vivos. Tudo está em contato com tudo. Olhando com profundidade podemos transformar este mundo. Quanto mais olhamos em profundidade mais leve é o presente. Depende de nós.

Thich Nhat Hanh [Cultivando a Mente do Amor]

14 dezembro, 2002

A mente funciona para criar todos os tipos de mundo


Quando buda emana a grande luz,
As dez direções brilham.
Todos no Céu e na Terra
Podem vê-lo livremente, sem obstruções.

As coisas todas não têm proveniência,
E ninguém pode criá-las.
Não existe lugar algum onde nasçam.
Elas não podem ser discriminadas.

As coisas não tem nascimento e
Tampouco extinção.
Aqueles que entendem isso
Verão Buda e o tocarão.

Se alguém quer conhecer os Budas de outros tempos,
Deveria contemplar a natureza do cosmo:
Tudo nada mais é que construção mental.

É como um pintor espalhando várias cores.
A ilusão se apega a diferentes formas, mas os elementos não têm distinção.

Nos elementos, não há forma, nem não-forma nos elementos.
Não obstante, à parte dos elementos, nenhuma forma pode ser encontrada.

Na mente não há pintura.
Na pintura não há mente.
Não obstante, à parte da mente, nenhuma pintura pode ser encontrada.

A mente nunca pára de manifestar formas, incontáveis, inconcebíveis muitas,
Muitas desconhecidas umas às outras.

Como o pintor que pode não conhecer sua própria mente,
E não obstante pinta graças à mente, assim é a natureza de todas as coisas.

A mente é como um artista, capaz de pintar os mundos:
Os cinco skandas (agregados) nascem do mesmo tipo de funcionamento da mente.
Não há nada que ela não faça.

Se as pessoas sabem de que jeito a mente funciona para criar todos os tipos de mundo,
Elas serão capazes de ver Buda e entender a verdadeira natureza de Buda.


Thich Nhat Hanh [Cultivando a Mente do Amor, Interpretação livre do TNH sobre Sutra Avantamsaka, Cap. XX]

Sangha: Amigos de Prática



Se vc. conta com o apoio de uma sangha, torna-se fácil nutrir sua mente desperta (bodhicitta). Se vc. não tem ninguém que o compreenda e o encoraje na prática de viver o Dharma, seu empenho em praticar pode esmorecer. Sua sangha, família, amigos ou colegas de prática- é o terreno e vc. é a semente. Não importa quanto a semente é vigorosa. Se o terreno não provê nutrição, sua semente morrerá. Uma boa sangha é decisiva para a prática. Por favor procure uma boa sangha ou então ajude a criar uma.

Buddha, o Dharma e a Shanga são as três pedras preciosas do budismo, e a mais importante delas é a sangha. A Sanga contém Buda e o Darma.
Um bom mestre é importante, mas vc. precisa de seus irmãos e irmãs no Darma para ter sucesso na prática.
Vc. precisa escolher amigos que tenham estabilidade na prática e com os quais pode contar.

Tomar refúgio na sanga significa depositar confiança numa comunidade de membros efetivos que praticam juntos o despertar da mente. Vc. não tem que praticar intensamente- basta estar junto a uma sangha onde as pessoas se sintam felizes, vivendo profundamente cada momento de seus dias.

Se uma pessoa transtornada é posta em uma boa sangha, apenas o fato de ela estar lá já é suficiente para realizar uma transformação.

Dois mil anos atrás Buda Shakyamuni anunciou que o próximo Buda receberá o nome de Maitreya, “o Buda do Amor”. Acho que o Buda Maitreya poderá ser uma comunidade e não somente um indivíduo.

“Eu tomo refúgio na sangha” é um voto forte. Com uma boa sangha vc. toca Buda, toca o Dharma e toca profundamente vc. mesmo.

Foi graças à sangha que sobrevivi a muitos momentos difíceis e me tornei capaz de ser um recurso para muita gente.

Thich Nhat Hanh [Cultivando a Mente do Amor]


13 dezembro, 2002

Clarice e o Instante-Já

E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto gregoriano. Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando, sílabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última. Para te dizer o meu substrato faço uma frase de palavras feitas apenas dos instantes-já. Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê o que agora se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia em longitude, latitude e altitude com ação energética dos elétrons, prótons, nêutrons, no fascículo que é a palavra e a sua sombra”. Isso que te escrevi é um desenho eletrônico e não tem passado ou futuro: é simplesmente já.

Clarice Lispector [Água Viva]

12 dezembro, 2002

Zen é simples, sem palavras

Christmas Humphreys, um dos pioneiros a introduzir o Zen na Grã-Bretanha, escreveu que o Zen é muito fácil de ser entendido: Zen é apenas o que vc. faz. Não há um conceito que possa ser descrito com palavras.

Apesar disso usamos palavras para dar alguma idéia sobre o que seria Zen, mas o Zen não precisa de palavras- vc. precisa
experimenta-lo para entendê-lo.

A essência do Zen Budismo é que todos os seres são Buda (iluminados), o que todos devem fazer é descubrir essa verdade por si mesmos.

Todos os seres tem natureza de Buda
Assim como o gelo é feito de água,
Sem a água não há gelo,
sem os seres, não há Budas.

Hakuin Ekaku

Vc. que está lendo isso agora, tb. é Buda. Apenas ache a verdade sobre a sua verdadeira natereza...e vc. encontrará a natureza de Buda

O Zen nos remete a procurarmos dentro de nós mesmos nossa natureza desperta. Não precisamos procurar por respostas fora de nós mesmos; nós podemos enconta-las no mesmo lugar onde encontramos as perguntas.

As pessoas não podem aprender essa verdade filosofando ou através do pensamento racional, nem estudando os Sutras, participando
de rituais religiosos.

O primeiro passo para praticar é usar técnicas de meditação que irão disciplinar seu corpo e sua mente.

A essência do Zen-Budismo é atingir diretamente o despertar através da uma única mente original (natureza original); sem a intervenção do intelecto.

Zen é, apenas " deixar ir".

O Zen aponta para algo antes do pensamento, antes de todas as idéias.

Zen não é uma filosofia ou religião.

O Zen tenta libertar a mente da escravidão das palavras e das construções lógicas.

10 dezembro, 2002

Esse mosteiro está bem silencioso...

Wonderful World
Written by - George Weiss and Bob Thiele


I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world

I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world

The colours of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shakin' hands, sayin' "How do you do?"
They're really saying "I love you"

I hear babies cryin', I watch them grow
They'll learn much more than I'll ever know
And I think to myself, what a wonderful world
Yes, I think to myself, what a wonderful world


Tema de Casa

Mas que resposta rápida, hein? Rs.

-É, vc. tem sorte. Se fosse um mestre, um monge, Lama ou coisa e tal. Só no ano que vem. :)

Eu queria saber quais são as 'grandes diferenças' duma escola pra outra. Afinal, existem diferenças, ou então não existiriam escolas, não é mesmo?

-Pelo que eu sei, basicamente as diferenças são na prática. As formas de prática são muitas. Só experimentando mesmo.

Há um mestre zen coreano que explica bem as diferenças. Vc. deu sorte pq. estou lendo um livro dele agora. Sugiro que se vc. puder tb. o leia: A Bússola do Zen. Mestre Seung Sa Ed. Bodigaya

Ele fala que existem três principais tradições: O Hinayana, O Mahayana e o Zen-Budismo.
Buda teria ensinado todos eles, gradativamente em diferentes períodos, a medida que a mente de seus alunos fosse progredindo. Ele viu que até onde ele havia chegado seria muito díficil para as pessoas do seu tempo entenderem, então ele começou do mais fácil.
Os hinaynistas mais ortodoxos não concordam, pois se apegam aos sutras e dizem que não há nada neles que prove que o Buda teria ensinado além do Hinaya.

O Budismo Hinayana ensina que quando o pensamento aparece, o “eu” aparece. Quando o ‘eu’ aparece o mundo inteiro é dividido em pares de opostos, dualidades. Esse pensamento causa sofrimento. Assim o Hinayana ensina que quando a mente aparece o Dharma aparece. Quando o Dharma aparece, nome e forma aparecem.
O budismo Hinayana explica que vivemos neste mundo impermanente, neste mundo de sofrimento, e nos mostra como sair dele. Alcançar o Nirvana é o objetivo supremo do Hinayana.”

