31 outubro, 2002

O eterno não tem presente, passado ou futuro


Não é difícil descobrir tua Mente Búdica
Simplemesnte deixe de procurá-la.
Deixe de aceitar e rejeitar possíveis lugares
Onde pensas que ela possa estar
E ela aparecerá diante de ti.

Cuidado! O menor sinal de preferência
Abrirá um abismo largo e profundo
como o espaço entre o céu e a terra.

Se queres encontrar tua Mente Búdica
Não tenha opiniões sobre nada.
Opiniões produzem argumento
E a disputa é uma doença da mente.

Submerge nas profundezas.
A quietude é profunda. Não há nada profundo em águas razas.
A Mente Búdica é perfeita e engloba o universo.
Não tem carência de nada e nada tem em excesso.
Se pensas que podes escolher entre as suas partes
Perderás de vista a sua verdadeira essência.

Não te apegues às aparências, às coisas opostas,
às coisas que existem como relativas.
Aceite-as com imparcialidade
E não terás que perder tempo com escolhas sem sentido.

Os julgamentos e discriminações bloqueiam o fluxo
e trazem as paixões.
Irritam a mente que precisa de quietude e paz.
Se vais de se a senão, de isto a aquilo,
ou quaisquer dos inumeráveis opostos,
Perderás de vista o todo, o Uno.
Seguindo um oposto estarás te extraviando,
para longe do centro de equilíbrio.
Como esperas alcançar o Uno?

Decidir o que é, é determinar o que não é.
Mas determinar o que não é pode te ocupar tanto
que acaba se convertendo no que é.
Quanto mais falas e pensas, mais longe te encontras.
Deixa de falar e de pensar, e o encontrarás em todas as partes.

Se deixares todas as coisas voltarem à sua origem, está bem.
Mas se paras para pensar que esta é sua meta
E que é disto de que o sucesso depende,
E lutas e lutas ao invés de simplesmente deixar ir, Não estarás practicando Zen.
No momento em que começas a discriminar e a preferir
perdes o caminho.
Buscar o real também é um falso ponto de vista
que deveria ser igualmente abandonado.
Deixa passar! Deixa de buscar e de escolher.
As decisões dão lugar às confusões,
e aonde pode chegar uma mente confusa?

Todos os pares de opostos vêm da Única Grande Mente Búdica.
Aceita os opostos com dócil resignação.
A Mente Búdica permanece calma e quieta,
Mantenha sua mente nela e nada poderá te perturbar.
O inofensivo e o danoso deixam de existir.
Os sujeitos, quando liberados de seus objetos, desaparecem
Tão certamente quanto os objetos,
quando liberados de seus sujeitos, desaparecem também.
Cada um depende da existência do outro.
Entenda esta dualidade e verás
que ambos provêm do Vazio do Absoluto.

A base de todo Ser contém os opostos.
Todas as coisas se originam do Uno.
Que perda de tempo escolher entre grosso e fino.
Já que a Grande Mente faz nascer todas as coisas,
Abrace-as todas e deixe morrer teus preconceitos.

Para realizar a Grande Mente não sejas vacilante nem ansioso.
Se tentar pegá-la, agarrarás o ar
e cairás no caminho dos heréticos.
Onde está o Grande Tao? Podes deixá-lo?
Ele permanecerá ou se irá?
Não está em toda a parte esperando por você
para unir a tua natureza com a Sua
e ficar livre de problemas como Ele é?

Não canse tua mente te preocupando em saber o que é real
e o que não é,
Sobre o que aceitar ou o que rejeitar.
Se queres conhecer o Uno,
deixe teus sentidos experimentarem o que vier,
Mas não seja influenciado e nem te envolvas no que vier.
O sábio age sem emoção
e parece nem estar agindo.
O ignorante permite que suas emoções o envolvam.
O sábio compreende que todas as coisas são parte do Uno.
O ignorante vê diferencas em toda parte.

Todas as coisas são iguais em sua essência,
assim apegar-se a algumas e abandonar outras É vivir no engano.
A mente não é juiz equânime de si mesma.
Tem preconceitos a favor ou contra si mesma.
Não pode ver nada objetivamente.

Bodhi está além de toda noção de bem e mal,
além dos pares de opostos.
Os devaneios são ilusões e as flores nunca florecem no céu.
São invenções da imaginação e não merecem ser considerados.
Ganho e perda, certo e errado, grosso e fino.
Deixa todos irem!
Permanece atento. Mantém abertos teus olhos.
Teus devaneios desaparecerão.
Se não fizeres julgamentos, tudo será
exatamente como deve ser.

Profunda é a sabedoria do Tathagata,
Excelsa e além de todas as ilusões.
Este é o Uno a que todas as coisas retornam
desde que não as separe,
mantendo algumas e afastando outras.
De qualquer modo, onde as deixaria?
Todas estão dentro do Uno.
Não há fora.

O Supremo não tem modelo, dualidade,
e nunca é parcial.
Confia nisto. Mantém viva a tua fé.
Quando abandonas todas as distinções nada sobra
exceto a Mente que é agora pura, que irradia sabedoria,
e nunca se cansa.

Quando a Mente abandona as discriminações
Os pensamentos e os sentimentos não podem sondar suas profundezas.
O estado é absoluto e livre.
Não há nem eu nem o outro.
Apenas te darás conta de que és parte do Uno.
Tudo está dentro e nada está fora.

Os sábios do mundo todo compreendem isto.
Este conhecimento está além do tempo, seja longo ou curto,
Este conhecimento é eterno. Nem é e nem não é.
O todo é aqui e o menor é igual ao maior.
O espaço nada pode confinar.
O maior é igual ao menor.
Não há limites, nem dentro nem fora.
O que é e o que não é são a mesma coisa,
Porque o que não é é igual ao que é.
Se não despertares para esta verdade,
não se preocupe.
Apenas creia que tua Mente Búdica não é dividida,
Que ela aceita tudo sem julgamento.
Não preste atenção a palavras, discursos, ou métodos bonitos
O eterno não tem presente, passado ou futuro.


Hsin-hsin-ming, Gatha de Seng T'san, Terceiro Patriarca Chan
Versão em Português por Chuan Yuan Shakya
(baseada na tradução para o Inglês)
Ser um com o Buda. Ser um com o Dharma. Ser um com a Sangha. Ser Buda.

Tomar Refúgio nas Três Jóias
[Na tradição Ch’an Chinês]

Todos recitam Sutras e fizem o juramento em respeito ao Buda, ao Dharma e à Sangha, se arrependendo de seus erros das vidas presente e passada.

