28 agosto, 2002

As Quatro Confianças: tradução revisada e comentada


Buda estabeleceu o princípio das quatro confianças:

1.Não confie na pessoa, confie na doutrina.

-Quer dizer, não olhe o mestre como repositório da perfeição,
não tente idolatra-lo. Um bom mestre cada vez que os alunos tentam coloca-lo
em um pedestal trata de puxar-lhes o tapete. Como na história de mestre
Tokuda que respondeu uma pergunta, olhou para o lado e perguntou com uma
careta à minha esposa, sua aluna, "falei besteira, não foi?". Esta humildade
é que é a doutrina além da pessoa, o mestre também tropeça, também deixa
cair comida na toalha. Sua realização transparece onde não se espera.

2.Sobre a doutrina, não confie nas palavras, confie no significado.

- As palavras são cheias de armadilhas, é praticamente impossível ensinar o
zen com palavras. As anedotas e historietas são melhores por pedirem um
"salto" mental de compreensão que se explicado perde a graça. Um texto famoso
como o Sutra do Diamante termina com Buda "retirando as palavras" que
proferiu já que elas são pálida idéia do que pretendia transmitir. Esta uma
razão para o zen budismo insistir na transmissão "i shin den shin", da minha mente para a sua mente.

3.Com relação ao significado, não confie no significado
sujeito à interpretação, confie no significado definitivo
.

-As discussões sobre o significado das palavras, sua etimologia, seu
contexto, embora úteis o são apenas relativamente, em geral, geram apenas
mais discussão bizantina, referências a mais textos, orgulho erudito, e
perdem o aluno no emaranhado vasto dos textos, uns contestados outros
acusados de apócrifos etc...Melhor calar e tentar apreender o significado
último que vem através de insights intransmissíveis por raciocínios. O mapa
não é o caminho, os textos são mapas, mas não tem nada a ver com o cansaço,
o perfume do vento, os calos nos pés, o gosto da água do cantil quando
estamos com sede, nem com a alegria da vista da montanha, este é o caminho
real, ninguém pode trilhar por você.

4.Com relação ao significado definitivo, não confie na
mente ordinária, confie na Grande Sabedoria [prajna]
.

- A mente ordinária é individual, quer entender para si. Não percebe que
todo o universo respira junto com ela. Na outra margem existe uma mente que
não é a sua, mas a qual vc pertence indissociavelmente. Atingida esta
Grande Sabedoria não há mais dúvida, tampouco explicações. O significado
definitivo não pode ser abrangido pela mente ordinária que pensa e cogita,
por esta razão as discussões são em última instância, inutilidades, milhares
de anos de filosofia não atingiram a outra margem, mas geraram muitos
combates. É preciso estar além da mente ordinária, cala-la para que a Grande
Sabedoria tenha espaço para se manifestar.