30 junho, 2002

So-shu sonhou,
E tendo sonhado que era um pássaro,
uma abelha, e uma borboleta
Pensou com seus botões,
para que procurar sentir-se como qualquer outra coisa.
Daí sua satisfação.

Ezra Pound [ Poesia]

29 junho, 2002

Apesar do frio aqui em casa tenho conseguido manter a meditação.
Não é mais uma hora como no verão, mas pelo menos 20min.
O frio não deveria me incomodar. Acho que ando preguiçosa mesmo.

Já nem tenho mais tanta vontade de ler. Acho que a "xícara de chá"
se esvaziou ou está se esvaziando lentamente.
Algumas necessidades vão se perdendo. Não sinto falta. Tanta leitura
entorpece a mente. É preciso dar uma parada para assimilar o que
é bom e descartar o que não serve.
Quero me dedicar mais a prática, isto é certo.


26 junho, 2002

Pessoa Zen

Às vezes medito,
Às vezes medito, e medito mais fundo, e ainda mais fundo
E todo o mistério das coisas aparecem-me como um óleo à superfície,
E todo o universo é um mar de caras de olhos fechados para mim
Cada coisa- um candeeiro de esquina, uma pedra, uma árvore,
É um olhar que me fita de um abismo incompreensível,
E desfilam no meu coração os deuses todos, e as idéias dos deuses.
Ah, haver seres!
Ah, haver seres!
Ah, haver maneira de haver seres
De haver haver,
De haver como haver haver,
De haver...
Ah, o existir o fenômeno abstracto-existir,
Haver consciência e realidade,
O que quer que seja...
Como posso eu exprimir o horror que tudo isto me causa?
Como posso eu dizer como é isto para se sentir?
Qual é alma de haver ser?

Ah, o pavoroso mistério de existir a mais pequena coisa,
Porque é o pavoroso mistério de haver coisa
Porque é o pavoroso mistério de haver...

Fernando Pessoa em Álvaro de Campos. Companhia de Letras [Poema 84]

21 junho, 2002

O Olho Interior

Os mestres de todas as religiões não se cansam de ressaltar que a
Verdade a que eles se referem só pode ser ouvida com o ouvido interior e só pode ser visualizada com o olho da alma.
A abertura do ouvido interior é o propósito central do Zen.
Significa o despertar do homem para um novo nível de consciência, totalmente
diferente, o que implica em uma revolução no âmbito espiritual.

K.G. Dürckheim [O Zen e Nós]

16 junho, 2002

The Human Route

Coming empty-handed, going empty-handed -- that is human.
When you are born, where do you come from?
When you die, where do you go?
Life is like a floating cloud which appears.
Death is like a floating cloud which disappears.
The floating cloud itself originally does not exist.
Life and death, coming and going, are also like that.
But there is one thing which always remains clear.
It is pure and clear, not depending on life and death.

Then what is the one pure and clear thing?



As Transformações Começam Conosco


Monja Coen

Há um antigo ditado japonês:

"Se houver relacionamento, faço; se não houver relacionamento, saio".

Um Mestre Zen, no final do século passado, fez a seguinte alteração:

"Havendo relacionamento, faço; não havendo, crio relacionamento".

Para descobrirmos novas maneiras precisamos, primeiramente
desenvolver a capacidade de perceber como
estão nossos relacionamentos atuais.
Observe e considere meticulosamente a si mesmo.
Perceba como está se relacionando
em casa, na rua, no trabalho, no lazer.
Perceba como respira, como anda, como toca nos objetos, como usa sua voz,
como são seus gestos e como são seus pensamentos e os não pensamentos.
Esse observar não deve ser limitante, constrangedor, confinador.
Apenas observe. Como você se relaciona com o meio ambiente,
biodiversidade, reciclagem, justiça social, melhor
qualidade de vida, guerras, violência, terror, paz,
harmonia, respeito, garantia dos Direitos Humanos?
Como você e o seu logos se relacionam entre si e em relação
aos projetos de sucesso, de lucro, de desenvolvimento
e progresso de sua organização.
Como está se relacionando com o mais íntimo de si mesmo,
com a essência da Vida, com o Sagrado?
Será que é capaz de ver, ouvir, sentir e perceber
a rede de inter relacionamentos
de que é feita a vida? Percebe e leva em consideração,
na tomada de decisões, a interdependência?