Os novos discípulos fazem votos de observância dos Cinco Preceitos:

1. Não matar
2. Não roubar
3. Não ter um comportamento sexual inadequado
4. Não mentir
5. Não fazer uso de substâncias tóxicas

É aspergida, sobre todos os participantes, a água abençoada, que simboliza o néctar do Dharma.

Todas proferem os Quatro Grandes Votos, que são:

1. Ajudarei ilimitadamente a todos os seres sencientes.
2. Erradicarei todo sofrimento extinguindo paixões e ilusões.
3. Estudarei e praticarei o Dharma ilimitadamente.
4. Farei todo o esforço para trilhar o Caminho do Buda.

O mestre concede a cada um dos discípulos um nome de Dharma [que descreve uma qualidade que o discipulo tem e outra que ele precisa ter], presenteando-os com um belo certificado.

A Jóia Tríplice é o conjunto dos ensinamentos de Buda. Refugiar-se nela significa aceitar o Buda como professor, o Dharma como ensinamento e a Sangha como congregação.

Ao nos refugiarmos na Jóia Tríplice, nos tornamos discípulos de Buda e concordamos em não seguir ensinamentos de doutrinas obscuras.

A cerimônia do refúgio é importante, uma vez que ela marca o início de nosso compromisso com Buda, com o Dharma e a Sangha.

Apenas aqueles que já tomaram refúgio na Jóia Tríplice podem realmente se denominar budistas. Mesmo respeitando o Buda ou passando muito tempo em templos budistas, uma pessoa não pode se denominar budista se não tiver tomado refúgio na Jóia Tríplice. Aquele que ainda não o fez é um simpatizante do Budismo, não um discípulo.

28 outubro, 2002

Perguntas mais freqüentes sobre Meditação



A Meditação é um sistema milenar de purificação mental, praticado por várias tradições, em várias épocas e lugares. A Meditação Ch'an, praticada e ensinada pelo Buda Shakyamuni, tem suas raízes na Índia. Bodhidharma, monge budista, ao deixar a Índia em direção à China, no séc. VI d.C., para ensinar o Dharma, tornou-se o primeiro patriarca Ch'an nesse país e levou com ele a prática da Meditação.

A Meditação Ch'an nos permite afrontar todas as tensões e problemas da vida de maneira calma e equilibrada. A prática contínua da Meditação é capaz de eliminar as tensões que vão se desenvolvendo na vida diária, desfazendo os nós que foram atados por nosso velho hábito de reagir de forma desequilibrada tanto às situações negativas, quanto às positivas.

Abaixo, as perguntas mais freqüentes sobre Meditação:

Meditar é uma maneira de fugir da pressão do dia-a-dia?

A Meditação é uma experiência de viver a vida na sua plenitude, não importando se é dolorosa ou prazerosa.

É abraçar a realidade e mergulhar tão profundamente no ato de viver, rompendo a barreira dos desejos materialistas.

A Meditação Ch'an é um treinamento com a finalidade de absorver a realidade, as dificuldades e o estresse do dia-a-dia, vivenciando plenamente a vida, tentando resolver seus problemas.

Ch'an não é uma tentativa de fuga da pressão do cotidiano, nem de disfarçar as dificuldades que surgem, é um aprendizado, um ShiouHsing, de observar como nosso comportamento reage a obstáculos e como somos, aceitando-nos para fazermos a transformação definitiva.

Meditar é só para religiosos? Meditar é religião?

Meditação não é religião, nem é só para religiosos, mas a figura do Mestre no Oriente é muito comum entre os monges ou sábios e eles são muito reverenciados por serem representantes de instituições, templos ou escolas de artes marciais, de pintura, escultura e de filosofia.

Sobretudo no costume oriental a imagem de Mestre, Shi Fu, é de alguém que indica o caminho que você deve seguir e não na figura de pai bondoso que te dá conforto e proteção.

E se eu descobrir que minha vida está errada? A Meditação é perigosa? Pode mudar a nossa vida? O que faço com o medo?

Tudo na vida é perigoso e cheio de riscos.

Viver é perigoso.

Dirigir na rua, voar de avião , viajar no mar é arriscado. Mesmo em casa você pode tropeçar e cair.

Tudo na vida envolve riscos, de sincronicidade condicional e causa e efeito, o YingUen.

Muitas vezes emoções encobertas por muitos anos podem provocar o medo de perder o controle, incapacidade de se defender, a mudança drástica do rumo de nossa vida.

O Ch'an é um processo suave e gradual que corrige devagar o rumo da nossa vida, que traz conscientização sobre nossa verdadeira natureza e realidade.

Entretanto, se quiser acelerar o processo de transformação, é conveniente buscar orientação individual.

Meditação é uma técnica de relaxamento?

Uma das conseqüências da Meditação Ch'an é um estado de relaxamento e tranqüilidade da Mente.

O relaxamento das tensões do cotidiano, a dissolução do stress e das mágoas do nosso coração são resultados perceptíveis.

Mas a proposta do Ch'an vai mais além.

Ch'an é Iluminação, a compreensão da vacuidade, a libertação do Ego.

É caminho de interiorização, da atentividade.

Na realidade, há procedimentos de relaxamento que enfocam a concentração da Mente, e a conduzem a repousar num objeto, numa imagem ou num tipo de pensamento.

Se a prática for adequada, o Meditante consegue tranqüilidade e paz interior muito grande, podendo atingir o êxtase

É por aqui que a maioria dos outros sistema ou técnicas estacionam e não avançam mais.

Meditação é entrar em transe?

Talvez em outros tipos de Meditação, mas não se aplica à Meditação Ch'an, ao treinamento Ch'an, ao ShiouHsing.

É uma interiorização, uma focalização para dentro do nosso Self, por isso não é hipnose, nem obliteração da Mente, muito menos, dispersão dos sentidos.

No ShiouHsing, nossa consciência se torna mais nítida e límpida, temos maior controle sobre as alterações emocionais do dia-a-dia, nos tornamos mais precisos e perspicazes.

Na auto-sugestão ou hipnose, a pessoa está sobre controle do outro, e como no Ch'an ocorre uma profunda observação de si, a pessoa fica sobre seu próprio controle, em estado de Kuang (atentividade).

Entretanto, se durante a Meditação você perder o controle ou sentidos, é porque não está treinando de acordo com a definição do sistema Ch'an.

Ch'an é o cultivo da atentividade e da observação da própria interiorização.

Meditação significa isolamento, afastar-se do mundo materialista?

Aparentemente, o Meditante está isolado, passando horas sozinho, ele e a sua almofadinha, fugindo da realidade.

Será que ele não deveria estar fazendo obras de caridade, ajudando vítimas da guerra, vítimas da fome e vítimas do capitalismo selvagem, não deveria estar cuidando dos velhos e das crianças abandonadas?

O Meditante não está isolado e nem quer fugir do mundo materialista.

