26 junho, 2002

Pessoa Zen

Às vezes medito,
Às vezes medito, e medito mais fundo, e ainda mais fundo
E todo o mistério das coisas aparecem-me como um óleo à superfície,
E todo o universo é um mar de caras de olhos fechados para mim
Cada coisa- um candeeiro de esquina, uma pedra, uma árvore,
É um olhar que me fita de um abismo incompreensível,
E desfilam no meu coração os deuses todos, e as idéias dos deuses.
Ah, haver seres!
Ah, haver seres!
Ah, haver maneira de haver seres
De haver haver,
De haver como haver haver,
De haver...
Ah, o existir o fenômeno abstracto-existir,
Haver consciência e realidade,
O que quer que seja...
Como posso eu exprimir o horror que tudo isto me causa?
Como posso eu dizer como é isto para se sentir?
Qual é alma de haver ser?

Ah, o pavoroso mistério de existir a mais pequena coisa,
Porque é o pavoroso mistério de haver coisa
Porque é o pavoroso mistério de haver...

Fernando Pessoa em Álvaro de Campos. Companhia de Letras [Poema 84]

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