Mahatma Gandhi disse:

"Temos de ser a transformação que queremos no mundo".

Qual o primeiro passo?

Conhecer a si mesmo. Conhecer nossos mecanismos.
O que nos afeta, nos incomoda? O que nos alegra? O que nos irrita?
Como transformar a raiva em compaixão?
Como transformar o desafio em competição leal, justa,
empreendedora, enriquecedora? Sem nos preocuparmos com os créditos,
se formos capazes de fazer o bem, não fazer o mal,
fazer o bem aos outros estaremos transformando nossos lares,
nossas amizades, nosso ambiente de trabalho, nossas organizações,
nossas cidades, estados, países, nações, mundo... e a nós mesmos...

"Estudar o Caminho de Buda é estudar a si mesmo.
Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo.
Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo que existe.
Transcender corpo e mente seu e dos outros.
Nenhum traço de iluminação permanece e a Iluminação
é colocada à disposição de todos os seres
."

[Mestre Zen Eihei Dogen - 1200-1253]

14 junho, 2002

Não diga que parto amanhã
porque hoje mesmo ainda chego.
Olhe bem: chego a cada instante
para ser o botão num ramo na primavera,
para ser o pequeno passarinho,
de asas ainda frágeis,
aprendendo a cantar o meu novo ninho,
para ser a lagarta no coração da flor,
para ser a jóia que se esconde na pedra.
Chego ainda para rir e para chorar,
para temer e esperar.
O ritmo do meu coração é o nascimento
e a morte de tudo que está vivo.
Sou a efeméride que se metamorfoseia à flor d’água
e sou a ave que, quando vem a primavera,
chega a tempo
de comer a efeméride.
Sou a rã que nada feliz na água limpa de um lago,
e sou a cobra que,
em silenciosa aproximação,
vem se alimentar da rã.
A minha alegria é como a primavera,
tão doce que faz brotar as flores
em todos os caminhos da vida.
A minha dor é como um rio de lágrimas,
tão forte que enche os
quatro oceanos.
Chame-me pelos meus nomes verdadeiros,
por favor,
para que eu possa ouvir de uma só vez todo o meu pranto
e todo o meu riso,
para que eu veja que a minha alegria
e a minha dor
são uma só.
Chame-me pelo meus nomes verdadeiros,
por favor,
para que eu desperte,
e para que a porta do meu coração possa
ficar aberta,
a porta da compaixão.
Thich Nhat Hanh [Paz a Cada Passo]

06 junho, 2002



Shaka Nyorai (sânsc. Shakyamuni Tathagata), o sábio da família Shakya, é o Buddha histórico, Siddhartha Gautama. Há cerca de 2.500 anos, na Índia, ele deixou a riqueza de seu palácio para descobrir o caminho da iluminação. Depois de meditar por muitos anos, ele alcançou o despertar e passou a ser chamado de Buddha, o iluminado.

Ele é representado como a mão esquerda levantada, nos chamando para a iluminação. A mão direita, com o polegar voltado para dentro, representa a sua firmeza.