Ele está motivado pelo ShiouHsing, que significa purificar-se e harmonizar-se; sua vontade é Mahayana, o grande Veículo de travessia do sofrimento humano.

Mas antes de partir para obras sociais ou ajudar o próximo, o Meditante precisa controlar seu Ego, assim suas atitudes não se transformarão em ampliação do próprio prestígio e poder do Objeto Referência em ação.

O propósito do Meditante é dissolver da sua Mente sentimentos difíceis como desejo, rancor, impulso, preconceito, mágoa, lassidão.

Trabalhar duro na Meditação para conseguir abandonar a cobiça, a insensibilidade e o medo.

Enquanto não se desprender desses sentimentos primitivos, os empreendimentos feitos para os outros, muitas vezes, se transforma em negócio próprio.
Meditação favorece nobreza de pensamento e atitude sublime?

Não, a Meditação Ch'an não traz nenhum tipo de pensamento nobre ou sublime, Ch'an é a própria nobreza.

Existem alguns sistemas de Meditação de contemplação que focalizam a nobreza de atitude e nobreza de espírito como objetivo.

Na linhagem Ch'an, a nobreza de espírito e atitude são apenas um meio, não são finalidade.

Não podemos evitar que esses pensamentos apareçam, mas também não podemos nos apegar a eles.

Ch'an é prática, é ShiouHsing, apenas isso, nada mais.



25 outubro, 2002

Se eu não fizer agora, quando farei?

Quando o Tenzo disse ao Mestre Dogen “Os outros não são eu”, ele quis dizer deixar um pouco o apoiar-se nos outros, que era necessário parar com essa atitude de deixar as coisas para que os outros as façam.
Temos que deixar de pensar nos outros, porque os outros não podem viver nossa vida, nem morrer nossa morte. Cada um em cada instante, completos em cada ato. Se eu não o fizer, quem irá fazer?
... A Segunda resposta do Tenzo diz: “Se eu não fizer agora, quando farei?”.
O maior ensinamento do Buda é a impermanência, como posso saber o que acontecerá amanhã?

[Histórias do Mestre Dogen e o Velho Tenzo]
Primeros Passos no Zen


6 capítulos

24 outubro, 2002



O elefantinho mudou de cor!!! Está pink-chovendo.
Mas que novidade! Quem não sabe que aqui chove todo fim de semana?
Ainda bem que eu não sou apegada ao fim de semana.
O que é METTA?

Tenham METTA de mim
Que não durmo com o Cânon Pali de baixo do travesseiro
Mas vivo METTA no dia a dia.
Tenho METTA de quem
Escreve METTA em todos os lugares,
Mas não vive METTA em todos os lugares.
Tenham METTA de mim
Que só tenho METTA para dormir, comer, viver.
Minha tigela é feita de METTA,
Porque eu sou feita de METTA.
O que é METTA?
METTA é meu nome.

METTA [Bondande Amorosa]

22 outubro, 2002


O Elefante da Impermanência

Hoje foi arrumar o armário e o que eu encontrei no meio das roupas?
Um pacotinho de presente. Dentro dele um elefante que havia comprado há
algum tempo atrás e esqueci ali entre as coisas.
É um elefante que muda de cor conforme o tempo. Quando eu o comprei estava pink.
Estava chovendo naquele dia. Hoje fazia um dia sol. Abri o pacotinho e ...
elefante estava...pink. Pensei: Isso não funciona.
Mas depois pensei mais um pouco: deve ser porque ele esteve no escuro. Vou pôr ele em contato com a
luz do dia. Então saí. À noite, quando voltei.
Surprise! O elefantinho está lindamente azul.
Ainda tem uma terceira cor que ele pode adquirir: a lilás.
Agora ele vai continuar azul até o tempo mudar.
Vou chama-lo de o elefante da impermanência.

Bem a saga do elefante continuará pois andei vendo mais elefantes pela cidade, mas pra isso não virar um blog sobre elefantes vou dar um espaço entre um post e outro. Como diria a Mestra Heila devo estar com uma "quick fix" (ligeira fixação) por elefantes :)
Queria colocar uma imagem linda, que já postei aqui: tem um garotinho sentado com um livro sobre as pernas e um elefante com as pernas cruzadas em frente a ele, como se o garotinho estivesse lendo/ensinando o elefante. Mas meu programa de tratamento de imagem não tá funcionando, e não tenho o dito cujo para instalá-lo de novo :(

21 outubro, 2002

Pratica de Monge & Prática de Templo

O que nós fazemos aqui no Ocidente em relação ao Zen é prática de mosteiro, ou prática de monge.
Que é sentar em zazen, fazer prostrações, recitar o Sutra do Coração, os Votos de Bodhisattva, os Votos de Refúgio, etc.
O que os imigrantes fazem em geral ,é prática de Templo. Cerimônias ligadas às suas tradições de origem.
Um Culto mesmo, como numa Igreja. Esse culto tem uma seqüência, tem cantos, tem sermão...
A prática de monge é mais avançada em relação a de mosteiro? Não, ambas são consideradas necessárias, já que nem todos conseguem se adaptar tanto a uma quanto a outra. Imagine se um imigrante japonês que trabalha 8-10 horas na lavoura vai querer sentar de pernas cruzadas e ficar em silêncio! Uma dona de casa, uma feirante, um taxista. Por isso existem vários tipos de prática. Se não serve de um jeito, tem outro e outro e outro. Buda ensinou apenas a prática de monge, e de certa forma previu que haveria obstáculos para que esse tipo de prática fosse adotada por todos, por isso seu Sangha era essencialmente de monges. Foi o zen que mudou essa concepção “restritiva”, quase que dizendo: “precisa ser monge para praticar”. Mestre Hui Neng, o Sexto Patriarca, foi quem teria se preocupado mais em tornar a prática acessível a qualquer um que a desejasse sinceramente. Ele enfrentou muitas críticas e oposições dequeles que defendiam um zen apenas monástico, ortodoxo, baseado mais no estudo dos sutras, um zen mais intelectual. Ao contrário, Hui Neng, que teria sido analfabeto, e mesmo assim chegou a realização, ao discernimento do Dharma, defendia que não era necessário nenhum estudo, que já temos a natureza de Buda em nós, só precisamos despertá-la e para isso não precisamos estudar anos, ler milhares de livros. Só precisamos ver o que está em nossa frente, desde sempre. Está tudo aqui, só precisamos ver e para ver precisa acordar, abrir os olhos da mente. Então é ai que entra a prática do monge. Os monges “monges” estudam mais, passam por um treinamento intensivo, durante anos, porque além da prática de monge eles têm a prática de templo para dar conta, o contato com a comunidade, o trabalho missionário. Nem todos serão professores, mestres. A grande maioria será apenas um monge ( o que não é um demérito) envolvido nas tarefas do mosteiro ou do templo, enquanto outros, irão ensinar, dar palestras, entrevistas, divulgar o Dharma pelo mundo a fora.
Em um ano pode-se receber a ordenação de monge ( em geral pode levar 3-4 anos), enquanto que a permissão para ensinar o Dharma ( Transmissão) pode levar entre 7-12 anos de treinamento, dependendo de cada tradição e do seu Mestre.
Isso vale tb. para monge leigo. Aquele que não faz todos os votos e não vive no mosteiro. Na tradição do zen japonês os monges e monjas podem casar, ter filhos. Nessa tradição,a maioria dos monges se casam. A maioria das monjas preferem o celibato. Em geral o zen monástico é celibátário.