No mais o Hinayana se concentra no estudo dos Sutras do Cânone Pali (84.000 sermões). É um budismo eminentemente monástico, onde se prática muitas regras, votos de pobreza, castidade entre outros tantos. Segue-se rigorosamente as regras (Vinaya) e o que está escrito nos Sutras é a Lei. Os leigos praticam a meditação Vipassana e tomam os cinco votos, recita-se o sutra de metta, os três refúgios em pali, etc. Vc. pode conhecer melhor o Hinayana no site do acesso ao insight

O ensinamento Mahayana começa onde o Hinayana acaba. Ele nos mostra como alcançar o “mundo completo”, partindo da experiência da vacuidade. Isso significa que se sua mente é completa, tudo então é sempre completo. O sol, a lua, o sofrimento é completo. A felicidade também é completa. Não há dentro ou fora. Não há sujeito ou objeto.Vc. é o universo; o universo é vc. Esse “mundo completo” significa verdade quando a sua mente corta todo o pensamento, não há pensamento. Não haver pensamento significa não haver “eu”. Quando não há “eu” sua mente se torna clara. O céu é azul, a árvore é verde, o cão faz: au, au, nada além, tudo completo.
O budismo Mahayana significa compreender que tudo tem natureza vacuosa e como a partir dessa verdade ajudar todos os seres, vida após vida. Às vezes chamamos isso de Grande Amor, Grande Compaixão ou Caminho de Bodhisattva.”

São escolas do Budismo Mahayana (nesta formulação do mestre Seung Sa) O Budismo Vajrayana, mais conhecido como Tibetano, Terra Pura entre outras.


Já falei sobre as práticas no Budismo Tibetano em posts anteriores, portanto não vou repeti-las.
Inclusive já escrevi sobre as diferenças entre as práticas nas escolas budistas. Dê uma olhada nos arquivos.

Segundo Mestre Seung Sa o Zen-Budismo abrangeria tanto o Hinayana quanto o Mahayana indo mais além.
Em geral se costuma, históricamente dividir o Budismo apenas em Hinayana e Mahayana, sendo assim a Escola Theravada seria Hinayana, e as demais Mahayana.

Reconhecer que tudo é impermanete e que a dualidade é geradora de sofrimento. Buscar superar isto através de práticas ascéticas e solitárias foi o insight inicial. Depois entendeu-se que não se poderia parar ai, ou seja que era necessário ampliar essa prática e não deixa-la restrita apenas ao indivíduo que busca a sua própria salvação. Então passou-se a praticar em benefício de todos os seres, buscando dissolver o ego e recuperar o nosso ‘eu’ original, nossa verdadeira natureza. Para o Zen não há necessidade de ter certezas e seguranças. O Zen aceita que tudo é, tudo existe. Sempre existiu. Não há começo nem fim. Tudo está, sempre esteve, e sempre estará.

O Zen-Budismo nunca fala de absolutos ou opostos. Não tenta explicar a vacuidade, a vacuidade, a verdade, ou o mundo completo. A prática zen “nunca” explica nada. O Zen apenas aponta diretamente para a nossa mente, para o nosso verdadeiro “eu” de forma que possamos alcançar a iluminação diretamente e ajudar todos os seres.Todo o ensinamento Zen simplesmente apenas aponta para a sua mente, nesse instante. "O que vc. está fazendo agora?" O ensinamento Zen sempre nos remete àquilo que podemos chamar de “mundo momento” Esse momento é muito importante. Nesse momento, tudo existe. No momento há o tempo infinito e o espaço infinito. Assim se alcançar o momento, vc. alcançara diretamente todas as coisas. Isso é Zen-Budismo: não há mente, não há Buda, não há Deus. Mas há mente, Buda e Deus.
Logo cada uma das três principais tradições budistas simplesmente usa técnicas para abordar a mesma experiência.”

Se vc. nunca comeu uma melancia e pedisse para um Budista Hinayana para lhe explicar o que é uma melancia ele iria lhe dizer como a melancia é plantada, como ela cresce até ficar madura. Os estágios desde a semente até o fruto.
Se perguntasse a um budista Mahayana , ele lhe descreveria sua forma externa: cor, peso, tamanho. Teorizaria a respeito.
Se perguntasse a um Zen-budista ele seria simples e direto. “pegue uma melancia, consiga uma faca, corte a melancia e prove-a."