Seu mantra em sânscrito: Namah samanta buddhanam bhah

Seu mantra em japonês: Nômaku sanmanda bodanan baku

05 junho, 2002

Metta Sutta Amor Bondade Dhamma

Isto é o que deve ser feito por aquele que é hábil nos seus propósitos,
que quer progredir para o estado de paz:
Ser capaz, correto e sincero,
fácil de ser instruído, gentil e sem arrogância,
satisfeito e fácil de ser sustentado,
com poucas obrigações, vivendo de maneira simples,
com as faculdades em paz, um mestre,
modesto, e sem cobiça por patrocinadores.
Não faça a menor coisa
que os sábios possam depois censurar.
Pense: Feliz, em paz,
que todos os seres sejam verdadeiramente felizes.
Todos os seres que existam,
fracos ou fortes, sem exceção,
compridos, grandes,
médios, curtos,
sutis, grosseiros,
visíveis e invisíveis,
próximos e distantes,
nascidos e buscando o nascimento:
que todos os seres sejam verdadeiramente felizes.
Não permita que um engane ao outro
ou despreze qualquer um, em qualquer lugar,
ou devido à raiva ou irritação
deseje que alguém sofra.
Como uma mãe arriscaria sua vida
para proteger o seu filho, seu único filho,
da mesma forma, com relação a todos os seres,
cultive um coração sem limites.
Com boa vontade para todo o universo,
cultive um coração sem limites:
Acima, abaixo e em toda volta,
desobstruído, sem hostilidade ou ódio.
Quer seja parado, andando,
sentado, ou deitado,
esteja alerta todo o tempo,
mantenha essa atenção plena com determinação.
A isto se denomina um estado sublime
no aqui e agora.
Não seja aprisionado por idéias,
mas virtuoso e perfeito na visão,
tendo subjugado o desejo pelo prazer sensual,
ele nunca mais
irá estar em um útero.

[Sutta Nipata I.8 Karaniya]





02 junho, 2002

O que é a Meditação Vipassana

Meditação significa a prática de desenvolvimento ( bhavana ),
cuja base é a consciência plena, a atenção plena ( sati ).
As traduções em inglês usam termos equivalentes como awareness, mindfulness.
Vipassana significa vi ( clareza ) - passana ( ver ):
ver claramente, intuição imediata, insight, através
da experiência da contemplação direta das coisas.
Visão interior é ver as coisas como elas realmente são,
seja do nosso mundo interior ou exterior.
Ver as coisas segundo sua tríplice característica:
a impermanência ( anicca )
o sofrimento e insatisfação ( dukkha )
do insubstancialidade de um "eu" ou de um "meu" ( anatta )
Nossa mente é como um lago de águas agitadas, o que impede
que a luz emerja do fundo de nós e que por ela vejamos a realidade claramente.
Tendemos a reagir automaticamente, movidos por impulsos
que não percebemos em suas causas, desenvolvimento e conseqüências.
Para lidar com isso, precisamos de um método que ofereça um suporte
que torne a mente calma e concentrada (samadhi), penetrante.
Este suporte ou foco é a respiração. Ao invés de sons ou visualizações,
seguimos o método que usa a respiração como base para adestrarmos a
atenção, sati, e despertarmos a mente.
Inspirando e expirando a mente traz de modo estável a
atenção para o conhecimento do corpo e da mente,
conhecimento que apoiado pela sabedoria, pañña,
erradica da mente os venenos da ganância, do ódio e da delusão,
conduzindo a mente para a Liberação, para a Iluminação.

Por que Meditação?