20 outubro, 2002

Nunca é tarde demais

Procura ser razoável no teu crescimento e não pense nunca que é tarde demais.
Ainda que tivesses que morrer amanhã, permanece no caminho correto e consciente, sendo um ser humano feliz hoje. Se mantiveres o teu estado feliz no dia a dia, no final, alcançarás a infinita felicidade do despertar.

Lama Thubten Yeshe [The Bliss of Inner Fire]

19 outubro, 2002

Já bateu na porta hoje?


Numa cidade em guerra, havia um rei que causava espanto. Sempre que fazia prisioneiros, não os matava: levava-os para uma sala onde havia um grupo de arqueiros de um lado e uma imensa porta de ferro do outro, sobre a qual viam-se gravadas figuras de caveiras cobertas de sangue. Nessa sala, ele os fazia enfileirar-se em circulo e dizia, então: "vocês podem optar entre morrer flechados por meus arqueiros ou passar por aquela porta e ficar trancados". Todos preferiam ser mortos pêlos arqueiros. Ao terminar a guerra, um soldado que por muito tempo serviu ao rei, dirigiu-se ao soberano:
- Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?
- Diga, soldado
- O que havia pôr detrás da assustadora porta?
- Vá lá e veja você mesmo.
O soldado então abriu vagarosamente a porta e viu que raios de sol entravam e iluminavam o ambiente.
E, finalmente, ele descobriu, surpreso, que a porta era o início de um caminho que conduzia até a liberdade.
O soldado, admirado, apenas olhou seu rei, que disse:
- Eu dava a eles a escolha, mas preferiam morrer a se arriscar a abrir essa porta.

Quantas delas você já deixou de abrir por medo de arriscar?

18 outubro, 2002

Aquilo que é de gosto amargo tende a ser um bom remédio.
Aquilo que soa desagradável ao ouvido pode ser um conselho honesto.
Reparando nossos enganos, adquirimos sabedoria.

Trecho do capítulo III do Sutra de Hui-Neng (sexto-patriarca)

17 outubro, 2002

Há um capítulo do Shobogenzo que diz assim,

"Você sabe pintar a primavera? Então pinte!"

Para viver realmente, tem que ser capaz de pintar a primavera, não o que ela representa.



14 outubro, 2002

Le Pèlerin de Compostelle



Vi meu ex-livro, Le Pèlerin de Compostelle.
E pensar que estive à porta de Mme Jeanne Savin em Saint Jean Pied-de Port sur les Pyrénées, e não bati nela! (na porta)
O que eu teria encontrado atrás daquela porta? Uma gorda, sonolenta senhora francesa, que me olharia com aquele ar de “mais uma chata querendo o ticket refeição do peregrino”. E quando ela ouvisse meu nome....Será que seu humor mudaria?
- Oh! Mlle, Jeane! Entre, entre, s’il vous plait!
Jamais vou saber. Não bati na porta. Será que ter batido naquela porta teria mudado meu destino?
Mme Savin vai ter que esperar porque não tem chance de eu voltar lá tão cedo para repetir a façanha de olhar a porta e não bater.
Quem sabe ela teria dito.
-Por que vc. demorou tanto. Eu estive te esperando, por longos anos! Quem sabe, ela não diz isso para todos!
Nunca vou saber. Não devo ser a única que foi até lá e não bateu na porta.
Portas me perseguem. É aquela velha história: quando vc. não quer, eles te perseguem. Quando vc. quer, todos fogem. Acha que vou continuar esnobando as portas, pq. na maioria das vezes elas me parecem senhoras sedutoras: venha, venha... E eu não vou. Não vou não! Portas devem ser o meu carma. Eu atraio portas. Enquanto eu não bater na porta certa sempre vai ter outra e outra porta na minha frente. Enquanto eu desvia-las ou ficar petrificada em frente a elas, novas portas cruzarão no meu caminho.
E aquela história que uma porta não se abre duas vezes, que as portas estão mais a se fechar do que a se abrir.
Como um raio que não cai duas vezes no mesmo lugar. Será? No meu caso o provérbio não comparece dessa maneira. As portas que o digam.
A única porta que eu queria abrir é a porta da mente. Mas nessa tenho que ficar de olho porque qualquer ventinho de nada e ela se fecha. Aí tenho que procurá-la novamente como quem procura um grão de areia num infinito oceano de possibilidades, começando do zero. Não um grão de areia qualquer, mas aquele exato grão, trazido à tona ao acaso, pescado de primeira. Ufa! Começar de novo. A procura por uma frestinha, o buraco da fechadura, a chave. Começar do zero todos os dias, isso é mente zen ou mente de principiante.

13 outubro, 2002

Como salvar todos os seres?


by Kenn Briner

É muito comum confundir um Bodhisattva com um Supermen.
Não precisamos ser heróis e sair por ai salvando todo mundo.
Simplesmente praticar honestamente e com empenho já é uma grande
ajuda. Veja o que Buda fala sobre os deveres de um Bodhisattva.

(1) Assim eu ouvi. Uma manhã, quando o Buddha estava perto de Shravasti no bosque de Jeta.

(2) Do meio da assembléia levantou-se o Venerável Subhuti, juntando as palmas das mãos, inclunou-se diante do Buddha. "Senhor," ele disse, "Tathagata! Honrado-por-todo-o-mundo! Que maravilhoso é que sejamos protegidos e instruídos pela Sua misericórdia!

Senhor, quando homens e mulheres anunciam que desejam seguir o Caminho do Bodhisattva e nos perguntam como devem proceder, que devemos dizer-lhes?

*Formalmente seguir o caminho de Bodhisattva sig. tomar os votos de refúgio.

(3) Bom Subhuti," respondeu o Buddha "sempre que alguém anuncia, `Eu quero seguir o Caminho do Bodhisattva porque quero salvar todos os seres sencientes; e não importa se são criaturas formadas em um útero ou chocadas em ovos; se seus ciclos de vida são tão observáveis como os de minhocas, insetos e borboletas; ou se aparecem miraculosamente como cogumelos ou deuses; ou se são capazes de pensamentos profundos ou de nenhum pensamento, faço o voto de conduzir cada um dos seres ao Nirvana!' então, Subhuti, deves lembrar o que tomou os votos que mesmo que um tal incontável número de seres fosse assim libertado, na verdade nenhum ser seria libertado.
Um Bodhisattva não se apega à ilusão de uma individualidade ou entidade egóica ou a uma identificação pessoal. Na verdade, não existe qualquer "eu" que liberta e nenhum "eles" que são libertados.

(4) "Além disso, Subhuti, um Bodhisattva deveria ser desapegado de todos os desejos, sejam de ver, ovir, cheirar, tocar ou degustar qualquer coisa, ou seja o de levar multidões à iluminação. Um Bodhisattva não prova da ambição. Seu amor é infinito e não pode ser limitado por apegos ou ambições pessoais. Quando o amor é infinito seus méritos são incalculáveis.

"Nem podes medir os méritos de um Bodhisattva que ama, trabalha e dá sem desejo ou ambição."

"Bodhisattvas deveriam prestar atenção particular a esta instrução.
"


"O Senhor respondeu, "Subhuti, não duvides disso!
Sempre haverá Bodhisattvas virtuosos e sábios; e, em eras por vir, estes Bodhisattvas plantarão suas raízes de mérito sob muitas árvores Bodhi. Receberão este ensinamento e responderão com serena fé porque sempre haverá Buddhas para inspirá-los. O Tathagata os verá e os reconhecerá com seu olho-Búddhico porque nestes Bodhisattvas não haverá obstruções, nem percepção de um eu individual, nenhuma percepção de um ser separado, nenhuma percepção de uma alma, nem de uma pessoa. E estes Bodhisattvas também não vão perceber as coisas como tendo qualidades próprias nem como sendo destituídas de qualidades próprias. Nem vão discriminar entre bem e mal. A discriminação entre boa e má conduta deve ser usada como se usa um barco. Depois que deixa aquele que cruzou a corrente no outro lado, deve ser abandonado."

"Subhuti, saibas também que se qualquer Bodhisattva dissesse, `Eu vou criar um paraíso', ele estaria mentindo. E porquê? Porque um paraíso não pode ser construído nem destruído.

"Saibas então, Subhuti, que todo o Bodhisttva, maior ou menor, deveria experimentar a pura mente que vem depois da extinção do ego. Tal mente não discrimina e faz julgamento de som, gosto, toque, odor, ou qualquer qualidade. Um Bodhisattva deveria desenvolver uma mente que não forma qualquer apego ou aversão a qualquer coisa.



(17) "Senhor, como então deveríamos instruir aqueles que querem tomar o voto do Bodhisattva?"

"Diga a eles que se quiserem chegar à Perfeita Iluminação que Transcende Comparações eles devem estar decididos em suas atitudes. Devem estar determinados a libertar cada ser vivente mas devem entender que na verdade não há seres vivos individuais ou separados."


"Subhuti, para ser chamado um Bodhisattva na verdade, um Bodhisattva deve ser completamente destituído de quaisquer concepções de um si mesmo."

"Agora, como deveria ser a maneira de um Bodhisattva [...]? Deveria ser desapegado das coisas fraudulentas do Samsara e deveria permanecer na verdade eterna da Realidade. Deveria saber que
o ego é um fantasma e que tal ilusão não precisa persistir por muito tempo.

"E assim ele deve ver o mundo impermanente do ego -
Como uma estrela cadente, ou a vaidosa Vênus ofuscada pela Aurora,
Pequena bolha na água corrente, um sonho,
A chama de uma vela, que tremula e se vai."

Quando o Buddha terminou, o Venerável Subhuti e os outros na assembléia se encheram de alegria com o ensinamento dEle; e, recebendo-o sinceramente em seus corações, tomaram seus caminhos."

O Sutra do Diamante. Versão abreviada. Texto Completo ver no Site. [Trad. da versão inglesa por Rev. Chuan Yuan Shakya]



12 outubro, 2002


Rainy night,
the top leaves wave
In the grey sky


Kerouac Haiku’s

Koan do Elefante.

Koan Encosto



O Elefante misterioso continua fazendo suas inesperadas e surpreendentes aparições.
Parece um fantasma.
Sempre que esqueço do koan: Quem é o elefante? , ele aparece, para me lembrar do dito cujo. Dou um elefante para quem conseguir responder esse koan!
Quem é o elefante?
É um estorvo. Um Benjamim. Ufa! Não era o que eu tava pensando que era. Benjamim. s.m.1.filho caçula ou predileto 2. O caçula de um grupo 3. Peça que permite conectar mais tomadas elétricas.
Mas vamos aos fatos:
No livro do Chico Buarque Cap 3. tem uma histórinha sobre um elefante de pedra. Esse foi o elefante que cruzou ontem comigo. “Nell’anno 1535 l’andarino portoghese Damião Boledo avvistò la grande pietra grigia e pensò si trattasse di un elefante addormentato, come quelli che un tempo aveva visto a Sumatra. Si apprestò ad avvicinarsi all’animale, calcolando que per quel tratto avvrebbe impiegato mezza giornata.”

No ano de 1535 um andarilho português chamado D.B. viu uma grande pedra cinza e pensou que fosse um elefante dormindo, como aquele que ele tinha visto em Sumatra. Se apressou em ir para perto dele, calculando que para isso levaria meio dia andando.

Chico Buarque de Holanda [Benjamim,53. Ed. Mondadori,1999. Trad. Amina Di Munno]

Seguindo as Pegadas



Alguém passou por aqui procurando por elefante + símbolo + budismo.
Segui as pegadas do elefante e descobri coisas interessantes. Uma delas: Tem um boddhisattva que é representado sob um elefante brandindo uma espada. É um boddhisattva guerreiro, que corta a ignorância das mentes iludidas e deludidas. Ele se chama Fugen Bosatsu (Samantabhadra Bodhisattva). Tembém pode aparecer sobre um leão.

O bodhisattva de beleza universal, segura uma flor de lótus, representando a natureza búddhica, que é totalmente pura. Às vezes, ele é representado sobre um elefante, um dos maiores animais, simbolizando a força de sua compaixão.

No Budismo o Bodhisattva é aquele que pela própria santidade poderia ir para o nirvana, mas renúncia a ele temporariamente para salvar seus semelhantes. Todos nós devemos seguir o exemplo de compaixão dos Bodhisattvas sendo também boddhisattvas neste mundo.

Também encontrei na matéria na Rev. Superinteressante esse trecho:

“Assim como com qualquer símbolo religioso, a vida de Sidarta é povoada de lendas, como a do nascimento. Diz a lenda que sua mãe, Maya, sonhou que entrava em seu flanco (parte lateral do corpo entre o quadril e as últimas costelas) um elefante branco com a cabeça cor de rubí e seis presas. Desse encontro, em sonho, Sidarta foi concebido. Ele nasceu de cor dourada, com uma coroa orgânica no alto da cabeça, quarenta dentes brancos e unidos e centenas de símbolos desenhados nas plantas dos pés. “

Nesse caso acho que é a metáfora básica da concepção.

Na lenda, o elefante significa a mansidão e as seis presas, os sentidos do universo: norte, sul, leste, oeste, para cima e para baixo.”

E as centenas de símbolos desenhados na sola dos pés?
Já vi isso, mas nunca procurei saber o que tinha na sola do pé do Buda. Exoterismos à parte, agora fiquei curiosa!

Em outra página, pegada, diz que Buda teria sido gerado sem a contribuição básica do papi, e que ele nasceu com a forma de um elefante branco, concebido pelos deuses, como Jesus, Khrisna .... Enfim, lendas são lendas. Mas precisa inventar tudo isso? É que os indianos são muito folclóricos. E sua mitologia está cheia de deuses em forma de animais.
Então que chance um Buda com forma humana teria no meio daquela fauna toda?
Aconteceria o mesmo que aconteceu com Jesus, tentariam trucidá-lo. Buda foi salvo pela lenda!
Mas lá adiante, foi justamente um elefante quem tentou matar Buda.

11 outubro, 2002

Por que fazemos gasshô quando entramos e saímos da sala de meditação?



No Oriente quando duas pessoas se encontram elas cumprimentam uma a outra, de acordo com seu status, fazendo gasshô. As pessoas que são de classe alta, se inclinam apenas um pouquinho; as que pertencem a classes menores se inclinam mais profundamente. Essa é a hierarquia Oriental. Mas quando nós entramos na sala de meditação, nós deixamos fora essa mente alta-baixa; um imperador se inclina para o Buda e uma pessoa pobre tb. se inclina para o Buda. Isto é cultivar a humildade. Neste momento a mente se torna muito simples. Este tb. é o momento para prestar atenção e ter uma correta atitude com a situação. O Buda é o nosso ideal e nossa inspiração. Então a relação correta é se inclinar diante do altar.

Mestre Zen Seung Sahn [Revista Primary Point]

09 outubro, 2002

08 outubro, 2002

Qual é a direção correta?

A prática em grupo

Hae Jae e Kyo Che [retiro de 3 meses] significa praticar em grupo, sem apego. A ação conjunta é muito importante.
Entre as pessoas que praticam há três classes:

1. O Estudante Limitado- Essas pessoas não conseguem praticar sozinhas, longe das condições e situações que elas possam facilmente controlar. Então, elas sempre tem problemas na sua prática.

2. O Estudante Médio- Esse tipo de pessoa tem problema em praticar quando está na cidade. Se ele for para uma montanha para meditar, sem problema, rapidamente ele e a natureza se tornam um.

3. O Grande Estudante- Este pode praticar na cidade e em qualquer lugar sem problemas. Qualquer ação é sem problema.

Você deve saber por si mesmo a qual classe vc. pertence. Eu não posso dizer isso para vc. depois vc. deve decidir a sua direção de prática: sozinho, em grupo, na cidade, retirado.

Decidir praticar é o mais importante.

Qual a sua direção, qual seu trabalho?

Por que viemos a este mundo?
Seres humanos originalmente não têm direção nem objetivo. Mas vc. pode escolher sua direção certa e ajudar a todos os seres, então a grande direção aparecerá. Este é o seu trabalho. Este é o trabalho certo para os seres humanos.
E então qual é o trabalho certo das pessoas? Seres humanos são originalmente nada. O Sexto patriarca Hui Neng disse: “originalmente nada”, mas isso é apenas uma idéia; vc. precisa conseguir esse “nada” e encontrar o seu trabalho certo. Isso é muito importante.
A Sutra do Coração diz: ” sem olhos, sem ouvidos, sem nariz, sem língua, sem corpo, sem mente”. Essa é a prática técnica. Ver, não ver. Ouvir, não ouvir. Provar, não provar. Somente uma mente. Uma mente significa: sem olhos, sem ouvidos, sem nariz, sem olfato, sem corpo, sem mente. Então a Anattura Samyak Sambodhi aparece; isso é verdade. Abra os olhos. Abra os ouvidos. Abra a boca. Abra o corpo. Abra a mente. Então vc. pode ver: meu trabalho, Aaaaaaaaahh!.... Eu entendo meu trabalho!

Entender seu trabalho significa entender Anattura Samyak Sambodhi. Essa é a “verdade”. Vc. deve conseguir a verdade. Depois qual é a função da verdade? A correta função da verdade é ajudar todos os seres. Esse é um ponto muito importante. Esse é o significado de “GATE GATE PARAGATE PARASAMGATE BODHI SVAHA”. Todos chegam ao Nirvana juntos- ação em conjunto.

Todos juntos colocamos tudo para fora. Minha opinião, minha condição, minha situação. A correta opinião, a correta condição, a correta situação aparecem.
Então faça isso. Não se pergunte. Não procure ao lado, não procure fora, não procure em nenhum lugar. Somente neste momento, qual é o meu trabalho? Momento a momento o que é seu?

Seus corpo não é seu. Ele desaparecerá logo. O que é nosso?
Esse mundo tem muitas coisas: céu, árvore, animais, casa, tudo. No seu bolso tem algum dinheiro. Este é o seu dinheiro? Não, ha,ha. Ele não é seu. O que é seu?

Tudo está sempre mudando, mudando. Tempo e espaço estão sempre controlando vc..
Tempo e espaço controlam tudo.
Então antes de se tornar um. Se vc. pode se tornar um, então abra lentamente os olhos, depois seus ouvidos, a fala, o corpo a mente. abrir a mente é Anattura Samyak Sambodhi, que significa que a verdade aparece. O céu é azul, a árvore é verde, o cachorro faz: au, au, o teto é amarelo, a almofada é marrom. Tudo é verdadeiro. O que não é verdadeiro? Tudo é verdadeiro! A verdade é o que a Sutra do Coração diz: GATE GATE PARAGATE PARASAMGATE BODHI SVAHA. Isso significa ação em conjunto. É ajudar a todos os seres. E não apenas nessa vida, depois dessa vida. Depois a vida continua tentando, tentando, tentando. Essa é a nossa direção.