Espero ter respondido em parte sua pergunta o resto fica de tema de casa para vc.

Quanto a história do budismo, creio que vc. poderá encontrar alguma coisa sobre isso na net.
Um site bem abrangente sobre todas as Escolas é o Dharmanet
.

08 dezembro, 2002

Hoje comemora-se o dia em que o Buda Sakyamuni teria conseguido
realizar o Perfeito Estado da Iluminação.
Os budistas japoneses chamam de Jodo-E o comemoram no após sete dias de retiro chamado
Rohatsu.

"Sentado sob a árvore Bodhi, a árvore da iluminação, passou por todos os estágios de meditação e atingiu a iluminação, compreendendo a natureza real do sofrimento. Desse momento em diante passou a ser conhecido como o Buda, "o desperto"."


O caminho do despertar

Depois de se banhar no rio Nairanjana, Siddhartha foi para uma região conhecida como Círculo da Iluminação (sânsc. Bodh Gaya) em Bihar, onde os iluminados do passado atingiram o despertar. Próximo ao rio, voltado para a direção leste, Siddhartha sentou-se em meditação sobre um monte de grama kusha, protegido pela sombra da figueira de bodhi. Ele jurou para si mesmo que só se levantaria após atingir a iluminação.


Raios de luz emanaram de seu corpo e de sua cabeça, atraindo a atenção de Mara, o demônio do ego. Mara ordenou que suas belíssimas filhas — a cobiça, a raiva e a ignorância — tentassem seduzir Siddhartha, mas elas não conseguiram distrair sua concentração. Então, Mara enviou outros demônios para assustá-lo, mas eles fugiram de medo!

Por último, Mara jogou flechas, pedras e bolas de fogo, que se transformaram em pétalas e faíscas. Mara, cheio de ódio, retirou-se; Siddhartha continuou a meditar. Primeiro, Siddhartha lembrou-se de suas incontáveis vidas passadas; depois, ele viu o processo de renascimento de todos os seres; finalmente, ele alcançou a verdade última de todos os fenômenos.



Criando mil mãos segurando armas, Mara, sentado no feroz elefante Girimekhala, aproximou-se com seu exército. Pela virtude da generosidade e outras mais, o grande sábio [Siddhartha] os conquistou. [...]

Mais violento que Mara, numa luta que durou toda a noite, foi o Yakkha Alavaka, arrogante e obstinado. pela grande virtude da paciência e do auto-controle, o grande sábio o conquistou. [...]

O elefante real Nalagiri, completamente louco, investiu sobre ele, cruel, como um fogo na floresta ou como um raio. Aspergindo as águas da amizade amorosa, o grande sábio o conquistou.

(Buddha Jayamangala Gatha, citado no Livro das Devoções)


Na primeira guarda ou vigília ele examinou, com seu poder de concentração, a sucessão de nascimentos e mortes durante suas incontáveis vidas. Por ver esse processo remontando ao início dos tempos — nascer sob certas circunstâncias, passar pelos dramas da vida, morrer e renascer — chegou a uma profunda compreensão da impermanência e insubstancialidade da existência. [...] No segundo turno de vigília ele contemplou a lei do karma. Ele viu como a força kármica das ações passadas impele e condiciona os seres através dos sucessivos renascimentos. Ver seres sendo levados pela ignorância através do remoinho de destinos díspares, despertou nele a energia de uma profunda compaixão. Na terceira guarda ele contemplou as Quatro Verdades Nobres e a lei da geração dependente. Ele viu como a mente se torna apegada e como, através do apego, há sofri­mento. Ele compreendeu a possibilidade de descondicionar esse apego e de atingir um ponto de liberdade.

