22 agosto, 2002

A Vida é cheia de Possibilidades

Deixa eu relatar o que aconteceu comigo quando raspei o cabelo pela primeira vez.
Eu queria com isso testar minha vaidade, como eu iria me sentir sem cabelos.
Demorei uma semana para decidir. Fui lá e cortei.
Eu não me senti estranha, não senti falta de nenhum fiozinho do cabelo perdido.
O que eu senti foi a estranheza das pessoas.
Ao invés de eu a dona do cabelo me sentir desconfortável,
outras pessoas que eu nem conhecia se sentiram desconfortáveis.
Eu não provoquei este desconforto nelas.
Elas já o tinham consigo por alguma razão desconhecida por mim.
Talvez algumas tenham pensado por quê? Será que ela está doente?
Que pena uma moça tão jovem! Então olhavam para mim e tomavam minhas
dores onde não havia dor, muito pelo contrário.
Quem me perguntou porque, eu respondi então sorriam ou se zangavam, mas entendiam.
Quando vejo alguém na rua: um mendigo, ou sem teto, eu me pergunto, será que ele está sofrendo?
Em geral nós pensamos que sim, mas quantos param pra perguntar se ele está sofrendo,
logo pensamos: ' Claro que sim, eu no lugar dele', etc, mas e ele?
Será que não é o caso de perguntar antes?
Muitos que são levados à abrigos ou instituições voltam para seu habitat já natural.
A rua é sua casa, é lá que eles sabem viver.
Em uma instituição teriam que aprender a viver de outro jeito.
De um jeito que não é o natural para eles.
De um jeito que exige uma estrutura mínima.
Eles tem estrutura mínima?
E se o mendigo fosse em nossa casa nos convencer
de que é melhor morar na rua do que morar em casas,
acharíamos natural e iríamos sem reclamar?
Se para nós não é natural viver na rua, mas para quem vive lá é.
Não seria o caso de respeitar a escolha do outro?
Pois se ele quisesse viver de outro jeito poderia procurar ajuda,
procurar outro jeito de vida, muitos o fazem, pois as pessoas sabem o que fazer,
a questão talvez seja, querer fazer.
Eu quero viver de outro jeito ou são as pessoas que querem que
eu viva de outro jeito porque o meu jeito de viver lhes é desagradável, díficil de aceitar.
Ser compassivo é respeitar a escolha do outro, mesmo que nos desagrade e perguntar,
antes de mudar a sua vida, se ele quer mudar de vida.
A vida é cheia de possibilidades, sempre vai haver uma que se encaixe em nosso jeito de ser.

Sem comentários: