15 setembro, 2002

Praticando Atenção Plena vou deixar de sentir, pensar, vou ficar alienado?

Não vai não. Antes de tirar conclusões apressadas, experimente. Essa é uma das máximas do Buda.

Não deixamos de pensar e de sentir, apenas o fazemos com mais qualidade.
Aprendemos a perceber quando estamos julgando e decidimos o que fazer no exato momento em que
O julgamento nos vem a mente. Decidimos se o deixamos ir em frente, se o observamos com cautela para ver onde ele vai parar, e o deixamos se dissolver, se lhe damos corda e o intensificamos, ou se o paramos no ato.
Com a prática da Atenção Plena nossa percepção das coisas fica mais aguçada, mais clara, lúcida. É como um filtro, só passa o que queremos que passe, o que deixamos passar.
Então podemos escolher.
Alguém pode pensar: “Ah, mas isso é se auto-policiar o tempo todo!”
É e não é, depende do nosso grau de entendimento (discernimento). Do quanto se é flexível ou inflexível consigo mesmo, com pessoas ( seres vivos em geral), e situações. Ai também entra o exercício da paciência.
Só deixamos de ser alienados quando despertamos por completo. Podemos ir melhorando, até ficar completamente desalienado.

Mesmo quando temos um despertar superficial (daí-kenshô), que já é uma grande coisa, até um médio kenshô ou satori ( iluminação mais intensa até a Iluminação propriamente dita), abertura da mente, insight, ainda continuamos a julgar.
Nada muda e tudo muda, pelo menos por um tempo, até se cair na real de novo.

Continuamos “aparentemente” a mesma pessoa. Isso significa que ainda podemos mudar ou que podemos ficar na mesma ou até retroceder. Nossos problemas estão do outro lado da porta nos esperando, não foram embora. Continuamos com os mesmos defeitos. Portanto Iluminação não é Fuga do Mundo Aqui e Agora.

-Então porque vou querer isso se nada vai mudar?

Iluminação não é mágica, é algo que se conquista na prática diária. Não cai do céu. Não é para se sentir bem e continuar alienado. Tem que trabalhar duro por ela. Sem apego, sem expectativas, não é uma busca egoísta, é por todos os seres. Porque se vc. melhora, todo o mundo melhora. Por que de fato ela já existe, só precisa despertar, abrir a porta, se desarmar e deixa-la entrar... Como se diz no Zen “deixar cair”, a couraça que nos envolve e impede que a Luz passe.
Se não prestamos atenção, nossos defeitos podem se intensificar, por isso a prática da Atenção Plena é importante. Ela é importante em todas as etapas do Caminho Óctuplo. Eu diria que é fundamental em todo o Caminho.
Nesse momento em que sua mente ou seu coração se abrem, durante e depois daí-kenshô, a Atenção Plena é crucial. Se nossa atenção não estiver forte, é mais difícil cairmos nas ciladas do ego.

Quais ciladas?

- Nos sentirmos especiais: “Agora sou iluminado, sou especial.”
-Ficamos orgulhosos e arrogantes, nos comparamos aos outros e nós achamos melhores.
-Achamos que ter chegado ao daí-kenshô (iluminação superficial), chegamos ao Satori. Achamos que é fim da prática, e não precisamos mais fazer nada, “já sou iluminado”, então relaxamos na prática e o daí-kenshô evapora.
Temos que começar tudo do zero. É como estar com um pé no paraíso e outro no inferno. Temos que escolher qual vamos retirar primeiro, se vamos a diante ou ficamos nisso mesmo.
Quando acontece uma abertura da mente, por menor que seja, é ai que temos que intensificar nossa prática, torná-la mais forte, prestar atenção no nosso comportamento, como estamos agindo, como estamos pensando, como estamos lidando com a situação, se estamos vaidosos. Se houver necessidade, é melhor procurar um mestre-professor do dharma para conversar do que ficar viajando na maionese.

Acima de tudo, bastaria voltar para a prática, como se nada de especial tivesse acontecido.
Volte para a almofada, lá onde tudo se desfaz. Volte à prática da Atenção Plena,
onde todas as ilusões podem ser dissolvidas.

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