(Citado por Joseph Goldstein em Buscando a Essência da Sabedoria)

No 8º dia do 12º mês lunar de 528 a.C., aos 35 anos de idade, Siddhartha realizou sua própria natureza búddhica (sânsc. buddhata) e, conseqüentemente, compreendeu o sofrimento, sua causa, sua extinção e o meio para extingui-lo. Siddhartha alcançou a iluminação (sânsc. bodhi), e passou a ser conhecido como o Iluminado, o Desperto (sânsc. Buddha), o Sábio dos Shakyas (sânsc. Shakyamuni). Seu corpo dourado resplandecia com as trinta e duas marcas maiores e as oitenta marcas menores de um ser completamente iluminado.

Em miríades de nascimentos vaguei na existência cíclica, antes de descobrir o verdadeiro conhecimento.

À procura do construtor desta casa, cada novo nascimento trazendo mais sofrimento.

Agora conheço você, construtor desta casa! Você não mais me aprisionará.

Demoli o seu topo e destruí sua estrutura até o chão.

A consciência entrou naquele estado incondicionado, o final definitivo da sede do desejo.

(Pathama Buddhabhasita Gatha, citado no Livro das Devoções)


Conta-se que, logo após sua iluminação, o Buddha passou por um homem num caminho que estava perplexo pelo extraordinário esplendor e calma de sua presença. O homem parou e perguntou:

"Meu amigo, quem é você? Você é um ser celestial ou um deus?"
"Não", disse o Buddha.
"Bem, então, será que você é algum tipo de mágico ou mago?"
Novamente o Buddha respondeu, "Não".
"Você é um homem?"
"Não."
"Bem, meu amigo, então quem você é?"
O Buddha respondeu, "Eu sou um desperto".

(Jack Kornfield, Buscando a Essência da Sabedoria)

Buddha


07 dezembro, 2002

Remédios

Como vc. se sente? Cheio ou vazio? Se está cheio, precisa de uma prática para esvaziar, se está vazio, precisa encher.
O Zen-Budismo tem remédio para tudo. Se a mente está cheia, pode-se esvazia-la no Zazen ou fazendo prostrações. Se a mente está vazia, pode-se enche-la com mantras, como:

(jap.) OM Kanzeon Bosatsu
(cor.) Kwan Seum Bosal
(tib.)Om Mani Padma Hum

Buda era conhecido pelo povo como um excelente médico pois tinha remédios para todos os males.
Certa vez ele resolveu fingir que Ele estava doente e pediu que seus monges espalhassem a notícia e pedissem para que as pessoas trouxessem algum remédio que pudesse curar o Buda.
Formaram filas enormes e todos queriam ter a honra de salvar o Abençoado.
Trouxeram-lhe todas os tipos de ervas de poções. Qualquer coisa que encontrassem no caminho.
Cada um que chegava diante do Buda apresentava seu remédio e Buda dizia: Não, esse não serve.
A fila já estava acabando e ninguém tinha encontrado o remédio para a cura do Buda.
No final da fila havia um homem que estava ali meio sem saber porque e quando soube não havia mais tempo para providenciar algo. Chegou sua vez de apresentar seu remédio, então ele disse humildemente:
-Eu nada tenho que possa cura-lo.- Ao que Buda sorrindo respondeu- É exatamente este o remédio que eu preciso. E assim buda ensinou sobre o Vazio.

06 dezembro, 2002

Procura-se Mestres

Nos perguntam com freqüência se para praticar no zen-budismo é preciso ter Mestre, onde e como encontrá-lo. Como se mestre se comprasse no supermercado.

Pessoas passam anos apegados a essa idéia tola-procurar seu mestre- e se esquecem do mais importante: a prática.
Se vc. chegar até um mestre, identificá-lo como tal e isso for recíproco, há conexão. Mas de que servirá tê-lo encontrado se nunca praticou?
Ir ao mestre de mãos vazias é correr o risco de ouvir uma sonora risada um “volte no próximo ano”, no próximo e no próximo.

A busca de um mestre não deve ser mitificada como freqüentemente se vê nos livros e nas discussões, como se o mestre fosse algum Deus inacessível.
Colocar o mestre a frente da prática é como colocar a carroça na frente dos bois.

O mestre vem com a maturidade da prática. Se vc. não vai atrás dele, ele vem atrás de vc. Não importa onde ele ou vc. estejam, quão distante estejam.
Quando estamos prontos, não há como fugir desse encontro. Mas até lá é importante observar todas as opções que estiverem ao nosso alcance cuidadosamente. É tb. tão importante quanto, nos observarmos. Nos perguntarmos constantemente: pq. tal pessoa me atrai mais, me entusiasma mais? Há algo nela que falta em mim? Que relação eu estou buscando nessa pessoa?