Todos os seres buscam a felicidade, a saúde, a paz. Não há ser
que queira o sofrimento. Mas devido à nossa ignorância, tendemos a crer
que o sofrimento e a insatisfação provêm apenas de causas exteriores.
Por isso nos limitamos a lutar por mudar as condições exteriores,
crendo que tornando-as propícias, seremos pacíficos e felizes.
Mas mesmo assim, continuamos insatisfeitos e infelizes.
É porque ignoramos a principal fonte de nossa felicidade e
problemas: a mente.
A meditação é a chave da prática que abre as portas
do conhecimento e manejo de nosso corpo e mente.
Qual é o nosso ponto de partida? Constatarmos que a existência é sofrimento
e insatisfação ( dukkha ), agitando a mente.
Esta é a Primeira Nobre Verdade que Buddha descobriu.
De onde vem o sofrimento e a insatisfação, perguntou Buddha?
Vem do desejo, da sede ( tanhã ).
Esta é a Segunda Nobre Verdade, a da causa do sofrimento ( samudaya ).
Tendo uma causa, há um modo de cessar o sofrimento.
Cessando a causa, cessa o efeito.
Esta é a Terceira Nobre Verdade, a da cessação do sofrimento ( nirodha ).
Como cessar o sofrimento, ou seja, como cessar essa sede do desejo?
Através do entendimento e da prática do Nobre Óctuplo Caminho ( ariya attangika magga ).
Esta é a Quarta Nobre Verdade, a do caminho que leva à cessação do
sofrimento (magga ).
O Nobre Óctuplo Caminho tem três aspectos:
a conduta ética ( sila )
a disciplina mental da concentração ( samadhi )
a sabedoria ( pañña )
A conduta ética envolve o entendimento e a prática de três aspectos do Nobre Óctuplo Caminho:
a fala correta ( samma-vaca )
a ação correta ( samma-kammanta )
o modo de vida correto ( samma-ajiva )
A disciplina mental da concentração envolve o entendimento e a prática de três aspectos do Nobre Óctuplo Caminho:
o esforço correto ( samma-vayama )
a atenção plena correta ( samma-sati )
a concentração correta ( samma-samadhi )
A sabedoria envolve o entendimento e a prática de dois aspectos do Nobre Óctuplo Caminho:
a visão correta ( samma-ditthi )
a intenção correta ( samma-sankappa )
Entendendo e praticando o Nobre Óctuplo Caminho, libertamos a mente
e alcançamos a realização espiritual ( Nibbana ).

Onde aprender Meditação Vipassana
"O passado é como um sonho,
O futuro como uma miragem,
Enquanto que o presente é como as nuvens."

Buda

01 junho, 2002

Heila Downey
Ji Do Poep Sa Nim*
da Escola Zen Coreano Kwan Um

Próximo retiro no Brasil em Setembro 2002: SP, BH, POA

Entrevista com Heila Downey, discípula do Mestre Zen Seung Sahn

A Mestre Zen Heila Downey, da África do Sul, conta como foi seu encontro e caminho espiritual junto ao grande Mestre Zen do ramo Rinzai do budismo Coreano, Seung Sahn Dae Soen-sa Nim. Fala da sua transição do Zen japonês, quando era ligada ao Roshi Philip Kapleau para a Escola Kwan Um e como recebeu a transmissão de "inka" ou permissão para ensinar através de koans. Narra fatos da sua visita ao Brasil, seu encontro com alunos Zen.

"Em nossa tradição, quando o mestre Zen percebe que vc. está pronto para ser
um professor, ele então o manda para três mestres Zen (em 1995, pois atualmente
são cinco) para se submeter a entrevistas de koan (kong-na, em coreano), de ensino e
de prática. Então esses mestres escrevem uma recomendação para o Mestre Zen Seung Sahn:
“Avaliamos que esta pessoa está pronta “ ou não...
Depois de aprovada ela foi para a América fazer a cerimônia de Inka, que significa receber do
Mestre Seung Sahn a permissão para ensinar o Darma.
É uma cerimônia pública onde muitos pessoas comparecem, cerca de 200-300, muitos monges e
professores de alto nível.
Duas almofadas de acento são postas frente a frente, e qualquer pessoa pode vir e fazer
Qualquer tipo de pergunta! O Mestre Zen Seung Sahn fica ali junto fazendo
“marquinhas” no papel: “certo”ou “errado”, “com clareza” ou “sem clareza”, “hesitante”
ou “não hesitante” . Ele verifica seu direcionamento quando uma pessoa qualquer faz perguntas-
crianças, jovens, velhos, monges, monjas, professores. Todo e qualquer tipo de pergunta,
não apenas koans. Muitas perguntas foram do tipo: “Qual a velocidade de um trem?”, “Qual o som de
um pássaro?” Depois de uma meia hora respondendo perguntas, há um intervalo e o Mestre decide se dá ou não a Inka. Em seguida há a cerimônia onde são dados o bastão e os certificados que dizem que aquela pessoa
a partir desse momento tem a sua permissão e da sua linhagem para ensinar."

Treachos da Revista Bodigaya [ Ano 5 Número 12]

artigos de Seung Sahn

*Ji=apontar, Do=caminho, Poep=Dharma, Sa Nim=professor