O problema do Ego

Esse mundo é estúpido. Se vc. vê a TV ou ouve o rádio, vai ouvir os políticos dizendo: “Eu sou isso e isso e isso, eu tenho isso, e isso. Vcs. me escolhem e eu vou fazer isso, eu tenho isso e isso.” Mas o que eles realmente têm? Ha, ha! “Eu, Eu , Eu” Então, “Eu, Eu, Eu”. Ha, ha, isso é estúpido: “Eu, Eu, Eu” Mas nós não temos “Eu”. É muito importante entender esse “EU”. Então, Uau, eu entendi meu trabalho! Somente ajudar todos os seres.

Freqüentemente as pessoas ficam se perguntando, se vão ser famosas, se vão ter dinheiro. Então seu Eu,Eu,Eu se torna mais forte e mais forte. Isso é um problema. Olhem os animais. Eles não ajudam uns aos outros. A mãe e o pai ajudam seu filhote enquanto ele cresce, cuidam dele. Essa é a mente animal. Um cão não entende a mente de um gato. Um gato não entende a mente de uma cobra. Uma cobra não entende a mente de um inseto. Eles não entendem uns aos outros.
Hoje muitas pessoas matam os animais e depois os comem. Se formos para as cidades e olharmos para as pessoas, elas têm uma face humana, mas suas ações são de cobra, de leão, de gato. Não são mais mentes humanas. Quanto por cento de mentes humanas as pessoas tem hoje em dia. E essa mente é muito importante, mesmo para quem está praticando a pouco tempo ou virá a praticar. Essa é a mente correta. Essa é a correta direção do ser humano.

Qual a direção correta, qual a prática correta

Se vc. olhar para esse mundo vc. verá que muitas pessoas não entendem qual é a direção correta. Eles não entendem qual é a prática correta. Um mês, dois, três. Isso não é suficiente para praticar. Pensem em Buda, ele se sentou sob a Árvore Bodhi por seis anos! Somente alguns meses não é suficiente. Olhem para o Buda sentado sob a Árvore Bodhi. Ele somente sentou, sem se mover muito, sem comer muito, então, finalmente, uma manhã ele viu uma estrela e tcham!!! Ele ficou iluminado. Todos podem chegar a realizar isso. Um pequeno despertar, um grande despertar, não importa. Se sua direção for clara, então cada dia vc. fará o mesmo que o Buda fez. Cada um poderá ser Buda. O despertar do Buda é possível. Essa é a nossa direção.

Zen Master Seung Sahn [In:Primary Point Magazine,19]

07 outubro, 2002

Mente Simples

A única mente que pode enxergar a vida de maneira transformada é a simples. O dicionário define simples como "tendo ou sendo composto por apenas uma parte". A percepção consciente pode absorver uma multiplicidade de coisas, da mesma forma como o olho consegue captar muitos detalhes ao mesmo tempo. Mas em si mesma a percepção consciente é uma coisa só. Ela permanece inalterada, sem acréscimos ou modificações. A percepção consciente é completamente simples; não temos de acrescentar nada, nem de modificá-la. É despretensiosa e isenta de arrogância. Não pode evitar de ser assim, a percepção consciente não é uma coisa, para ser afetada por isto ou aquilo. Quando vivemos a partir da pura percepção consciente, não somos afetados por nosso passado, nem pelo presente, nem pelo futuro. Uma vez que a percepção consciente nada tem que possa servir-lhe de fingimento, é humilde. É modesta. Simples.

Charlotte Joko Beck [Zen. Nada Especial ]

06 outubro, 2002

Avalokiteshvara, o Bodhisattva da Compaixão

(chin. Kuan-yin, Kuan-hsi-yin; jap. Kannon, Kanzeon, Kanjizai; cor. Kwan Seung Bosal; tib. Chenrezig/ spyan ras gzigs)

"Aquele que ouve os sons de todos os mundos", é o bodhisattva da compaixão, o mais venerado do buddhismo Mahayana. Segundo as lendas, ele nasceu de um raio de luz emanado pelo dhyani-buddha Amitabha. Das lágrimas de Avalokiteshvara, teria nascido Tara (chin. Tuo-luo, jap. Tarani, tib Drölma/ sgrol ma), o aspecto feminino da compaixão, que manifesta 21 emanações. Na China, Avalokiteshvara é um ser feminino — talvez uma personificação única de Avalokiteshvara e Tara, ou devido a uma confusão de Avalokiteshvara com Pandaravasini, a consorte de Amitabha. Sua montanha sagrada é P'u-t'o-shan (província de Chekiang).

Perguntei para alguém o por que do Buda Amitabha ser a figura central, e não Shakyamuni, na maioria dos escolas budistas.
Me responderem com outra pergunta: Quem é Amitabha?

Amitabha
[chin. O-mi-t'o , jap. Amida, tib. Öpagme/ 'od dpag med]

Amitabha, Luz Infinita, personifica a sabedoria primordial discrimnadora (sânsc. pratyavekshana-jnana), que discerne todos os seres sencientes e que reconhece a expressão individual de cada um, a sabedoria que transmuta o veneno do desejo e do apego. Ela vê claramente todos os fenômenos, de forma simultânea e sem qualquer tipo de confusão.
Sua cor é vermelha como o rubi e seu agregado é a percepção pura. Seu símbolo é o lótus (sânsc. padma), que representa a compaixão, a pureza, a natureza verdadeira. Seu gesto é o dhyana-mudra, o gesto da meditação, feito pelo Buddha ao meditar sob a árvore de Bodhi.

Na verdade a maioria das escolas tiveram influência da Escola Tendai que venerava Amithaba daí
a reverência ter se mantido, mas na Soto Zen parece que foi abulida e se reverencia o Shakyamuni e
Kannon.

05 outubro, 2002


Sempre quis fazer como o Walt Whitman, sair por ai, sem destino. Viver em comunhão com a natureza.
Walt o fez, mas se tornou decadente. Não fez bom uso dessa liberdade. Walt influenciou os Beats, mas quem influenciou Walt? Talvez o “Sidarta” de Herman Hesse, que é bem diferente do Sidarta Gôtama, o original, o Budhha. Não, acho Hermann Hesse não é do tempo de Whitman
Tá mais para Ralph Waldo Emerson, Thoreau com sua cabana no lago (uma vida auto suficiente).
Sir Edwin Arnold escreveu “The Light of Asia”, Burnouf influenciado por Schopenhauer escreveu “The Dial”, em 1844. Foram os primeiros a falar sobre budismo no Ocidente.

Mesmo de uma forma decadente os Beats abriram as portas para o budismo entrar no ocidente moderno.
Por curiosidade, em busca de experiências místicas, paz e amor, sentir-se bem, a promessa de ser iluminado e acabar com todo o sofrimento do ser, atraiu muitos hippies. O budismo veio para cá e manteve seu estilo original.
Lá no oriente já está quase em extinção, quase ninguém pratica mais no estilo original, como nós praticamos aqui. Talvez um dia os orientais farão o caminho inverso. Virão para cá para recuperar o budismo perdido.Será ironia do destino, ou apenas carma.