Muitos confundem o mestre com pai, mãe, ou terapeuta e transferem para ele suas carências. Ser pai, mãe e terapeuta não é o trabalho do mestre. O trabalho dele é guia-lo no Caminho. Se o mestre ou o aluno tiverem tal comportamento ou ele ou vc. ou ambos estão tendo uma visão incorreta.

05 dezembro, 2002

Presente

Já há algum tempo estava querendo ler “A Bússola do Zen”.
Ontem mesmo estava pensando se poderia lê-lo nas férias – emprestado.
Alguém leu meu pensamento e presenteou-me com o livro.
Não sei se o mereço. Nada tenho e ao mesmo tempo tenho tudo.

Primeiro ilumine-se, depois instrua todo os seres.

Mestre Zen Seung Sahn [A Bússola do Zen, Ed. Bodigaya]

04 dezembro, 2002

Prática em Grupo

Alguns dizem que não é tão bom praticar em grupo, que é melhor em casa, sozinho...
Cada um deve estabelecer as suas prioridades. A prática em grupo se faz necessária não por mim, mas por aqueles que precisam de mim.
Um amigo/a engajados na mesma atividade nos motiva a seguir em frente. Para mim o encontro com um grupo e as pessoas que conheci foram fundamentais para me motivar a praticar e ver que ali tb. tem pessoas que podem me servir de exemplo ou me desafiar .Por outro lado também tem aquelas que precisam do meu exemplo para continuar.
É uma corrente, onde um elo está ligado ao outro, onde todos juntos se fortalecem e se beneficiam.
Praticar sozinho nem sempre é um ato de egoísmo. Temos desafios constantes na prática solitária, mas quando não nos incomoda mais podemos compartilhar nosso esforço com outras pessoas que estão começando, que estão tendo as mesmas dificuldades que já tivemos ou ainda temos. Um apoia o outro.

02 dezembro, 2002

Chame-me pelo meus nomes verdadeiros,
por favor,
para que eu desperte,
e para que a porta do meu coração possa
ficar aberta,
a porta da compaixão.

Thich Nhat Hanh [Paz a Cada Passo]
A prática é esta: É estar aqui.


É voltarmos ao primeiro instante, quando podíamos estar completamente aqui. Antes de fugirmos para as lembranças, os projetos, etc. Estar tranqüilamente no centro de tudo que existe, sem véus, sem separações com respeito à felicidade e ao sofrimento. A isto nós chamamos não-ego, não-sofrimento.


Como ser justo na vida cotidiana?

É importante nesse caminho a adequada utilização da palavra, porque penso que intuitivamente sabemos quando algo é ou não é justo.

Muitas vezes isso fica muito claro, por exemplo, quando vocês estão com amigos e dizem algo inconveniente, que talvez fosse melhor não ter dito. Naquele momento pareceu mais interessante chamar a atenção, aparentar saber mais que os outros ou ser o primeiro a dizer aquilo, mas, no fundo, sabíamos que não era a melhor coisa a ser dita. Não era justo.

Justo significa adaptado à situação. Uma maneira de manter a atenção sobre a nossa vida a cada momento. Sobre como ela é e não como gostaríamos que fosse. Há, então, um tipo de manipulação interessante. Tentamos empurrar as pessoas e as coisas para exercer o nosso desejo. Então dizemos: "Ah, se essa pessoa pudesse fazer assim ou assado, se pudesse ser mais gentil..." mas se ela não age como desejamos, ficamos enraivecidos. E certamente os outros estão fazendo o mesmo conosco... O estudo das Quatro Nobres Verdades pode nos fazer compreender comportamentos de nossa vida cotidiana. Porém, isso é teórico, uma elaboração mental.

