02 setembro, 2002

Dialogando com Cecília I

Interlúdio
(trecho instrumental entre as partes de uma música, peça)

As palavras estão muito ditas
-É verdade, melhor a ausência de palavras.
e o mundo muito pensado.
-Outra grande verdade. Mas há solução, basta desfazer-se das palavras!
Fico ao teu lado.
-se queres...
Não me digas que há futuro nem passado.
-Não, nada direi sobre isso, pois só acredito no presente.
Deixa o presente — claro muro sem coisas escritas.
-Que discernimento tens minha cara! É isso mesmo! Deixa o presente.
Queres que eu me vá?
Não fales,
-Sem nada dizer, apenas ir?
Não me expliques o presente,
-Sim, prometo, nada há que explicar-te. Pois o presente é.
pois é tudo demasiado.
-Sim, há demasiado demais, até mesmo no presente.
Em águas de eternamente,
-Que águas são essas minha cara?
Seria a eterna correnteza que pode tanto nos trazer de volta ao sofrimento
como nos levar para o outro lado da margem?
o cometa dos meus males afunda, desarvorado.
-Lá vem vc. com metáforas! Tinha que afundar? Estavas indo tão bem.
De novo o medo de ir em frente.
Fico ao teu lado.
-Então, ficas? Mas te advirto que sou imperfeita.

Cecília Meireles [Interlúdio]

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