Foto by Filipe Cama
Atenção e Fala

É preciso preservar-se da irritação verbal;
é preciso estar atento ao falar;
renunciando a fala distraída,
é preciso estar atento aquilo que se diz.

04 outubro, 2002

A dança das abelhas

Somos aquilo que sentimos e percebemos. Se estamos zangados, somos a raiva. Se estamos apaixonados, somos o amor. Se contemplamos um pico nevado, somos a montanha. Ao assistir a um programa de televisão de baixa qualidade, somos o programa de televisão. Enquanto sonhamos, somos o sonho. Podemos ser qualquer coisa que quisermos, mesmo sem uma varinha mágica.

Thich Nhat Hanh [O sol meu coração]
Treinando a atenção momento a momento

Heila,PSN sugeriu 20 passos para treinar a atenção momento a momento.
Faça uma lista com 20 coisas simples, como escovar os dentes, fazer xixi,
lavar a louça, comer uma fruta, tomar água, atender o telefone, etc
Experimente por uma semana apenas escovar os dentes, sem se distrair com mais nada, sem pensar no que irá fazer depois, nos próximos passos. Fique presente no momento “escovar os dentes”, por uma semana. Na próxima semana, experimente o segundo item da lista e continue com o primeiro e assim sucessivamente até o a vigésimo item. Depois de vinte semanas, vc. terá treinado sem perceber sua mente para estar presente nas coisas mais banais que vc. faz.
Simples? Só experimentando.

Dogen said: “I am feeling this way one hundred percent

Me too! And you?

03 outubro, 2002

Qual a Tarefa do Zen?

Quem percorre as ruas da Chinatown na América, não deve deixar de notar a
estátua de um homem forte que leva nas costas um saco de lona.
Os comerciantes chineses o chamam de “O Chinês Feliz” ou o “Buddha que Ri”.
Ele se chama Hotei e viveu no tempo da dinastia T’ang. Não tinha nenhuma vontade de se
definir como Mestre Zen, nem de ter muitos discípulos a sua volta. Assim andava pelas estradas com
um enorme saco de lona cheio de doces, frutas, doces fritos, para dá-los de presente. Os distribuía às crianças que se juntavam em torno dele para brincar. Tinha instituído um jardim de infância da estrada.
Cada vez que encontrava um devoto do zen estendia-lhe a mão e dizia: -Dá-me um trocado, um só.
E se alguém o mandava voltar para o templo o lhe pedia para ensinar alguma coisa, ele repetia; - Dá-me um trocado.
Certa vez, enquanto estava ocupada no seu trabalho-brincadeira, passou um Mestre Zen e lhe fez uma pergunta: - Qual é o significado do Zen? Como resposta Hotei colocou o saco no chão.
-Agora, perguntou o mestre novamente, qual é a tarefa do Zen?
Logo, o Chinês Feliz recolocou o saco nas costas e continuou seu trabalho pela estrada.

Nyogen Senzaki &Paul Reps [101 Estórias Zen]

02 outubro, 2002

O Chá nada mais é que isto:
Primeiro você aquece a água,
Depois você prepare o chá.
Depois você bebe adequadamente.
Isso é tudo o que você precisa saber.

Tea is no more this:
First warm up water,
Second prepare the tea,
Finally drink adquately
This is all that you need to know.

Sen Rikyu [Cerimônia do Chá]

01 outubro, 2002

O Exemplo Universal

Quando praticamos não podemos esquecer que sempre haverá alguém nos observando.
Não são apenas as crianças que imitam os adultos. Nós imitamos e somos imitados constantemente.
Quando estávamos meditando noite à dentro, no retiro, alguém voltou-se para a parede. Logo quase todos,
inclusive eu, estávamos meditando voltados para a parede.
É bem verdade que a movimentação de pessoas caminhando, entrando e saindo, fazendo prostrações, incomodava. Quando eu estava lá de frente para a parede me senti tão só. Eu pensei: não vim aqui para praticar sozinha. Então voltei para o centro e me senti mais forte.
Do meu lado havia uma pessoa que cambaleava dormindo na almofada. Já tinha ouvido falar que
podia dormir, só não podia sair da almofada. Novamente pensei: não vim aqui para dormir, mas para ficar acordada.
Bons exemplos são importantes em tudo que fazemos, no dia a dia, e sobretudo na nossa prática formal. Nem precisa dizer que tudo, tudinho que fazemos a todo momento tb. consiste em prática.
Se somos displicentes ou arrogantes, aquelas pessoas que nos tomam como modelo, que precisam desse suporte para se sentirem encorajadas a praticar, aquelas pessoas que são preguiçosas ficam ao sabor do vento.
Nosso exemplo deve ser honesto, verdadeiro. Se for dissimulado, falso, tanto para mais ou para menos isso vai perturbar as pessoas.
É muito comum ver pessoas que têm uma postura de estátua, mas se batermos nelas, estão vazias, se as quebrarmos não tem nada dentro. Pessoas que dissimulam uma prática que não têm. Pessoas que no Zendo
parecem grandes praticantes, bons exemplos, mas basta vê-los no seu ambiente natural para perceber que
não levam para suas vidas, para o cotidiano, a prática. A prática tem que ser diária, constante, cotidiana.
O esforço não pode morrer ali no Zendo, em alguns dias de retiro e não pode se resumir no zazen ou em qualquer outra prática formal, cerimonial e sobretudo a prática não deve ser por nós mesmos, tem que ser em benefício de todos os seres.
Ter uma vida correta, moderada, já seria um exemplo suficiente.
Não podemos esquecer que não são apenas os seres deste mundo que nos tomam como exemplo.
Seres de todos os reinos nos olham e desejariam estar no nosso lugar. É por eles que nós praticamos também.
Esses milhares de seres de milhares de reinos invisíveis, inferiores, médios, superiores tb. precisam de nosso exemplo. Sobretudo aqueles que que têm maior chance de um renascimento na forma humano, e portanto a única oportunidade de praticar. Se nós formos o exemplo de prática que estes seres precisam, eles já nascerão muito mais próximos de encontrar o Caminho, com maior possibilidade de começar a praticar mais cedo do que nós mesmos que talvez tenhamos tido que renascer várias vezes até descobrirmos a Via da prática. Então nossa responsabilidade é imensa, não nos esqueçamos disso.
Não vamos dar maus exemplos, pois eles causam enorme sofrimento aqui e em outros planos de existência.

Vamos ser um bom exemplo!

A Atenção Plena nos traz para o mundo presente.
É lembrar-se constantemente de voltar ao momento presente.