Muitas vezes compreendemos que deveríamos mudar em alguns aspectos. Nosso caráter, nossa maneira de ser. É muito difícil mudar. É por isso que a prática budista está baseada na meditação. Sidarta é o exemplo. Há muitas falsas idéias sobre a meditação. Primeiro, vou lhes dizer o que a meditação não é. Não é um refúgio para nos apartar dos outros, do mundo. Não é alcançar um pequeno paraíso com nuvenzinhas e pequenos anjos que pulam por todo lado. Não é sentar para olhar o próprio umbigo, nem para fazer um estudo psicológico de si mesmo, nem para ter tempo de cuidar de tudo que deve ser feito durante o dia. Não é relaxamento. Praticar meditação é estar preparado para olhar aquilo que está dentro de nós, nossa cólera, medo e frustração.

Tudo o que fechou nosso coração a nós mesmos e aos outros. Meditar é um longo trabalho, física e moralmente doloroso. Pode ser mesmo aborrecido, mas é absolutamente necessário. às vezes utilizamos uma comparação: Não podemos ver através de um copo com água lamacenta, devido às impurezas em suspensão. Se colocarmos o copo tranqüilamente sobre a mesa, aos poucos as impurezas vão decantando e a água vai ficando límpida, pura e transparente. Da mesma forma, nosso espírito está constantemente agitado com projetos, desejos, contentamentos, descontentamentos e recordações. É impressionante nossa primeira meditação, quando vemos tudo isso em nossa cabeça.

Nos textos clássicos, o espírito é comparado a um macaco. O macaco é muito interessante de ser observado. Ele pega um objeto, olha, larga, pega um outro, larga... Está sempre em movimento, nunca pára. Pode ser lúdico observá-lo assim, mas se imaginarmos o macaco conosco durante as 24 horas do dia, seria muito cansativo. Contudo, nós fazemos a mesma coisa. Nossa mente não repousa. Aí está a importância da meditação.

É preciso prestar atenção, pois começamos, evidentemente, com a idéia de nos tornarmos uma pessoa melhor. Vamos deixar de sofrer, vamos estar em harmonia com as demais pessoas. Começamos logo por nossos desejos. Não são desejos materiais, são desejos espirituais. Além disso, temos a consciência tranqüila, pois dizemos: "Ah, que pessoa maravilhosa, que ser espiritual estou me tornando". Mas a meditação, o zazen, não é isso. É apenas estar lá, sentado. Mesmo sendo desagradável. Só quando estamos enraizados em nós mesmos é que podemos formar uma relação apropriada conosco e com os outros. Uma relação direta, não afetada por nossos sonhos e ilusões. É como uma roda. É necessário um ponto fixo para que a roda possa girar.

Todas as vias espirituais oferecem um caminho. É preciso fazer uma escolha e segui-la com determinação. Não é necessário para isso tornar-se monge. Não é necessário seguir o ensinamento búdico a ponto de deixar a família, os bens, mas será necessário abandonar muitas coisas no caminho, para que possamos avançar mais levemente, sem transportarmos tanto "peso".

Gosto muito da idéia de dançar. Dançar com a vida, levemente, em cada instante.

Não podemos sempre dizer que as coisas estão lá fora, no exterior. É necessário voltar-se para si mesmo. A nossa prática não é uma prática egoísta. Eu realmente penso que tornando mais leve nosso sofrimento, estamos diminuindo o sofrimento de todo o mundo.

É por isso que o ensinamento de 25 séculos do Buda é sempre atual, condizente com nossa vida de hoje. Por isso tornei-me uma monja. Quando comecei a praticar a meditação, pensei: "É a coisa mais importante do mundo". Fui então para o Japão. Procurei um templo e um mestre. Quando os encontrei, raspei a cabeça e me tornei monja. Fiquei vários anos nesse templo e recebi de meu mestre o selo da transmissão "mestre-discípulo", conforme a tradição.

Meu mestre me pediu que voltasse a meu país, a França, e abrisse um mosteiro onde pudesse repassar o que recebi. Ali chegam pessoas leigas para viver, em retiros de alguns dias, uma semana, um mês, a vida de um monge zen: meditação e trabalho.

Há um poema zen que aprecio muito e que diz: "Como a andorinha que voa no céu, completamente livre". Este é o ensinamento.

Zuymyo Joshin Sensei.[ Mestra Zen da escola Soto, superiora do templo "La Demeure Sans Limites"]

Joshin Sensei costuma passar férias na Ilha. Chique, né?