14 outubro, 2002

Le Pèlerin de Compostelle



Vi meu ex-livro, Le Pèlerin de Compostelle.
E pensar que estive à porta de Mme Jeanne Savin em Saint Jean Pied-de Port sur les Pyrénées, e não bati nela! (na porta)
O que eu teria encontrado atrás daquela porta? Uma gorda, sonolenta senhora francesa, que me olharia com aquele ar de “mais uma chata querendo o ticket refeição do peregrino”. E quando ela ouvisse meu nome....Será que seu humor mudaria?
- Oh! Mlle, Jeane! Entre, entre, s’il vous plait!
Jamais vou saber. Não bati na porta. Será que ter batido naquela porta teria mudado meu destino?
Mme Savin vai ter que esperar porque não tem chance de eu voltar lá tão cedo para repetir a façanha de olhar a porta e não bater.
Quem sabe ela teria dito.
-Por que vc. demorou tanto. Eu estive te esperando, por longos anos! Quem sabe, ela não diz isso para todos!
Nunca vou saber. Não devo ser a única que foi até lá e não bateu na porta.
Portas me perseguem. É aquela velha história: quando vc. não quer, eles te perseguem. Quando vc. quer, todos fogem. Acha que vou continuar esnobando as portas, pq. na maioria das vezes elas me parecem senhoras sedutoras: venha, venha... E eu não vou. Não vou não! Portas devem ser o meu carma. Eu atraio portas. Enquanto eu não bater na porta certa sempre vai ter outra e outra porta na minha frente. Enquanto eu desvia-las ou ficar petrificada em frente a elas, novas portas cruzarão no meu caminho.
E aquela história que uma porta não se abre duas vezes, que as portas estão mais a se fechar do que a se abrir.
Como um raio que não cai duas vezes no mesmo lugar. Será? No meu caso o provérbio não comparece dessa maneira. As portas que o digam.
A única porta que eu queria abrir é a porta da mente. Mas nessa tenho que ficar de olho porque qualquer ventinho de nada e ela se fecha. Aí tenho que procurá-la novamente como quem procura um grão de areia num infinito oceano de possibilidades, começando do zero. Não um grão de areia qualquer, mas aquele exato grão, trazido à tona ao acaso, pescado de primeira. Ufa! Começar de novo. A procura por uma frestinha, o buraco da fechadura, a chave. Começar do zero todos os dias, isso é mente zen ou mente de principiante.

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