14 junho, 2002

Não diga que parto amanhã
porque hoje mesmo ainda chego.
Olhe bem: chego a cada instante
para ser o botão num ramo na primavera,
para ser o pequeno passarinho,
de asas ainda frágeis,
aprendendo a cantar o meu novo ninho,
para ser a lagarta no coração da flor,
para ser a jóia que se esconde na pedra.
Chego ainda para rir e para chorar,
para temer e esperar.
O ritmo do meu coração é o nascimento
e a morte de tudo que está vivo.
Sou a efeméride que se metamorfoseia à flor d’água
e sou a ave que, quando vem a primavera,
chega a tempo
de comer a efeméride.
Sou a rã que nada feliz na água limpa de um lago,
e sou a cobra que,
em silenciosa aproximação,
vem se alimentar da rã.
A minha alegria é como a primavera,
tão doce que faz brotar as flores
em todos os caminhos da vida.
A minha dor é como um rio de lágrimas,
tão forte que enche os
quatro oceanos.
Chame-me pelos meus nomes verdadeiros,
por favor,
para que eu possa ouvir de uma só vez todo o meu pranto
e todo o meu riso,
para que eu veja que a minha alegria
e a minha dor
são uma só.
Chame-me pelo meus nomes verdadeiros,
por favor,
para que eu desperte,
e para que a porta do meu coração possa
ficar aberta,
a porta da compaixão.
Thich Nhat Hanh [Paz a Cada Passo]

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